Jewer Ilham: "O que o governo chinês faz é terrorismo"

Filha de Ilham Tohti, o economista chinês que foi laureado em 2019 com o prémio Sakharov, Jewer Ilham recebeu o prémio pelo pai que foi condenado a prisão perpétua na sequência de críticas às políticas do regime. Está detido em local desconhecido.

Nasceu há um século. 21 de maio de 1921. Andrei Sakharov, físico nuclear, defensor das liberdades cívicas e reformas na então superpotência, Nobel da Paz em 1975. Vai em sua honra e memória o Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento, atribuído anualmente pelo Parlamento Europeu (PE) a pessoas e organizações dedicadas aos direitos humanos e liberdades.

Em 2019, o laureado foi Ilham Tohti, economista chinês de origem uigure. Crítico das políticas para as minorias étnicas na China, foi preso e condenado a prisão perpétua em 2014. A família não sabe onde está detido. A filha, Jewer Ilham, recebeu por ele o prémio do PE e é a partir de Washington que revela os pormenores da sua luta. Em nome do pai. Em entrevista DN/TSF, Jewer Ilham apresenta-se: Sou filha do académico preso Ilham Tohti, sou uigure e atualmente moro em Washington DC, nos EUA. Nasci e fui criada em Pequim. Trabalho no Workers Rights Consortium, uma organização sem fins lucrativos, de monitorização de direitos laborais. Investigamos condições de trabalho em todo o mundo e também as questões de trabalho forçado na região Uigure, na China.

O seu pai cumpre uma sentença de prisão perpétua numa prisão chinesa. Porquê?
O meu pai foi condenado a prisão perpétua sob acusações de separatismo. Mas, na verdade, o meu pai passou décadas a tentar estabelecer pontes entre o grupo chinês Han e os uigures e outros grupos minoritários; queria criar um entendimento pacífico entre os diferentes grupos. Nunca defendeu a violência, o separatismo ou o extremismo. Todas essas acusações são falsas, ridículas.

Quando viu o seu pai pela última vez?
A última vez que vi o meu pai foi em fevereiro de 2013, no Aeroporto Internacional de Pequim. Deveríamos vir para os EUA juntos, tinha sido convidado pela Universidade de Indiana como professor visitante. Eu era uma estudante caloira na faculdade, na China. E ele perguntou-me se gostaria de ir para os EUA com ele durante minhas férias de inverno, para o ajudar a instalar-se, durante três ou quatro semanas. Mas, como pode ver, estou aqui nos EUA sozinha, do outro lado do mundo, longe da minha família. E já se passaram oito anos desde a última vez que vi a família.

Quais foram as últimas palavras que trocou com o seu pai, antes que ele conseguisse colocá-la no avião?
Ele disse-me várias coisas que não são comuns de um pai para a sua filha, mas ele estava realmente a tentar persuadir-me a deixar a China. Mas não fazia sentido para mim deixar o país sem a minha família. Nem falava inglês na época e não conhecia ninguém aqui. Mas o meu pai insistiu: "Acho que deves ir embora. Olha à tua volta! Eu estou a ser detido, ainda queres ficar aqui?" E disse que preferia ver-me varrer a rua nos EUA do que ficar na China. Pediu-me para agarrar a oportunidade, porque seria única na vida. Empurrou-me e obrigou-me a partir. Eu não conseguia parar de chorar naquele momento, tinha 18 anos e não sabia o que me esperava nem o que lhes iria acontecer. Estava com medo e preocupada. Quando comecei a chorar, o meu pai disse-me: "Não chores, não deixes outras pessoas pensarem que os uigures são fracos. Vai!". E foi a última vez que vi o meu pai.

Na adolescência, é verdade que a Jewer pensou que de alguma forma o seu pai negligenciava a própria família?
Sabe, quando eu era mais jovem, o meu pai estava tão focado em falar pelos outros, estava sempre a viajar, ou a ser preso. A polícia levava-o e prendia-o. Às vezes, durante um mês. E sabe, esse é um momento crítico para um adolescente. Era a época do ensino secundário, e muitas vezes via o meu pai desaparecer, e de repente aparecer e desaparecer novamente. Sempre que estava em casa, estava no portátil a conversar com os alunos ou jornalistas. Sentia que o pai não se preocupava mais comigo ou com a família, mas apenas com estranhos. Sim, reclamei muito. E isso é algo que eu lamento muito neste momento, sabe? Agora estou com 26 anos e sei o significado de tudo o que o meu pai fez, todos os seus esforços. Mas, ainda assim, deu o seu melhor para ser um bom pai. Quando reclamava que ele não ficava comigo, que só trabalhava no computador, ele mudava o computador para o meu quarto, para poder trabalhar lá enquanto eu estudava. Mesmo que não falássemos, era um modo de estar presente. Ele tenta sempre encontrar uma solução para cada problema.

