O atoleiro afegão: de Gorbachev a Biden

Quando em 1989, ao fim de nove anos de guerra, as tropas soviéticas cruzaram a Ponte da Amizade que ligava o Afeganistão à URSS, a América rejubilou. Agora, são os EUA que retiram do país após 20 anos de conflito.

É tempo de pôr termo à mais longa guerra da América". Foi nestes termos que o presidente Joe Biden anunciou, há dias, a retirada das tropas americanas do Afeganistão, onde entraram há 20 anos, na sequência dos atentados do 11 de Setembro. Biden falava a partir da mesma sala da Casa Branca onde foram anunciados em 2001 os primeiros ataques aéreos contra o Afeganistão, era George W. Bush o presidente.

A retirada deverá estar consumada a 11 de setembro, data que ultrapassa em quatro meses o deadline anunciado ainda por Donald Trump, mas que assume a dimensão simbólica de coincidir com o 20.º aniversário dos atentados contra Nova Iorque e Washington.

Ao anunciar a retirada americana, Biden deu desde logo sinal claro de que a decisão tinha sido tomada sem particulares exigências ou garantias quanto à situação no Afeganistão. "Não podemos continuar o ciclo de prolongar ou expandir a nossa presença militar no Afeganistão à espera de criar as condições ideais para a nossa retirada, na expectativa de um resultado diferente".

Ou seja, a decisão da retirada militar americana, prontamente secundada pelos aliados da NATO que participam na operação afegã, não depende de todo da situação no terreno, apesar dos alertas de que os talibãs possam tirar largos ganhos da saída das tropas internacionais.

A decisão da Casa Branca, que retoma no essencial a política de Trump de pôr termos às "guerras eternas" da América, foi recebido com surpresa e desconfiança no Governo de Cabul face à expectativa de que a nova Administração Biden adotaria uma atitude tendo mais em conta as condições ao processo de paz em curso. Um responsável anónimo de Cabul, citado pela BBC, chamou ao anúncio de Biden "irresponsável".

Talibãs irredutíveis

Os talibãs reagiram prontamente ao anúncio da Casa Branca acusando os americanos de violarem um acordo que previa a retirada a 1 de maio, exigindo a retirada imediata das tropas americanas e ameaçando "tomar todas as contramedidas necessárias".

Está em causa um entendimento concluído a 20 de fevereiro do ano passado, o acordo de Doha, que previa a retirada total do contingente americano e da NATO prevendo que os EUA e os seus aliados as NATO retirariam todas as suas tropas do Afeganistão até ao início de Maio de 2021 na condição de os talibãs respeitarem uma série de promessas, entre elas a de não permitir que a Al-Qaeda (promotora dos atentados de 2001) ou outros grupos militantes operassem em áreas sob o seu controlo, e de prosseguir as negociações de paz com o Governo de Cabul.

Antony Blinken reagiu de pronto à ameaça advertindo os militantes contra quaisquer ataques às tropas no processo de retirada. "Se os talibãs atacarem as nossas forças no processo de retirada, depararão com uma resposta em grande escala" - advertiu o secretário de Estado norte-americano.

O porta-voz dos talibãs, Mohammed Naeem, garantiu, poucas horas depois do anúncio de Biden que "o Emirado Islâmico não participará em qualquer conferência que venha a tomar decisões sobre o Afeganistão até todas as forças estrangeiras terem retirado completamente do nosso território".

A atitude inamovível dos talibãs põe para já em causa uma conferência internacional "de alto nível" organizada pela Turquia, Qatar e Nações Unidas, e que constitui uma peça crucial na nova estratégia afegã da Administração Biden, procurando relançar e conferir outra dimensão ao processo de paz. A conferência, aprazada para o próximo dia 24 em Istambul, propunha-se conseguir um passo decisivo para a paz com a formação de um Governo incluindo os talibãs.

Responsáveis americanos e da NATO garantem que os talibãs não honraram no compromisso de reduzir a violência no Afeganistão. Os talibãs deixaram de atacar a forças internacionais em virtude do histórico acordo, mas continuaram a fustigar as tropas do governo afegão.

As negociações de paz prosseguiram entretanto, mas o processo tem-se arrastado sem qualquer perspetiva real de acordo.

Desequilíbrio militar

Conseguir a retirada de todas as forças estrangeiras que apoiam o governo afegão representa para já uma importante vitória para os talibãs. A retirada americana ameaça alterar substancialmente a correlação de forças no terreno.

O presidente afegão, Ashraf Ghani, repete que as forças de defesa do Afeganistão "são perfeitamente capazes de defender o povo e o país", e estão prontos para a batalha. Mas a verdade é que o Governo afegão depende decisivamente dos ataques aéreos americanos para conter os talibãs.

