"O AUKUS levanta sérios problemas de proliferação "

Major-general diz que o risco da desinformação sobre armamento é elevado e que o pacto dos EUA, Reino Unido e Austrália traz novos problemas.

A China negou as recentes notícias de que testou no espaço um veículo planador hipersónico. Como interpreta este secretismo e qual é a meta de Pequim?
Devo dizer que não conheço nenhuma potência que alarde publicamente tecnologias que se encontrem em fase de desenvolvimento, sem estarem devidamente testadas e prontas a serem utilizadas. Esse secretismo não se aplica apenas às indústrias de defesa. É um procedimento normal noutras áreas. A indicação que nos dá é de que a tecnologia não se encontra ainda em condições de ser empregue. O objetivo de Pequim é construir uma capacidade dissuasora nuclear e convencional credível.

De que forma este desenvolvimento se conjuga com as estratégias da China e dos EUA no Indo-Pacífico, pouco tempo depois de uma demonstração de força junto de Taiwan?
A ter acontecido como relatado pelo Financial Times, poderá ser uma resposta chinesa à surpresa da constituição de uma aliança trilateral de segurança pelos EUA, Reino Unido e Austrália (AUKUS) para atuar no Indo-Pacífico. É o dilema da segurança a funcionar.

Os EUA foram apanhados de surpresa. Os serviços de informações não conseguem penetrar na muralha chinesa?
Não sei se foram apanhados de surpresa. Nem sempre o que se diz corresponde ao que se pensa. É um tanto ou quanto incompreensível disporem de tanta informação sobre o que se passa, por exemplo, em Xingiang e não seguirem a par e passo o programa nuclear chinês, uma ameaça ao território norte-americano. A ser verdade, algo parece não ir bem nas prioridades norte-americanas de intelligence.

Os EUA estão atrasados em relação à China e à Rússia no desenvolvimento de armas hipersónicas. As opiniões dividem-se entre ser uma perda de dinheiro investir somente na defesa e que a corrida ao armamento é inevitável. Para onde crê que Washington vai pender?
Não sei se estão atrasados. A informação de que disponho é oposta a essa. Poderá interessar a alguém passar para a opinião pública essa ideia. O complexo militar industrial, por exemplo. Até há pouco tempo, os EUA não estavam atrasados relativamente à China. Bem pelo contrário. Não sei porque estariam agora. Os EUA são o país que mais gasta em defesa, e com diferença: três vezes mais do que a China. O risco de alinharmos na desinformação de ambos os lados é elevado.

A Coreia do Norte diz ter testado um míssil hipersónico, alegação contestada por alguns peritos. O Hwasong-8 pode ser fruto de cooperação militar com Pequim?
É uma hipótese, como tantas outras. Uma possível resposta a essa pergunta exige que se responda primeiro a outra. O que teria a China a ganhar em partilhar com a Coreia do Norte tecnologia tão sensível? Tenho alguma dificuldade em encontrar resposta a esta pergunta, dado o que separa Pequim de Pyongyang não só em termos geoestratégicos como em matéria de desenvolvimento do programa nuclear norte-coreano.

Tal como a Coreia do Norte, a China não está vinculada a tratados de controlo de armas nucleares. Como é que os EUA podem chamar a China para a não-proliferação?
Não é só a Coreia do Norte e a China que não estão vinculadas a tratados de controlo de armas nucleares. Há outros países na região que também não estão. É difícil encontrar uma solução para o problema da não-proliferação na região sem abordar o problema da não-proliferação global. A recente constituição do AUKUS e da utilização de submarinos nucleares pela Austrália cria um precedente que outros Estados da região quererão seguir, levantando sérios problemas de proliferação. Uma agenda de não-proliferação tem necessariamente de incluir este aspeto, não se podendo limitar à China e aos EUA.

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