Inimigo do Kremlin regressa da convalescença e enfrenta prisão

Alexei Navalny chega hoje, domingo, a Moscovo cinco meses depois de ter sido envenenado, num momento em que nem este ativista contra a corrupção nem o seu inimigo Vladimir Putin gozam de popularidade.

"Venham receber-me", pediu Alexei Navalny aos seus apoiantes numa mensagem difundida nas redes sociais. A face mais visível da oposição ao Kremlin deve aterrar no aeroporto de Vnukovo, arredores de Moscovo, no final do dia, oriundo da Alemanha. Além da multidão, as autoridades também foram desafiadas e devem aguardá-lo. Na quinta-feira, os serviços prisionais anunciaram que estariam "obrigados" a proceder à detenção de Navalny por violar os termos da liberdade condicional após ter sido condenado a prisão por desvio de fundos.

Alexei Navalny, de 44 anos, e a sua Fundação Anticorrupção são a pedra no sapato de Vladimir Putin - uma pedra que teima em saltar de dedo para dedo. O presidente russo e os seus próximos têm reagido com gelo: por norma evitam dizer até o nome do homem que em agosto foi internado de urgência depois de se ter sentido mal durante um voo. Transferido para a Alemanha, as análises efetuadas detetaram ter sido exposto ao agente nervoso novichok, criado no tempo da União Soviética.

O "paciente de Berlim", como disse o presidente, foi brindado com declarações desarmantes do líder russo: "Tem o apoio dos serviços especiais norte-americanos (...) e por isso deve ser vigiado pelos serviços especiais. Mas isso não quer dizer que era preciso envenená-lo. Se o quiséssemos fazer, o caso teria sido concluído."

Putin tentou passar também uma mensagem de infalibilidade dos serviços secretos, o que choca com a realidade: o próprio Navalny, corroborado pela médica pessoal, alega ter sido alvo de envenenamento em 2019, quando estava preso e foi hospitalizado com uma reação alérgica na pele. O caso do envenenamento do ex-agente duplo Sergei Skripal e da sua filha com novichok, em Inglaterra, terminou com alta clínica de ambos e a suspeita da autoria por dois agentes dos serviços secretos militares russos, GRU.

Já o aparente menosprezo pelo homem que desde 2008 denuncia a corrupção no seu país esconde a preocupação do Kremlin num ano em que há eleições legislativas. Navalny diz ter sido alvo da agência de informações que sucedeu ao KGB, FSB. Num vídeo no YouTube, o ativista mostra a conversa que teve com o agente que o terá envenenado, mas as autoridades russas negaram qualquer envolvimento e recusaram-se a investigar o caso. Em vez disso, os investigadores lançaram em dezembro uma nova investigação criminal contra Navalny por suspeitas de apropriação de 3,9 milhões de euros de donativos às suas organizações.

A propósito do "paciente de Berlim", Putin também afirmou que a Rússia tem de estar "preparada e reagir a inaceitáveis interferências estrangeiras". O líder da única oposição frontal interna a Putin - no poder há mais de 20 anos, e que poderá permanecer mais 15, graças à nova Constituição feita à medida - não pode ser candidato graças à condenação a cinco anos de prisão com pena suspensa por desvio de fundos a que foi condenado em 2017. Navalny, que viu a primeira condenação do caso ser anulada pelo Supremo, classificou o caso de "farsa" com o objetivo de o tornar inelegível.

Mas Navalny e a sua fundação podem ficar numa situação mais frágil se a justiça o considerar um "agente estrangeiro". Uma ameaça que já pende há anos e que nesse caso irá retirar-lhe o direito de exercer a atividade militante durante a campanha eleitoral.

Outra lei, lembra a AFP, concede às autoridades russas a possibilidade de bloquear as redes sociais, as plataformas nas quais Navalny consegue passar a mensagem. Mas há mais: novas restrições vão acabar com a forma de os manifestantes contornarem as proibições dos protestos. Até agora podiam recorrer ao protesto individual, na prática, uma forma de os manifestantes se juntarem em fila.

Putin e Navalny podem ser adversários e inimigos, mas coincidem numa visão nacionalista da Rússia e, de momento, nas sondagens: em setembro, 50% dos russos desaprovavam as ações de Navalny; agora o nível de confiança em Putin está abaixo de 50%.

Cronologia

À terceira não foi de vez

Perda de visão

Em abril de 2017, um indivíduo ataca Navalny com um spray que contém uma mistura de antissético com o corante verde malaquita, ou zelyonka, como se diz em russo. Do ataque resultou uma perda de visão temporária no olho direito na ordem dos 85%, o que levou o ativista político a viajar para Barcelona, onde foi sujeito a uma operação.

Dermatite de contacto

No final de julho de 2019, enquanto cumpria pena de 30 dias de prisão por apelar a manifestações contra o regime, Navalny é hospitalizado. O hospital e a prisão falam em reação alérgica, mas a médica pessoal não tem dúvidas de que a exposição a um agente nervoso colocou-o em "risco de vida".

Novichok na roupa interior

Em 20 de agosto de 2020 adoeceu num voo entre a Sibéria e Moscovo. Num primeiro momento suspeitou-se de que o chá estivesse envenenado. Foi levado de urgência para o hospital em Omsk, onde entrou em coma. Uma instituição na Alemanha convenceu os funcionários russos a autorizar a sua saída para Berlim para tratamento. No início de setembro, o governo alemão revelou que testes realizados pelos militares encontraram "provas inequívocas de um agente nervoso do grupo novichok". Segundo declarações que Navalny diz ser do agente do FSB que executou o ataque, o novichok foi aplicado na roupa interior.

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