Lula: "Fui vítima da maior mentira jurídica em 500 anos de história"

O antigo presidente do Brasil falou pela primeira vez após a anulação das suas condenações no âmbito do processo Lava Jato.

O ex-presidente brasileiro Lula da Silva recusou esta quarta-feira sentir mágoa pelos 580 dias que passou na prisão, por condenações na Lava Jato agora anuladas, afirmando que "o sofrimento que os pobres brasileiros estão a passar é infinitamente maior".

"Se tem um brasileiro que tem razão para ter muitas e profundas mágoas sou eu, mas não tenho, porque o sofrimento que o povo brasileiro e os pobres estão passando neste país é infinitamente maior do que qualquer crime que cometeram contra mim", afirmou Lula, na sua primeira declaração pública após as condenações no Paraná terem sido anuladas, na segunda-feira.

"Não há dor maior do que levantar de manhã e não ter a certeza de um café com pãozinho com manteiga para tomar, do que não ter um prato de feijão com farinha para dar ao filho, do que saber que está desempregado e não terá salário para sustentar a família", frisou o ex-mandatário.

Lula da Silva falou na sede do Sindicato dos Metalúrgicos, em São Bernardo, São Paulo, na presença de figuras políticas como Fernando Haddad, candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) que perdeu a eleição presidencial para Jair Bolsonaro, em 2018, e Guilherme Boulos, líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST).

"Se tem um cidadão que tem razão de estar magoado com as chibatadas, sou eu. Não estou. Pensam que, depois de dar chibatadas, é só deitar um pouco de sal e pimenta e que a pessoa se vai curar ao longo do tempo, não importa as cicatrizes que ficam. Eu sei de que eu fui vítima da maior mentira jurídica contada em 500 anos de história", afirmou.

No discurso, o ex-presidente manteve duras críticas aos procuradores da Lava-Jato em Curitiba e, principalmente, ao antigo juiz Sergio Moro. Durante o pronunciamento, Lula destacou que vai continuar a lutar pela suspeição do ex-magistrado.

"Nunca teve envolvimento meu com a Petrobras, e todo o sofrimento que eu passei acabou. Estou muito tranquilo. O processo vai continuar. Já fui absolvido em todos os processos fora da Curitiba. Mas nós vamos continuar 'brigando' para que Moro seja considerado suspeito, porque ele não tem o direito de se transformar no maior mentiroso da história do Brasil e ser considerado herói por aqueles que queriam me culpar", reforçou.

"Tenho a certeza de que, hoje, ele [Sergio Moro] deve estar a sofrer muito mais do que eu sofri. Eu tenho certeza de que o Dallagnol [ex-coordenador da Lava Jato de Curitiba] deve estar a sofrer muito mais do que eu sofri, porque eles sabem que cometeram erros e eu sei que eu não cometi nenhum", acrescentou o histórico líder do Partidos dos Trabalhadores (PT).

O juiz Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF) brasileiro, anulou na segunda-feira todas as condenações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pela Justiça Federal no Paraná, relacionadas com as investigações da operação anticorrupção Lava Jato.

A anulação foi decretada na sequência da decisão de Fachin, de declarar a incompetência da Justiça Federal do Paraná nos processos sobre a posse de um apartamento de luxo no Guarujá e de uma quinta em Atibaia, ambos em São Paulo, que haviam levado a duas condenações do ex-chefe de Estado brasileiro, em decisões das primeira e segunda instâncias.

Lula declarou estar "agradecido" a Fachin por ter "cumprido uma coisa" que a defesa do ex-presidente já "reivindicava desde 2016" e elogiou as declarações feitas na terça-feira pelos magistrados do Supremo Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski, em que consideraram "gravíssima" a conduta de Moro nos julgamentos de Lula.

A anulação das condenações não quer dizer que o antigo chefe de Estado brasileiro tenha sido inocentado já que os processos serão remetidos para a justiça do Distrito Federal, que vai reavaliar os casos e pode receber novamente as denúncias e reiniciar os processos anulados.

Com a decisão, porém, Lula da Silva voltou a ser elegível e recuperou seus direitos políticos.

Lula, de 75 anos e que governou o Brasil entre 2003 e 2010, chegou a cumprir 580 dias de prisão, entre abril de 2018 e novembro de 2019 e, desde então, o ex-presidente recorria da sua sentença em liberdade condicional.

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