Nord Stream 2: o gasoduto que liga Rússia à Alemanha mas preocupa muita gente

Acordo entre Berlim e Washington prevê sanções contra Moscovo caso os russos usem o gás natural como uma arma. Na mira está a Ucrânia, que tem sido até agora porta de entrada do gás russo na Europa e teme as consequências. Mas há outros que são contra o controverso projeto.

Uns temem que a Europa fique demasiado dependente da Rússia do ponto de vista energético. Outros que a Ucrânia possa ficar na mira de Moscovo quando deixar de ser essencial como país de trânsito para o gás natural russo. No centro de tudo está o Nord Stream 2, um gasoduto que liga a Alemanha à Rússia e que os EUA tentaram travar, aplicando sanções às empresas construtoras. Agora, com 95% do projeto concluído, Berlim e Washington chegaram a um acordo para tentar que Moscovo não use "a energia como uma arma".

O Nord Stream 2, com cerca de 1230 quilómetros, está a ser construído no mar Báltico, paralelo ao Nord Stream que já está em funcionamento desde 2011. Tem uma capacidade anual de 55 mil milhões de metros cúbicos, permitindo duplicar o atual fornecimento de gás russo à Alemanha. A maior economia da União Europeia (UE) importa cerca de 40% do seu gás da Rússia. Para Berlim, que procura alternativas ao carvão e ao nuclear, o gasoduto é um projeto necessário para alcançar esse objetivo.

A oposição dos EUA ao Nord Stream 2 não é de agora. Já o ex-presidente Barack Obama se queixava que este gasoduto deixaria a Europa ainda mais dependente da Rússia e só serviria para isolar a Ucrânia - que tem sido a principal porta de entrada para o gás russo na UE e que arrisca perder uma importante fonte de rendimentos (estimativas vão desde mil milhões a três mil milhões de dólares anuais). Em 2020, 45% do gás natural importado pela UE vinha na Rússia.

Já os russos alegam que o interesse dos EUA é só um e não tem nada a ver com a Ucrânia: o objetivo é travar a construção para poder exportar mais do seu próprio Gás Natural Liquefeito (LNG, na sigla em inglês) para a Europa. Em abril de 2016, o porto de Sines foi o primeiro a receber um navio-tanque de LNG vindo dos EUA e desde então que as importações europeias têm vindo a aumentar (no ano passado chegou aos 26 mil milhões de metros cúbicos).

A administração do ex-presidente Donald Trump apelidou o LNG norte-americano de "gás da liberdade" e aprovou sanções contra empresas que estavam a construir o Nord Stream 2, numa tentativa de travar o projeto. No último dia na Casa Branca, em janeiro deste ano, Trump aprovou sanções contra o navio Fortuna, responsável por submergir os tubos do gasoduto sob o mar Báltico.

Já o atual presidente Joe Biden, que também é totalmente contra o Nord Stream 2, manteve as sanções contras as empresas russas, mas optou em maio por renunciar à aplicação de sanções às empresas alemãs. Biden lembrou que herdou um gasoduto já quase completo - o seu secretário de Estado, Antony Blinken, apelidou-o de "fait accompli", um facto consumado - e que essa medida era "contraprodutiva" para a melhoria das relações transatlânticas. As sanções norte-americanas atrasaram a conclusão do projeto de dez mil milhões de euros (financiado a 50% pela estatal russa Gazprom e os restantes por empresas de energia da Alemanha, Áustria, França, Países Baixos e Reino Unido) mas a expectativa é que possa ficar concluído ainda este ano.

Acordo EUA-Alemanha

Ao abrigo do acordo agora alcançado, os EUA abandonam as sanções e a Alemanha promete responder caso os piores receios da Ucrânia se confirmem em relação ao gasoduto. O atual compromisso que existe entre Moscovo e Kiev termina em 2024, com os ucranianos a temer que depois disso haja um corte na quantidade de gás natural que passa pelo país e, consequentemente, da sua fonte de rendimentos. Além disso, sem a necessidade do gasoduto que passa pela Ucrânia, Kiev teme novas agressões na região - em 2014 a Rússia anexou ilegalmente a Crimeia.

