Luiz Henrique Mandetta. "Bolsonaro tem cheiro de cemitério"

O primeiro dos quatro ministros da saúde do atual governo rompeu com o presidente por defender ciência, vacina, máscara e isolamento. Ganhou popularidade e tornou-se "presidenciável". "Lula contra Bolsonaro é um pesadelo. Eu quero um sonho"

Luiz Henrique Mandetta diz que "300 mil mortos" o separam de Jair Bolsonaro, de cujo governo fez parte mas com o qual rompeu a 16 de abril do ano passado por defender políticas baseadas na ciência.

Compara Bolsonaro a uma criança que mente por sistema, que não entendeu o peso da cadeira que ocupa e que sabota e sabotará quem quiser trabalhar com seriedade no combate ao covid-19 "mesmo que seja o prémio Nobel da medicina".

Considerado "presidenciável", depois de gestões técnica e mediática muito elogiadas no ministério da saúde, diz que tem havido reuniões constantes entre as eventuais alternativas "ao pesadelo de ter Lula e Bolsonaro na segunda volta". "O meu nome ser falado? É natural...", afirma.

A comunicação de Bolsonaro sobre a covid-19 ao país nesta semana estava repleta de omissões, exageros e mentiras, segundo sites de verificação. Como primeiro dos quatro ministros da saúde deste governo, o que achou dela?
O problema é igual ao daquela criança que mente sempre e que quando quer falar sério já ninguém acredita. Ele é essa criança. Uma criança habituada a usar fake news para tudo, a distorcer a verdade para tudo, a criar factóides para tudo. A única coisa que me parece proveitoso daquilo é que ele terá entendido que lhe foi dado um ultimato, como se o pai e a mãe da criança dissessem "acabou, é a tua última hipótese, mais uma e vais morar lá com a tua tia no Pantanal, com os jacarés, e não podes sair". Acho que foi isso que o presidente da Câmara dos Deputados [Arthur Lira] lhe disse: "aqui é o teu limite, o Congresso Nacional tem remédios amargos e o próximo remédio pode ser muito amargo". Para bom entendedor, meia palavra basta e acho que ele entendeu: ele é um pouco covarde, ele incita, incita, mas quando as pessoas falam "então "tá, vamos topar porrada", ele corre.

Bolsonaro não apenas levou à sua demissão como agora omite a sua gestão nos primeiros meses de pandemia, apagando o seu nome da comunicação do governo. Como vê isso politicamente?
Eles têm um problema comigo. Enquanto lá estive no início da pandemia, redimensionei rede de oxigénio, material, máscaras, enfermeiros, médicos, remédios, tubos, testes e isso deu-lhes a impressão, já depois de eu ter saído, que o sistema aguentava, que dava para retomar a economia, que era de facto só "uma gripezinha" e, por isso, não fizeram mais nada. Com isso, deixaram, por exemplo, testes apodrecerem, que agora tentaram reenviar para o Haiti, que os recusou, claro, e desacreditaram as vacinas, dizendo que a pessoa ia virar jacaré ou ter um chip na cabeça. E ele agora está com 300 mil cadáveres nas costas, o cheiro dele é um cheiro do cemitério. Está a tentar usar máscara mas será que é para se proteger do vírus ou do ar fétido dos erros macabros que cometeu? E não foi por falta de aviso: eu avisei-o do caminho todinho da doença.

Como avalia o trabalho dos seus sucessores, o médico Nelson Teich, o general Eduardo Pazuello e, agora, o também médico Marcelo Queiroga, acabado de tomar posse?
Esse Teich, se fosse rei, seria "Nelson Teich, o Breve": esteve lá 20 dias. O general Pazuello era um incompetente, que dizia estar a cumprir uma missão, mas a principal missão dele deveria ser com a verdade: se alguém me chamar para a missão de conduzir um Boeing, eu vou dizer "olha que eu vou matar essas 400 pessoas", mas ele topou ser ministro mesmo assim, causando essa mortandade toda. Ao próximo [Marcelo Queiroga] eu tenho de dar o benefício da dúvida. Se ele se orientar pela ciência, pela vida, pode fazer algo, pena que em cima de 300 mil mortos... Acho que o Bolsonaro está a pedir emprestada a credibilidade da medicina para dizer que se o ministro é médico ele não tem responsabilidade. Mas a responsabilidade dele está em tudo - nos atos, palavras e omissões. No fundo, você pode colocar lá o prémio Nobel da medicina que, se ele continuar sabotando, ou ele demite o ministro ou o ministro se demite.

Arrepende-se de ter assumido um cargo no governo Bolsonaro?
Eu sou uma pessoa ligada à saúde, fui eleito e reeleito deputado federal mas fui um parlamentar temático. Em 2018, a Frente Parlamentar de Saúde do Congresso Nacional disse-me "a única pessoa que conhece o SUS [sistema público de saúde do Brasil], que entende de gestão e pode ajudar é você". O presidente então chamou-me e disse para eu montar a minha equipa com base técnica, não política. Eu achei ótimo. Depois de, ao longo de anos, o PT ter usado o ministério como permuta, dando uma diretoria para um partido, outra para outro partido, estava na hora de uma gestão técnica. E em 2019 não dei nenhuma entrevista, trabalhei para dentro. Quando chega a pandemia e o trabalho técnico se impõe, ele disse que queria usar a minha credibilidade para fazer política. E política de baixa qualidade. Aí, eu tenho valores. E hoje 300 mil mortes me separam dele. Em resumo, não me arrependi de ter trabalhado com seriedade mas entendi que ele não presta e não sente o peso da cadeira. Eu lembro-me do Lula: dizia em pré-campanha "morte aos americanos", "invadam propriedade privada" mas quando se sentou na cadeira soube que era presidente de todos, parou e trabalhou.