Os ataques violentos no Afeganistão aumentaram muito desde a assinatura do acordo entre os EUA e os talibãs em Doha. Um relatório da ONU divulgado na quarta-feira revela que cerca de 1800 civis foram mortos ou feridos no Afeganistão nos primeiros três meses de 2021. Os talibãs negam estar envolvidos nesses ataques, mas a verdade é que continuam a resistir à conclusão de um cessar-fogo de âmbito nacional.

As forças afegãs continuam a controlar as maiores cidades, mas veem-se fundamentalmente remetidas a missões defensivas e lutam para conseguir manter algum território recapturado ou restabelecer uma presença em áreas abandonadas em 2020 - reza um relatório recente dos serviços de intelligence americanos. Os talibãs continuaram a conquistar terreno, e controlam hoje, segundo várias avaliações, cerca de 53 por cento do território afegão.

O Estado Islâmico e outros grupos terroristas conquistaram também terreno e uma presença significativa no Afeganistão.

Muitos afegãos receiam agora a ameaça de o país mergulhar de novo numa sangrenta guerra pelo poder ou por um regresso aos anos do "Emirado Islâmico do Afeganistão", o regime talibã que dominou o país entre 1996 e a ocupação americana na sequência do 11 de Setembro. Nos meios rurais a população acomoda-se aos valores ultraconservadores dos talibãs, mas nas cidades muitos receiam que acabem por se perder as conquistas dos últimos anos

Anunciada a retirada americana, muitos afegãos partilharam nestes dias com os media ocidentais um sentimento de abandono e de traição, sentindo que a comunidade internacional não honrou os seus compromissos em relação ao país.

As guerras da paz

O próprio quadro político afegão assume desde logo novas incógnitas. Está em jogo uma série de planos de paz propostos por forças rivais e traduzindo conceções virtualmente irreconciliáveis da paz e do futuro do Afeganistão. Ou seja, as elites políticas continuam a tentar maximizar a sua parcela numa luta pelo poder como a que eclodiu em 1992, na guerra de todos contra todos que se seguiu à retirada soviética.

Um tweet emitido pelo presidente afegão depois de ter falado com Joe Biden, na quarta-feira, e citado pela Deutsche Welle, resume de algum modo a situação. "A história lança uma sombra negra no Afeganistão. A muitos dos mesmos tenentes do poder e senhores da guerra que viraram as armas uns contra os outros num frenesim de guerra depois da retirada soviética em 1988 foi dado o prémio de um lugar num novo processo negocial". Receia-se que papel poderão agora ter no Afeganistão.

Esta retirada acabará provavelmente por provocar também sérias alterações na geopolítica do Afeganistão. A decisão de Biden de retirar as tropas do Afeganistão vai dar um papel acrescido aos atores regionais no país. Países como o Paquistão, a Índia, a Rússia e a China têm os seus próprios interesses estratégicos que serão mais viáveis sem a presença americana no Afeganistão. Islamabad sempre teve uma influência considerável sobre os talibãs e teve um papel crucial na anuência dos "estudantes de teologia" às negociações.

De Gorbachev a Biden

Quando os últimos soldados soviéticos cruzaram a Ponte da Amizade que ligava o Afeganistão à URSS, no dia 15 de fevereiro de 1989 - mais de nove anos depois da entrada do Exército Vermelho no Afeganistão -, a América rejubilou. Momento crucial nas reformas de Gorbachev, a situação foi vista como um símbolo da humilhação do Exército Vermelho e do declínio da própria União Soviética.

Ao cabo de vinte anos de intervenção, de um investimento de triliões de dólares e de mais de 2000 soldados mortos, no que foi a guerra mais longa dos Estados Unidos, a América prepara-se para deixar o Afeganistão sem glória.

O futuro político do país mergulha na incerteza. Os talibãs - que a intervenção americana expulsou há 20 anos de Cabul -, estão de novo à beira do poder e de restabelecer o "Emirado Islâmico do Afeganistão". O fantasma de uma nova e sangrenta luta pelo poder assombra de novo o Afeganistão.

A gigantesca operação internacional de assistência social, económica e humanitária internacional e os biliões de dólares parecem ter dado escassos resultados. América deixa um Afeganistão em que, segundo dados do Banco Mundial, mais de metade dos 36 milhões de habitantes do país vivem com menos de 1.60 euros por dia.

Em 1989 os soviéticos deixaram o Afeganistão entregue ao regime de Najibullah e a um exército treinado e equipado, mas que em breve se mostraria incapaz de manter o controlo do país. Trinta anos depois a América deixa o Afeganistão entregue a um regime refém e a um exército que, à luz dos dados disponíveis, terão escassas condições políticas e militares para resistirem aos talibãs.

dnot@dn.pt

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