"A Alemanha garantiu neste acordo que, se a Rússia tentar usar a energia como arma ou cometer atos agressivos contra a Ucrânia, agirá a nível nacional e pressionará por medidas eficazes a nível europeu, incluindo sanções que limitem a capacidade de exportação russa para a Europa no setor de energia", explicou a subsecretária de Estado para Assuntos Políticos dos EUA, Victoria Nuland, numa audiência no Senado.

"Espero que não precisemos delas", disse ontem aos jornalistas a chanceler alemã, Angela Merkel, referindo-se às sanções. "A Rússia disse que não vai usar a energia como uma arma. Vamos confiar na palavra deles", acrescentou. No passado Berlim tem separado as questões políticas das questões comerciais, não hesitando em apoiar a aplicação de sanções europeias contra Moscovo após a anexação da Crimeia ou o envenenamento do opositor Alexei Navalny. Contudo, apesar da pressão, recusou travar a construção do gasoduto.

No acordo, Berlim e Washington concordaram ainda trabalhar em conjunto para pressionar a prorrogação, por dez anos, do contrato de trânsito de gás pela Ucrânia - algo que Merkel já terá falado no telefonema com Putin. Além disso, a Alemanha prometeu ainda mil milhões de dólares a Kiev para apoiar a transição energética no país. Segundo o Kremlin, o presidente russo, Vladimir Putin, e Merkel, numa conversa telefónica, mostraram-se "satisfeitos" por ver que a conclusão da construção está próxima.

Num gesto de apoio à Ucrânia, o governo norte-americano anunciou que o presidente Volodymyr Zelensky será recebido por Joe Biden na Casa Branca a 30 de agosto. "A visita irá afirmar o apoio inabalável dos EUA à soberania e integridade territorial da Ucrânia diante da contínua agressão russa em Donbass e na Crimeia", segundo o comunicado da assessora de imprensa da Casa Branca, Jen Psaki.

A Ucrânia continua contudo a mostrar-se contra o gasoduto. Tal como a Polónia, que teme ser obrigada a pagar mais pelo gás russo caso este chegue via Alemanha em vez de entrar pelos gasodutos a Leste, que passam pela Bielorrússia. Num comunicado conjunto, os chefes da diplomacia de ambos os países alertaram que o Nord Stream 2 representa uma ameaça "política, militar e energética" para Kiev e a Europa Central.

Também a Lituânia fala de um "erro" que "vai custar caro". O ministro dos Negócios Estrangeiros lituano, Gabrielius Landsbergis, disse que o gasoduto é uma "grande vitória" para Putin, mas que ele precisa de pagar "um preço elevado" por ela. Na sua opinião, o Ocidente ainda vai a tempo de exigir concessões, antes de o ligar.

Eleições alemãs

A era de Merkel está a chegar ao fim e nas eleições de 26 de setembro a política alemã em relação ao gasoduto pode mudar. Armin Laschet, líder da CDU e candidato da aliança entre os conservadores e os aliados bávaros da CSU, é a favor da conclusão do projeto, mas também já disse que a Alemanha pode sempre "desligar a ficha" se a Rússia não cumprir com as suas obrigações. O mesmo defendeu o candidato dos sociais-democratas do SPD (atuais parceiros minoritários no governo), Olaf Scholz.

Mas Annalena Baerboc, dos Verdes, que chegou a estar à frente nas sondagens mas está há cerca de um mês em queda, aguentando-se ainda no segundo posto, já defendeu que seria melhor nem chegar a ligar o Nord Stream 2. Travar a construção implicaria uma série de custos, com as empresas que financiaram o projeto eventualmente a exigir compensações ao governo alemão.

susana.f.salvador@dn.pt

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