Hamas aceita trégua proposta por Egito, mas Israel tem outros planos

Exército e primeiro-ministro israelita não dão sinais de que irão terminar a campanha militar em curso, apesar da recetividade do Hamas, das manifestações e da pressão internacional.

A Cisjordânia viveu um dia de greve e de confrontos com as forças israelitas, que se saldou em três mortos e dezenas de feridos enquanto o Hamas e a Jihad Islâmica continuaram a trocar rockets e bombas, num dia que ficou ainda marcado pela interceção de um drone que se dirigia para o norte de Israel via Jordânia. No campo diplomático, as iniciativas multiplicam-se, com o Egito a intermediar uma trégua, a qual o Hamas terá aceitado, mas a que Israel não respondeu. Pelas declarações dos militares e do primeiro-ministro israelita, tudo indica que as operações militares irão continuar nos próximos dias.

O Egito, que historicamente desempenha as funções de mediador entre Telavive e o Hamas, propôs uma trégua a entrar em vigor às seis horas de quinta-feira, avançou o Canal 12 israelita. A notícia, que cita fontes palestinianas, diz que o movimento islamista concordou com a iniciativa, ao passo que não houve resposta por parte de Israel.

Ao Al-Monitor, um diplomata egípcio e um dirigente do Hamas confirmaram a iniciativa do Cairo, mas que esta ainda não foi bem-sucedida. O porta-voz do Hamas, Fawzi Barhoum, disse ainda ao Al-Monitor que a ação diplomática egípcia coincide com outras do Qatar e das Nações Unidas e sobre o fracasso em alcançar um cessar-fogo até à data, responsabilizou Israel, que acusou de "mentalidade criminosa sionista, que só se verifica após mais derramamento de sangue, destruição de casas e morte de pessoas".

Já outro dirigente do Hamas, Moussa Abu Marzouk, disse ao The New York Times que o grupo palestiniano tem procurado um cessar-fogo em Gaza, porém, alega, "Israel exigiu que o Hamas suspendesse unilateralmente o seu fogo durante 2-3 horas antes de Israel decidir se vai fazer o mesmo". Abu Marzouk disse que o Hamas concorda com uma trégua que seja "simultânea e mútua".

"Os nossos inimigos veem o preço que cobramos pela agressão. Tenho a certeza de que tirarão a conclusão", declarou Benjamin Netanyahu.

Telavive desmentiu quaisquer negociações. "As [Forças de Defesa de Israel] não estão a falar de um cessar-fogo", disse o porta-voz do exército, o brigadeiro Hidai Zilberman à Rádio do Exército de Israel. "Estamos concentrados no tiroteio".

Enquanto isso, de visita à base aérea de Hatzerim, perto de Berseba, e enquanto soavam as sirenes a avisar de ataques de rockets, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu disse que a operação continuará "enquanto for necessária para restaurar a calma dos cidadãos de Israel". Além disso, afirmou que o Hamas "recebeu golpes que não esperava" e que Israel fez recuar o grupo designado terrorista pela União Europeia e Estados Unidos por "anos". "Os nossos inimigos veem o preço que cobramos pela agressão contra nós, tenho a certeza de que tirarão a conclusão", disse Netanyahu.

A mesma perspetiva de incapacitar o Hamas mostrou o chefe da Direção de Operações do exército israelita, ao afirmar que será um sucesso se o país alcançar cinco anos de paz. "Se me perguntar o que é razoável para considerar um sucesso, eu diria pelo menos cinco anos e até mais do que isso", afirmou o major general Aharon Haliva à emissora Kan. Haliva reconheceu que os militares não anteciparam totalmente a decisão do Hamas de alvejar Jerusalém na semana passada, mas que as forças armadas responderam com muito mais força do que o grupo palestiniano esperava.

Os militares israelitas disseram ainda que planeiam continuar nos próximos dias o bombardeamento das redes de túneis do Hamas, os quais estão sob zonas civis em Gaza nos próximos dias. Disseram também que por duas vezes tentaram alvejar o comandante militar do Hamas, Muhammad Deif, mas que este terá escapado.

A violência também se estendeu à Cisjordânia ocupada, onde os palestinianos realizaram manifestações de solidariedade, e às cidades de Israel, no nono dia do conflito entre o Hamas e Israel.

Num dia de escalada do conflito em múltiplas frentes, três palestinianos morreram e dezenas ficaram feridos em confrontos com soldados israelitas. As chefias israelitas afirmaram que os manifestantes tinham "disparado extensivamente" contra as tropas israelitas, tendo ferido dois soldados. Desde 10 de maio morreram 22 palestinianos na Cisjordânia.

Em Gaza, a guerra causou 213 mortos, dos quais 61 crianças, além de 1400 feridos e 40 mil deslocados. Do lado israelita, um rocket que escapou ao sistema antiaéreo Cúpula de Ferro atingiu a localidade de Ohad, tendo morto dois trabalhadores tailandeses e ferido oito pessoas, pelo que há a lamentar 12 mortos em Israel.

Quarta reunião de emergência na ONU

A China, Noruega e Tunísia voltaram a convocar uma reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas para se discutir a crise no Médio Oriente, mas o encontro à porta fechada obteve o mesmo resultado do que os três anteriores, dada a posição inflexível dos Estados Unidos, que se recusa a aprovar uma declaração a apelar para uma trégua. "Embora ainda não fale em uma só voz, a posição da esmagadora maioria é clara. Apelo para todos os membros se juntarem aos esforços coletivos pelo cessar-fogo e proteção dos civis", disse o embaixador chinês Zhang Jun.

Às críticas de "obstrucionismo" de Pequim, o secretário de Estado dos EUA Antony Blinken recordou que o presidente Biden disse apoiar um cessar-fogo entre Israel e o Hamas. E disse que a prioridade passa por estarem "muito concentrados nestes intensos esforços diplomáticos", sublinhou.

cesar.avo@dn.pt

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