Dá a entender, nessa sua última frase, que, tal como admitiu Fernando Henrique Cardoso [presidente de 1995 a 2002], num cenário "Lula versus Bolsonaro" na segunda volta das presidenciais de 2022 opta pelo primeiro.
Rapaz, esse cenário é pesadelo. Se eu tiver um pesadelo que estou a cair de um prédio, quando acordar vou jogar-me desse prédio? Não, não quero transformar isso em realidade e a sociedade também não quer. Queremos um sonho. Para eles os dois está confortável, eles nutrem-se um ao outro, mas esse confronto, essa ideia de que o Brasil que funciona é o meu, que eu é que decido o futuro de vocês e vocês têm o direito a permanecer calados, já levou o Brasil a estados de exceção, a lutas armadas. O Fernando Henrique e quem faz esse tipo de ilação já não sonha mais. Eu não, eu tenho a pressa, o sonho de ver esse país acertar. Espero que o nome venha de um grande guarda-chuva de um polo democrático - e que esse polo não se fragmente em cinco ou seis para não termos de viver o tal pesadelo numa segunda volta.

Incluem o seu nome debaixo desse guarda-chuva...
Incluem o meu nome, é natural que sim, porque entrei na casa de muita gente no início da pandemia com perfil sério, a falar a verdade e a fazer o básico de tratar bem as pessoas, a imprensa - aqueles dois lados, pelo contrário, querem fechar a imprensa. Mas há outros nomes. O primeiro ato é dizer "olha, o meu nome está à disposição mas não está imposto". Por isso é que eu não gosto de dizer que sou ou que não sou candidato. Eu vou dar tempo para que nos sentemos à mesa e evitemos esse pesadelo.

Já há conversas entre os nomes debaixo do guarda-chuva?
Já! Não sobraria papel no mundo se cada uma delas fosse noticiada nos jornais. Aquilo de que falamos não é "terceira via", não é "centro", é de estabelecer um polo democrático do tamanho de todos aqueles que não querem ser asfixiados pelos outros dois polos. Não um polo insosso, sem lado, sem convicção. Não: será um polo com gente com a convicção de que este país pode melhorar. O nome deve sair de alguém de debaixo desse guarda-chuva, após amplos debates, o ideal seria que tivéssemos poucos partidos e usássemos a figura das prévias, mas não temos, e se possível que tivéssemos até participação popular de gente que tem faca no dente, brilho no olho, que está com pressa. Essa gente vai sair de casa e a gente vai ter um novo dia.

Sérgio Moro, seu ex-colega de governo, está afastado após ter sido considerado suspeito para julgar Lula?
Hoje o poder judicial vive um conflito entre a escola do direito romano, herança portuguesa, e a anglo-saxónica, já que alguns instrumentos dela foram importados pelo nosso parlamento. Isso gerou conflitos: a primeira instância serviu-se de instrumentos anglo-saxónicos mas chegou lá acima e foi anulada pelos garantistas do direito romano - in dubio pro reo. Bom, mas não se pode esquecer os milhões desviados num dos maiores esquemas de corrupção do mundo. A nossa justiça, pilar da democracia, deu uma pirueta, um salto mortal encarpado: qualquer dia ainda dizem que temos de indemnizar o Lula e pedir desculpas ao cartel das empreiteiras. O juiz foi parcial? O melhor é pedir um juiz estrangeiro então, chamar um juiz português. Seria como numa final Benfica-Sporting chamar um árbitro inglês, já imaginou?

Mas e como fica o candidato Moro?
O Moro fez o seu papel no combate à corrupção mas o candidato deve ter um partido, posicionar-se sobre saúde, educação, relações internacionais, não é um samba de uma nota só. Enfim, essa é uma decisão de foro íntimo dele.

PERFIL

Natural de Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul, é um médico ortopedista de 56 anos.

Descendente de italianos, é casado com uma luso-brasileira com raízes em Trás-os-Montes e na região da Serra da Estrela.

Membro de uma família com tradição na política sul-mato grossense, foi secretário de saúde de Campo Grande, ainda pelo MDB, acusado de fraude em licitações e tráfico de influência, o que ele nega.

Depois, já pelo DEM, partido de centro-direita, deputado federal. No Congresso fez oposição aos governos de Dilma Rousseff

Decidiu retirar-se da política em 2018 até receber um convite para liderar o ministério da saúde do governo Bolsonaro.

No início da pandemia ganhou enorme popularidade ao liderar boletins diários nas televisões sobre o covid-19 e prever com exatidão o alcance da doença.

Por defender a ciência, o isolamento, máscaras e vacinas saiu do ministério em choque com Bolsonaro a 16 de abril. De então para cá, os também médicos Nelson Teich e Marcelo Queiroga e o general paraquedista Eduardo Pazuello ocuparam o posto.

De então para cá tem sido um dos nomes mais falados para liderar eventual alternativa às candidaturas do atual presidente e de um nome do PT, como Lula da Silva.

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