Grécia celebra 200 anos da independência que um militar português ajudou a alcançar

Tudo começou em 1821, mas objetivo só foi conseguido em 1830, com os gregos a tornarem-se a primeira nação a ter êxito contra o Império Otomano. António de Almeida foi um dos voluntários filo-helenos, tal como Lord Byron.

Uma série de revoltas no Peloponeso, também mais a norte, já para lá do golfo de Corinto, e em várias ilhas a 25 de março de 1821 foram o início da Guerra da Independência Grega, faz hoje 200 anos. Há quase quatro séculos que os turcos tinham conquistado Constantinopla, derrubando o Império Bizantino, oficialmente chamado Império Romano do Oriente mas na realidade um Estado grego, onde a língua e a culturas gregas dominavam. Desde então os gregos, habitassem eles o Peloponeso, a Ática, as ilhas ou a costa oriental do Egeu, estavam sob o domínio do Império Otomano, embora a Igreja Ortodoxa ajudasse a preservar a ideia de nação.

Foi o legado da Antiga Grécia, da memória da democracia de Péricles às leituras do que disseram em tempos filósofos como Sócrates, Platão ou Aristóteles, que atraiu a atenção para esta guerra, não a atenção das potências, mas sim a de um grupo de românticos, os filo-helenos, que, vindos de toda a Europa, se juntaram à luta. O mais célebre foi o britânico Lord Byron, mas também um português, de Elvas, se distinguiria ao serviço da nova Grécia e lá deixaria descendência. "António de Almeida era um oficial português, que serviu no exército até à Guerra Peninsular. Mais tarde integrou a missão filo-helena do coronel Fabvier e chegou à Grécia em 1825, participou em várias operações militares e tornou-se coronel de cavalaria. Podemos considerar hoje que é um dos cofundadores do exército grego moderno", contou ao DN, em conversa recente, o embaixador grego em Portugal, Ioannis Metaxas.

Casado com uma portuguesa e fluente em português, o diplomata tem estudado a história a unir os dois países. E outro pormenor que gosta de partilhar é a carta enviada pelos independentistas gregos a perguntar se D. Pedro, então príncipe regente do Brasil, estaria interessado em ser o seu rei. No final, após uma década de conflito, acabou por ser um príncipe alemão a escolha, tornando-se rei da Grécia sob o nome de Otão I.

A independência grega data de 1830, e foi reconhecida pelo sultão otomano em 1832, mas foi difícil pelo desequilíbrio de forças, sobretudo quando a frota egípcia se juntou à turca. Escreveu H. G. Wells na sua História Universal que "uma irrupção do mapa político natural do mundo, ocorrida em 1821, e que conseguiu por fim o apoio da Inglaterra, da França e da Rússia, foi a insurreição dos gregos contra os turcos. Durante seis anos travaram uma guerra desesperada, sob o olhar complacente dos governos da Europa. A opinião liberal protestou contra essa inatividade; voluntários das nações europeias juntaram-se aos insurrectos, até que, por fim, a Inglaterra, a França e a Rússia intervieram juntas". Na batalha de Navarino, em 1827, as potências europeias destruíram a frota turco-egípcia e permitiram que o embrião da atual Grécia (outros territórios foram sendo acrescentados depois) se tornasse senhor do seu destino. Dessa época tumultuosa, um nome sobressai: Ioannis Kapodistrias, que foi "uma espécie de presidente da república", na descrição do embaixador Metaxas, mas que acabou assassinado. De qualquer forma, Londres, Paris e Moscovo não permitiriam algo que não fosse uma monarquia nascer ali onde estava Atenas, a capital escolhida por Otão I, um adolescente filho de Luís I da Baviera que aprendeu grego e se apaixonou, tal como a sua rainha, a também alemã Amália, pela nova pátria.

Quando fala de "irrupção do mapa político natural do mundo", Wells está a assumir-se como defensor da autodeterminação dos povos e coloca na mesma categoria da independência da Grécia as posteriores unificações italiana e alemã, ainda no século XIX.

Como destacou Stathis N. Kalyvas em Modern Greece, não só foi a primeira revolta bem-sucedida contra os otomanos, como "foi a primeira grande guerra de uma população subjugada contra uma potência imperial desde a Revolução Americana de 1776". Pouco a pouco, outros povos sob domínio otomano seguiram o exemplo dos gregos e no final da Primeira Guerra Mundial o império acabou por desintegrar-se. O antigo núcleo deste é hoje a República da Turquia, fundada em 1923, e que mantém uma relação complicada com a Grécia apesar de Mustafa Kemal Atatürk e Elifterios Venizelos, há um século, terem acordado uma dolorosa troca de populações (muitos gregos, depois de 1830, continuaram a viver em áreas otomanas) para prevenir futuras guerras.

As relações oficiais entre Portugal e a Grécia podem ser datadas de 1834, quando a rainha D. Maria II enviou a Otão I, que tratava por "meu irmão", uma carta em francês disponível agora online por iniciativa do ministério grego dos Negócios Estrangeiros. Outro documento é a nomeação de António de Almeida como primeiro cônsul grego em Lisboa, o que não se concretizaria.

Hoje, os dois países são parceiros na União Europeia e na NATO. E nesta quinta-feira, para assinalar o bicentenário da revolução grega de 1821, a estátua de D. José I na Praça do Comércio, em Lisboa, vestirá as cores da bandeira grega, branco e azul (das cataratas do Niagara à Ópera de Sydney, boa parte do mundo estará também de azul e branco). Para celebrar a efeméride, mesmo com os constrangimentos da pandemia, a Embaixada da Grécia disponibiliza igualmente o vídeo National Day of Greece in Portugal (200 years after the Revolution - Greece 2021), acessível até ao dia 31 de março de 2021 no seguinte link: https://youtu.be/zWgETFEzA20.

leonidio.ferreira@dn.pt

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