Sabe exatamente onde ele está detido?
Pelo que soube pela última vez, estava preso na região uigure. Mas esse conhecimento do paradeiro dele é de 2017; desde então nenhum dos meus familiares pôde visitá-lo. Não sabemos se ainda está na mesma prisão ou se foi transferido, ou sequer se está vivo.

Há uma notícia agora da CNN que diz que deputados britânicos aprovaram uma resolução não vinculativa pela repressão de Pequim aos uigures e acusa o governo de genocídio. Quer comentar?
Muitas pessoas argumentam que o que acontece com o povo uigure não está à altura do estatuto de genocídio. Não importa qual seja a definição, será muito difícil negar o fato de que existem atrocidades em massa, crimes contra a humanidade na região Uigure: os relatos de esterilização forçada, crianças tiradas aos pais e transferidas para orfanatos, enviando mais de 800 mil uigures para fábricas de trabalho forçado e em condições absolutamente precárias. Houve testemunhos em primeira mão de ex-refugiados e detidos sobre tortura física e mental nesses campos. Não sei se há palavra melhor do que genocídio. A frase mais próxima, diria, seria crimes contra a humanidade, mas menos do que isso é inaceitável. Mas os líderes do mundo curvam-se perante a pressão política da China e ignoram aquelas vidas humanas.

Mas a pressão política está a aumentar. Isso dá-lhe algum sentido de otimismo?
Sou uma pessoa muito positiva e otimista. Sempre. Foi isso que aprendi com o meu pai. No dia seguinte à condenação dele à prisão perpétua, em setembro de 2014 (mas já detido desde janeiro sem julgamento nem quaisquer acusações) sabe o que disse depois da sentença? "Após nove meses, esta foi a primeira noite em que dormi bem". E o advogado ficou surpreso ... "o que quer dizer com isso? Acabou de ser condenado a perpétua". E ele disse "Bem, não houve uma sentença de morte". Quer dizer, na cabeça dele, se está vivo, sempre há esperança, é sempre positivo e otimista. Só com isso há esperança e só com esperança há mudança. Penso o mesmo. Aprecio que os países ocidentais estejam a condenar a China. Mas sim, estou sempre otimista, acredito que não há eternidade para as coisas más. Vão acabar um dia, é só uma questão de tempo.

O seu pai criou o site "Uyghurbiz.com" para que o povo Han pudesse entender melhor a vida uigure, você disse-o num discurso na Cimeira dos Direitos Humanos e Democracia em Genebra em 2020. Foi este site que o levou à prisão?
Antes de o meu pai criar um site, os olhos da polícia já estavam na nossa família há muito tempo. Pode ter sido um fator que potenciou a detenção, mas não a principal razão. Há trinta anos, o meu pai já era alvo do governo chinês.

Como foi ser criada assim? Com a presença sistemática das autoridades do estado no seu dia-a-dia?
Para ser honesta, pensava que era uma vida normal, que era assim que toda a gente vivia. Só depois de vir para os EUA soube que não é assim que se deve viver como cidadão ou como ser humano. Quando era criança, achava que não havia problema em ter dispositivos de escuta no nosso apartamento, que viajar para um país ou região com amigos mas sempre acompanhados de agentes da polícia, ser seguido por polícias, ter os nossos telefonemas ou mensagens de texto vigiados, publicar algo e ver os textos, subitamente... por amor de Deus... desaparecerem, por causa da censura, tudo isto estava bem. Não poder ligar-me no Facebook, Twitter, Instagram, tudo parecia normal. Só depois de vir para os EUA e abrir totalmente os olhos e ver como é estar num mundo normal, pude compreender que não, não estava tudo bem. Viver assim não deve ser uma normalidade.

A Jewer está a lutar para fechar os campos de reeducação?
Eu só tenho um e único objetivo que é libertar todos os uigures inocentes detidos. E não apenas o povo uigure, outros grupos minoritários, grupos religiosos, advogados de direitos humanos. Tudo o que faço e luto é pelos direitos dessas pessoas. Gostaria de ver essas pessoas a morar onde quiserem, sair livremente da China se o desejam, serem capazes de expressar os seus pensamentos livremente, adorar a sua fé e comunicar com a sua família, respirar livremente. É isso que gostaria de ver, é o meu único objetivo.

