Julgamento dos atentados de Paris, o reconhecimento dos fracassados

Audiências arrancam hoje e devem prolongar-se por oito meses. Presidente de associação de vítimas admite que história também é feita por falhados.

Uma sala de audiências construída de propósito no Palácio da Justiça de Paris, com um custo de 7,5 milhões de euros, demonstra a importância e a magnitude do processo dos atentados terroristas de 13 de novembro de 2015, o dia mais sangrento na capital francesa desde a Segunda Guerra Mundial.

A nova sala, intitulada Grandes Processos, não foi uma cedência à vaidade: a partir de hoje e nos próximos oito meses, pelo menos, vai receber um coletivo de cinco juízes, três advogados de acusação, até 50 advogados de defesa, 260 advogados (de um total de pelo menos 330) das partes civis, e jornalistas e técnicos de 141 meios de comunicação, além de público. Entre essa sala e outras dedicadas ao julgamento, são esperadas 3000 pessoas. E, claro, 14 dos 20 arguidos.

Números impressionantes para um acontecimento não menos impressionante, os três ataques coordenados contra cidadãos de forma indiscriminada ocorreram meses depois do ataque ao Charlie Hebdo e antecederam outros ataques, casos do ocorrido em Nice, no 14 de julho de 2016 (86 mortos), ou do mercado de Natal de Estrasburgo, em 2018 (5 mortos), por exemplo.

Há um coletivo de cinco juízes e mais de 300 advogados para o julgamento de 20 arguidos (cinco dos quais foram mortos na Síria e um está preso na Turquia).

Duas associações de vítimas (Life For Paris e 13onze15) prepararam as audiências e inclusive chamaram como testemunha François Hollande. "Cada um tem as suas expectativas, mas sabemos que este é um marco importante para o nosso futuro", disse à AFP Arthur Dénouveaux, um sobrevivente do ataque ao Bataclan e presidente da Life for Paris.

Um dos advogados da mesma associação, porém, põe água na fervura. "Não se pode pedir mais de um julgamento do que é possível dar", diz Jean-Marc Delas ao Le Point. "A audição das vítimas é necessária. Mas não creio que haja realmente um antes e um depois para eles." O causídico também mostrou desconfiança em relação ao "julgamento exemplar", bem como aos seus colegas de ofício. "Os advogados são indisciplinados por definição, não se pode pedir a 300 deles que tenham a mesma leitura de um caso."

Para o filho de Manuel Dias, o motorista português que foi a primeira vítima mortal dos atentados, nada se espera do julgamento, "um circo mediático" que irá tomar conta do país nas próximas semanas. "Mesmo que haja condenação, que deverá haver, não vai mudar nada nem vai iniciar uma reflexão sobre as origens do terrorismo, o que é que esteve na origem do que aconteceu ao meu pai e dos outros atos terroristas", disse Michaël Dias, de 36 anos, à RFI. Afirmou também que não vai sentir qualquer tipo de alívio em caso de condenação dos arguidos.

"Há que admitir que a história é por vezes feita por fracassados", comentou o presidente da Life For Paris, Arthur Dénouveaux, e que nega o estatuto de "vítima profissional" (a este propósito, 21 pessoas foram condenadas por se fazerem passar por vítimas dos atentados).

O décimo homem

Dos "fracassados" que fizeram parte ativa na noite dos atentados em nome do Estado Islâmico, só um, Salah Abdeslam, faz parte dos arguidos (os outros nove suicidaram-se ou foram abatidos, sendo por isso considerado o "décimo homem"). Francês de nacionalidade, residente na Bélgica, foi detido em março de 2016 e desde então remeteu-se ao silêncio, não dando qualquer explicação sobre o seu papel.

Capturado na Bélgica, foi transferido para França um mês mais tarde, a 27 de Abril, ao abrigo de um mandado de captura europeu, e colocado em prisão provisória em Fleury-Mérogis, a maior prisão da Europa. O homem de 31 anos está sujeito a um regime rigoroso de isolamento, sozinho numa cela e com a particularidade de estar equipado, pela primeira vez em França, com um sistema de videovigilância de 24 horas.

Contra o que considerou ser uma invasão excessiva da sua privacidade, Abdeslam apelou para o Supremo Tribunal Administrativo, que considerou que "a natureza excecional dos atos terroristas" pelos quais ele está a ser processado "implicava que deveriam ser tomadas todas as precauções para evitar o seu suicídio e fuga". Em termos concretos, Salah Abdeslam está a ser mantido sob a vigilância ininterrupta de câmaras a vigiar cada movimento seu, tanto na sua cela como durante as suas caminhadas diárias.

Terror em três atos


Stade de France

O português Manuel Dias, de 63 anos, foi a única vítima mortal de três bombistas (dois iraquianos e um francês) que à vez se suicidaram às portas do Estádio de França, em Saint Denis, arredores de Paris. A seleção francesa jogava um particular com a congénere alemã, tendo o presidente François Hollande como espetador. O jogo acabou por ser interrompido. As explosões causaram ainda cinco dezenas de feridos.

Balanço: Um morto.

Ruas de Paris

Praticamente ao mesmo tempo que a segunda explosão junto ao estádio, às 21.20, um comando de três terroristas, armado de metralhadoras, começa uma matança em seis restaurantes e cafés dos 10.º e 11.º arrondissements. Um dos operacionais, Brahim Abdeslam, dirige-se para a esplanada mais cheia do restaurante Comptoir Voltaire, mas a cintura de explosivos mostrou-se defeituosa e só tirou a vida ao suicida.

Balanço: 39 mortos.

Bataclan

Às 21.44 três homens saem de um automóvel junto ao Bataclan e pouco depois enviam um SMS para um telemóvel belga: "A caminho. Vamos começar." O que se iniciou foi um ato atroz: enquanto no palco da sala de espetáculos tocavam os norte-americanos Eagles of Death Metal, os terroristas, todos franceses que combateram na Síria, começaram a metralhar os espetadores. Uma parte dos 1500 espetadores conseguiu fugir no meio da confusão pela saída de emergência. Os que ficaram junto ao fosso foram executados pelos terroristas. Parte dos sobreviventes fez-se de morto. A intervenção da polícia deu-se em duas levas: às 21.56 através de um comissário da polícia e motorista, que levou um dos terroristas a suicidar-se, e a partir das 22.15, pela equipa de operações especiais. Os dois terroristas usam 11 pessoas como escudos humanos e não querem negociar. Um suicida-se, outro é abatido. O horror termina às 00.18.

Balanço: 85 mortos no local, outros cinco no hospital.

Total: 130 mortos e 350 feridos.

cesar.avo@dn.pt

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