Guerra de palavras. A "chama da liberdade" de Biden vs. o "genocídio" na Ucrânia de Putin

O presidente dos EUA encerrou ontem a Cimeira pela Democracia, enquanto o homólogo russo criticou a "russofobia" em Donbass. Moscovo quer que a NATO retire o convite a Kiev para uma eventual adesão à Aliança Atlântica.

O presidente norte-americano, Joe Biden, defendeu ontem que "as autocracias nunca podem extinguir a chama da liberdade" no fecho da sua Cimeira pela Democracia, criticada por aqueles que foram deixados de fora da lista de convidados. Biden não mencionou nos seus comentários nem China nem Rússia - países onde os media oficiais têm apelidado de "hipócrita" esta iniciativa - mas a mensagem da cimeira (que espera possa ser presencial no próximo ano) foi para eles.

"O futuro pertence àqueles que abraçam a dignidade humana, não àqueles que a atropelam, àqueles que libertam o potencial do seu povo, não aos que o sufocam e àqueles que dão ao seu povo a capacidade de respirar livremente, não os que procuram sufocar o seu povo com uma mão de ferro", defendeu o presidente norte-americano, repetindo as palavras que já tinha proferido na Assembleia Geral das Nações Unidas. "O mundo democrático está em toda a parte. As autocracias nunca podem extinguir a chama da liberdade que arde no coração das pessoas à volta do mundo, que não conhece fronteiras, que fala todas as línguas", acrescentou no encerramento.

Mas enquanto Biden falava sobre democracia, a Rússia exigia que a NATO retire a abertura que existe desde 2008 para que a Ucrânia se possa juntar à Aliança Atlântica. Algo que o secretário-geral Jens Stoltenberg rejeitou que possa acontecer. "A relação da NATO com a Ucrânia vai ser decidida pelos 30 aliados da NATO e pela Ucrânia. Mais ninguém", disse Stoltenberg. "Não podemos aceitar que a Rússia esteja a tentar restabelecer um sistema onde as grandes potências como a Rússia têm esferas de influência, onde podem controlar ou decidir o que outros membros podem fazer", acrescentou.

A Rússia está a ser acusada pelo Ocidente de enviar militares para a fronteira com a Ucrânia, com o intuito de eventualmente invadir o país. Na quinta-feira, o presidente russo, Vladimir Putin, alertou que a "russofobia" que existe entre a população no leste da Ucrânia é um "primeiro passo para o genocídio". Putin respondia à pergunta de um jornalista: "Sabemos o que está a acontecer em Donbass. Certamente que parece genocídio", afirmou, não sendo a primeira vez que usa a expressão para se referir ao conflito que opõe os ucranianos aos separatistas pró-russos na região.

Nova crise dos mísseis?

Na quinta-feira, questionado sobre se a atual situação na Ucrânia pode levar a uma nova crise dos mísseis como a de 1962 em Cuba, o número dois da diplomacia russa, Sergey Ryabkov, disse que sim. "Se, como eles dizem, os camaradas do outro lado não perceberem, e tudo continuar como está, podemos, segundo a lógica dos eventos, acordar de repente e estar numa situação semelhante", referiu. Naquele ano, a instalação de mísseis russos em Cuba deixou as duas potências (e o mundo) à beira da guerra nuclear.

Moscovo insiste que a NATO deve oficialmente abandonar a decisão de 2008 de abrir as suas portas à Ucrânia (e à Geórgia), com o Ministério dos Negócios Estrangeiros russo a exigir garantias de que não haverá um alargamento a Leste. "Nos interesses fundamentais da segurança europeia, é necessário recuar na decisão da cimeira de Bucareste de 2008", indicou ontem o ministério num comunicado. Os russos temem que a entrada da Ucrânia abra a porta à colocação de mísseis da Aliança Atlântica neste país que tenham como potencial alvo a Rússia, mas a NATO alega que é uma aliança defensiva e que tais receios são infundados.

O secretário-geral da NATO rejeitou contudo que a Rússia possa impedir a Ucrânia de fazer parte da organização, alegando que a decisão compete apenas a Kiev e aos países membros da Aliança Atlântica. Não sendo oficialmente membro, a Ucrânia não goza das garantias de proteção militar, mas ainda assim "é considerado um valioso parceiro militar", disse Stoltenberg.

Biden reiterou o seu apoio à Ucrânia num telefonema com o presidente Volodymyr Zelensky. O norte-americano criticou as ações agressivas de Moscovo em relação a Kiev e lembrou que os EUA e os aliados responderão com "fortes medidas económicas e outras" em caso de intervenção militar.

A Rússia quer ainda ver os exercícios militares da NATO longe das suas fronteiras. Segundo o Ministério da Defesa, citado pela agência TASS, os russos enviaram ontem um caça para intercetar um avião de reconhecimento norte-americano que estava sobre o Mar Negro.

A crise dos mísseis de 1962 resolveu-se com cedências de ambas as partes: a União Soviética recuou na decisão de colocar os mísseis em Cuba diante da garantia que os EUA não invadiriam a ilha comunista (e soube-se anos mais tarde, retirariam os seus próprios mísseis da Turquia). Será que agora há espaço para cedências?

susana.f.salvador@dn.pt

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