Noruega volta a sentir o choque do terror, desta vez com um arco e flechas

Uma década depois do atentado cometido por Breivik, um homem aterrorizou uma pequena cidade durante mais de meia hora. Polícia fala em terrorismo islâmico, mas procuradora não quer adiantar-se à investigação.

Quatro mulheres e um homem, de idades entre os 50 e os 70 anos, são as vítimas mortais de um ataque que a polícia diz ser provavelmente de inspiração islamista. Desta vez não houve explosões nem tiros: o atacante fez uso de um arco e flechas na pequena cidade de Kongsberg, 80 quilómetros a oeste de Oslo. A polícia, que patrulha desarmada, demorou 35 minutos entre a primeira chamada para o número de emergência e o momento da detenção, já equipada com escudos e armas de fogo.

Habitante na localidade desde quase toda a idade adulta, Espen Andersen Brathen, de 37 anos, é filho de um norueguês e de uma dinamarquesa e tem nacionalidade do país onde estalou a polémica dos cartoons de Maomé, em 2005. Segundo o chefe da polícia regional Ole Saeverud, o detido converteu-se ao islão e disse que "antes tinha havido preocupações de que tivesse sido radicalizado", mas não explicou o que as autoridades fizeram para lá de o terem vigiado até 2020. Já Hans Sverre Sjoevold, diretor dos serviços de informações noruegueses, PST, confirmou que o suspeito era conhecido da agência.

Na quinta-feira, Sjoevold reconheceu "não saber as motivações do perpetrador" e que havia que esperar pelo resultado da investigação, mas que aparenta ser um "ato terrorista". Segundo a PST, "os ataques a pessoas aleatórias em locais públicos são um modus operandi recorrente entre os islamistas extremistas que praticam o terror no Ocidente".

Brathen chamou a atenção dos conhecidos em 2017, quando publicou um vídeo no Facebook, em norueguês e inglês, no qual disse que estava a fazer um aviso, não especificado, e que era muçulmano. Segundo um amigo ouvido pelo Aftenposten, o interesse pelo islão terá começado há uns dez anos, mas crê que não teria um conhecimento muito profundo da religião. "É frustrante pensar que eu e vários outros soubemos que ele era uma bomba-relógio", disse o homem que avisou a polícia quando viu o referido vídeo.

De acordo com meios de comunicação noruegueses citados pela Associated Press, Espen Andersen Brathen tinha um passado ligado à criminalidade: fora condenado por furto e posse de drogas, e no ano passado, depois de ter ameaçado de morte um dos pais, foi proibido por tribunal de se aproximar deles. O seu comportamento instável, em especial quando treinava com bastões no jardim, levou a vizinhança, assustada, a chamar a polícia várias vezes nos últimos meses.

"Abala-nos a todos quando coisas horríveis acontecem perto de nós, quando menos se espera, no meio da vida quotidiana, em plena rua." Rei Harald V"

Brathen desloca-se nesta sexta-feira a tribunal para ouvir as acusações de que é alvo. Na véspera, a procuradora Ann Svane Mathiasen explicou que, de momento, o detido vai ser acusado de assassínio e que a saúde mental do suspeito terá também de ser avaliada. "Se se está perante um ato de terrorismo é algo que a investigação irá revelar." O advogado de defesa Fredrik Neumann disse que Brathen estava a cooperar com as autoridades. A procuradora confirmou: "Descreveu claramente o que tinha feito. Ele admitiu ter matado as cinco pessoas." Além dos mortos, o atacante feriu gravemente outras duas pessoas.

Brathen, que segundo uma testemunha circulava com "setas numa aljava ao ombro e um arco na mão", atacou primeiro clientes de um supermercado, a menos de 500 metros da sua casa, segundo o Aftenposten, tendo causado caos e pânico até à chegada da polícia, seis minutos após ter recebido a primeira chamada. Desarmados, os agentes foram atacados com flechas pelo indivíduo - que também tinha outras armas não identificadas pelas autoridades - e dessa forma escapou e retomou o ataque a pessoas ao acaso. Foi na rua que Brathen se mostrou mortífero, e onde acabou por ser detido pela polícia, 35 minutos após as primeiras denúncias.

Ministros viveram terror

O ataque coincidiu com o último dia do governo conservador chefiado por Erna Solberg.

No dia seguinte, o novo executivo de Jonas Store, resultante da aliança pós-eleitoral de trabalhistas e centristas, não foi tanto noticiado por ter uma maioria de mulheres (10 em 19), até porque já acontecera duas vezes, mas porque dois ministros sobreviveram ao massacre no acampamento da juventude trabalhista na ilha de Utoya, em 2011. "Agora que estes jovens políticos talentosos estão a carregar consigo este passado, sinto que demos mais um passo importante e estou muito orgulhoso disso", disse Store de Tonje Brenna, de 33 anos, ministra da Cultura, e de Jan Christian Vestre, de 35, ministro do Comércio e da Indústria.

Dez anos depois do horror de Utoya

Com uma população de pouco mais de cinco milhões de habitantes, a Noruega perdeu na quarta-feira o equivalente a um sexto das mortes por homicídios ocorridas em 2020. Os noruegueses recordaram em julho o horror do duplo ataque terrorista, em Oslo e na ilha de Utoya, do neonazi Anders Breivik, que se saldou em 77 mortos.

Desde a Segunda Guerra, o país só havia sido palco de um tiroteio com várias vítimas: em 1988, um homem matou quatro pessoas e feriu outras duas. Em 2019, Philip Manshaus, de 21 anos, matou a meia-irmã, que não tinha origem nórdica, e seguiu para uma mesquita, na qual começou a disparar, mas foi parado por um dos homens presentes. Tal como agora, a polícia sabia da radicalização do perpetrador e demorou demasiado tempo a chegar ao local.

cesar.avo@dn.pt

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