Mulher que matou o marido (e ex-padrasto) após décadas de abuso sai em liberdade

Tribunal conclui que Valérie Bacot é uma vítima. Mais de 600 mil pessoas tinham assinado uma petição a defender a sua libertação.

Valérie Bacot, a francesa que matou o marido (e ex-padrasto) após 24 anos de abusos, não vai cumprir pena de prisão. Condenada a quatro anos, com três de pena suspensa, Bacot já cumpriu um ano de prisão preventiva, pelo que será agora libertada. O júri acompanhou o pedido de clemência feito pelo procurador-geral que acompanhou o caso, considerando que a mulher é "uma vítima".

O caso de Valérie Bacot, que em 2016 assassinou o marido, tem suscitado um intenso debate sobre a pouca proteção da Justiça a vítimas de violência conjugal, apontado como um exemplo de tudo o que está por fazer relativamente ao abuso sexual e à violência doméstica. Mais de 600 mil pessoas assinaram uma petição a defender a sua libertação.

No julgamento, que decorreu na cidade de Chalon-sur-Saône, no leste de França, Valérie Bacot contou que começou a ser violada pelo então padrasto, Daniel Collete, aos 12 anos. O homem viria a ser condenado por agressão sexual de menores, mas cumprida a pena regressou a casa, onde recomeçou os abusos sobre a enteada. A jovem acabaria por engravidar aos 17 anos, após o que a mãe a pôs fora de casa, e Bacot foi viver com o agressor. "Não tinha ninguém. Onde é que eu podia ir?", diz, num livro que escreveu sobre a sua vida.

Vítima de constantes agressões, a viver num "inferno", como afirmou em tribunal, foi obrigada a prostituir-se nas traseiras de uma carrinha que o marido preparou expressamente para isso. Foi ali que tudo acabou, a 13 de março de 2016: Valérie Bacot pegou numa arma que o marido escondia no veículo e deu-lhe um tiro na nuca. Escondeu o corpo, ajudada por dois dos filhos, mas acabaria por ser detida e confessar o assassinato. Para lá da violência de que foi vítima ao longo de quase um quarto de século, Bacot disse que matou o marido para evitar que a filha de 14 anos (teve, entretanto, mais três filhos com o agressor) viesse a sofrer o mesmo destino, afirmando que Colette tinha começado a fazer comentários sexualmente sugestivos sobre a filha.

O veredicto foi recebido na sala de tribunal com lágrimas. "Quero agradecer ao tribunal, e todo o apoio que recebi de toda a gente. É um novo combate por todas as outras mulheres e todos os tipos de maus tratos. Não me sinto aliviada, sinto-me vazia psicológica e fisicamente", afirmou Valérie Bacot aos jornalistas, na sexta-feira à noite, quando saía do tribunal.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG