Mafioso acusa políticos turcos de crimes 

Criminoso foragido, que fez parte do círculo do partido no poder, aponta o dedo ao atual e a ex-ministro do Interior, num momento em que Erdogan tem popularidade em mínimos.

Há três semanas que um conhecido criminoso turco está a agitar a sociedade com graves acusações que implicam o atual ministro do Interior, entre outras personalidades, expondo o que é conhecido na Turquia por "estado profundo", as ligações entre políticos, mafiosos, militares, serviços secretos e grupos de extrema-direita, e em concreto as conexões do Partido da Justiça e Desenvolvimento do presidente Recep Tayyip Erdogan (AKP)às redes criminosas. No domingo, o mafioso acusou um antigo ministro e um militar pelo assassínio de dois jornalistas, em casos diferentes, nos anos 90.

Sedat Peker, de 49 anos, condenado por duas vezes em casos de crime organizado, trocou a Turquia pelos Emirados Árabes Unidos em finais de 2019 depois de ter sido alvo de uma investigação policial e, alega, ter sido avisado pelo ministro do Interior Suleyman Soylu. Também acusa este de lhe ter prometido proteção e faltado à palavra. Peker, que foi responsável pela organização de comícios pró-Erdogan, começou a fazer do YouTube o seu megafone depois de, em abril, operações policiais terem visado os seus negócios, bem como o dos seus comparsas.

Sedat Peker, que organizou comícios pró-Erdogan, diz que o ministro Suleyman Soylu prometeu protegê-lo e avisou-o que iria ser investigado, mas que faltou à palavra.

Cada um dos sete vídeos até agora publicados conta com milhões de visualizações. O mafioso tem dado pormenores e provas para apoiar as suas alegações, incluindo gravações de videochamadas. Confessou o seu papel em incidentes como o espancamento de um antigo deputado e um ataque aos escritórios do Hurriyet, que alegadamente organizou a pedido de membros do AKP.

Depois de a oposição exigir uma investigação parlamentar sobre as suas alegações, foi a vez de os Repórteres sem Fronteiras (RSF) e do sindicato de jornalistas turco. "A legitimidade ou posição de Peker não justifica o silêncio", comentou o representante turco dos RSF Erol Onderoglu.

No vídeo publicado no domingo, Peker alega que o antigo ministro do Interior Mehmet Agar era o chefe do "estado profundo" e que em 1993 esteve envolvido no assassínio do jornalista Ugur Mumcu. O carro deste jornalista do Cumhuriyet explodiu quando ligou a ignição. O líder mafioso atribuiu o homicídio do jornalista cipriota turco Kutlu Adali, morto a tiro em Nicósia em 1996, a Korkut Eken, tenente-coronel ao serviço da secreta turca.

Enquanto Suleyman Soylu, considerado um dos ministros mais poderosos da Turquia, nega as alegações bem como demitir-se, o presidente Erdogan, com o nível de popularidade em mínimos, fez saber que na última reunião governamental comparou os grupos criminosos a organizações terroristas, ambos "cobras venenosas". Para Ibrahim Uslu, cientista político do Centro de Investigação Social de Ancara, o caso é um fiasco de relações públicas. "O AKP deveria ter deixado claro que está a tomar medidas decisivas contra as organizações criminosas", disse à Deutsche Welle.

cesar.avo@dn.pt

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