Como comenta as alegações das autoridades de que estão a lutar contra o extremismo e o terrorismo?
O que o governo chinês faz ao povo uigure é terrorismo. Todas essas pessoas que estão presas... a maioria delas nunca cometeu um crime. Tinham empregos decentes. O governo chinês diz que é para fins de redução da pobreza, para condenar as práticas extremistas e prevenir ataques terroristas. Mas pode pesquisar no Banco de Dados de Vítimas de Xingjang Uigure, verá a identidade e informações desses mais de 10.000 casos; gente com vida tranquila, tinham famílias, empregos, eram médicos, académicos, jogadores de futebol, rappers, cantores. Mas o que lhes estão a fazer agora? Foram presos em centros de reeducação, fazem-lhes lavagem cerebral, ou estão a trabalhar em fábricas de trabalhos forçados, talvez a fazer sapatos para a Nike ou para algumas outras marcas. Estão a ser explorados e os seus direitos humanos fundamentais a serem violados, separados das famílias, doutrinados, mulheres a serem violadas e até mesmo esterilizadas. Vejo isso como ataques terroristas, atividades extremistas, e não aquelas pessoas que são inocentemente presas. O que o governo chinês faz é quebrar a nossa linhagem, isolar-nos das nossas raízes, diminuir a nossa cultura, a nossa religião, destruir quem somos e a nossa identidade.

As recentes alegações de que estão a fornecer formação profissional e programas de desradicalização...
Veja os mais de 10.000 casos com fotos, identidades das pessoas e empregos, descrições das suas vidas, essas pessoas não precisam de reeducação, tinham vidas decentes. E estas são as pessoas que têm alguém que mora no exterior e que podem informar que elas estão desaparecidas. E os que não têm? Esses milhares, centenas de milhares, até milhões de pessoas? Veja: se não tinham empregos, como é que a região se desenvolveu? Isso é lógico?

É uma estratégia só do próprio governo? Ou também dos média estatais e sistema educacional? No fundo, como é que essas estruturas retratam os uigures?
Cresci a ver a TV estatal, a CCTV. O que ouvia nas notícias é que a região uigure é linda, com um bando de nómadas que não são educados, não são desenvolvidos e são precisos chineses Han para ajudar a desenvolver a região, porque os uigures só sabem cantar e dançar. Costumo encontrar amigos chineses Han que dizem "ah, os uigures são realmente lindos. Todos vocês sabem cantar e dançar". É tudo o que sabem sobre nós. A maioria dos chineses Han, a menos que tenham estudado sobre a região uigure ou conheçam pessoalmente algum, repetem os estereótipos: as mulheres uigures são bonitas e os uigures são muito bons a cantar, dançar e entreter. E os homens são ladrões. Puros estereótipos. Sei cantar e dançar, mas nem todas as pessoas uigures que eu conheço sabem ou gostam. Isso deve ser uma escolha pessoal e não uma imagem que o governo coloca na cabeça das pessoas. Não é justo. Temos uma bela cultura, uma bela literatura, lindas raízes que gostávamos de partilhar com o mundo.

Qual foi a importância do prémio Sakharov 2019 do Parlamento Europeu para o seu pai?
Achei uma escolha maravilhosa o Parlamento Europeu ter decidido conceder este prémio ao meu pai. Uma das minhas preocupações era que ele fosse esquecido com o tempo, as pessoas poderiam lentamente esquecer quem era Ilham Tohti e provavelmente é isso que o governo chinês deseja. Mas a atribuição do prémio Sakharov, impulsionou a comunidade internacional e as pessoas continuaram a relembrar que ele ainda está na prisão e que não merece; o meu pai não é um criminoso.

Quais são os seus planos agora?
Estou a trabalhar num documentário. Esperamos lançá-lo no final deste ano juntamente com o meu segundo livro. Será um documentário com conteúdos muito importantes. A nossa equipa de filmagem viajou para muitos países, incluindo a região uigure na China, para fazer entrevistas. E não apenas com o povo uigure, mas também com chineses Han. Espero que o mundo o veja. E também espero que o meu livro seja lançado, igualmente com sucesso.

ricardo.alexandre@tsf.pt

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