Governo talibã: veteranos e o filho do mullah Omar. Mulheres? "Ainda não está fechado"

O líder supremo talibã, Hibatullah Akhundzada, pediu ao novo executivo que respeite a sharia, a lei islâmica, na primeira mensagem desde que os islamitas retomaram o poder.

O momento que todos esperavam desde a retirada americana do Afeganistão chegou ontem: os talibãs anunciaram os primeiros nomes do seu governo interino. O cargo de primeiro-ministro fica com o mullah Mohammad Hassan Akhund, um veterano no grupo, vice-ministro dos Negócios Estrangeiros no primeiro regime talibã e alvo de sanções da ONU. O co-fundador no movimento islamita e líder do seu gabinete político, Abdul Ghani Baradar, assumirá a vice-presidência do Executivo, com o mullah Yaqoob, filho do mítico fundador mullah Omar, a assumir a pasta da Defesa, enquanto Sirajuddin Haqqani, líder da temida rede que tem o seu nome e classificada como terrorista pelos EUA, fica com a pasta do Interior.

Depois de conquistarem Cabul, a 15 de agosto, e do seu fulgurante regresso ao poder, os talibãs têm prometido um governo mais inclusivo do que no seu primeiro regime - que durou de 1996 até à invasão americana em 2001. Mas os primeiros nomes a serem anunciados pelo porta-voz do grupo, Zabihullah Mujahid, pertencem todos a veteranos, alguns deles tendo mesmo feito parte da sua fundação ao lado do mullah Omar.

Num momento em que os protestos contra o seu regime parecem estar a ganhar força, com duas pessoas mortas a tiro em Herat quando militantes talibãs dispersaram à força uma manifestação, o novo Executivo tem pela frente a gigantesca tarefa de liderar um Afeganistão confrontado com problemas económicos e de segurança - inclusive a ameaça do Estado Islâmico, o grupo terrorista responsável pelo atentado contra o aeroporto de Cabul que fez quase 200 mortos, incluindo 13 soldados norte-americanos.

Procurando contrariar as críticas dos mais céticos, que veem nestes primeiros nomes do novo governo mais do mesmo, Mujahid sublinhou que este é um executivo interino, lembrando que nem sequer está completo. "Vamos tentar ter pessoas de outras partes do país", garantiu. E quanto à possibilidade de incluir algumas mulheres - particularmente penalizadas durante o primeiro regime talibãs que as obrigava a usar burqa e impedia as meninas de ir à escola - Ahmadullah Wasiq, da Comissão Cultural Talibã, lembrou à BBC que o governo ainda "não está fechado".

Pouco depois do anúncio do governo, o líder supremo dos talibãs, Hibatullah Akhundzada, cujas aparições públicas são raras, pediu aos novos ministros que respeitem a sharia, a lei islâmica, na sua primeira mensagem desde que os islamitas recuperaram o poder.

"Posso assegurar a todo o nosso povo que os governantes se esforçarão por fazer respeitar as normas islâmicas e a sharia no país", afirmou num comunicado em inglês.

Apesar de várias vozes dos talibãs apostarem num discurso que se quer tranquilizador, muitos analistas não veem nestes primeiros nomes a linha mis moderada que os talibãs vinham anunciando. É o caso de Michael Kugelman, perito do Woodrow Wilson International Center for Scholars, que disse à AFP: "[O governo] não é nada inclusivo e não me surpreende nada. Os talibãs nunca indicaram que o seu executivo teria ministros que não pertencessem ao grupo".

Protestos multiplicam-se

As nomeações foram anunciadas horas depois de um protesto em Cabul ter sido dispersado com tiros para o ar por combatentes talibãs. Os manifestantes criticavam a violenta repressão do regime no vale de Panshir, onde fica o último reduto de resistência contra o movimento islamista. "Estas manifestações são ilegais até que os prédios do governo estejam abertos e leis tenham sido proclamadas", declarou Mujahid, que pediu à imprensa para não cobrir tais eventos.

Noutras cidades do país também foram organizados protestos contra o regime, como em Mazar-i-Sharif ou em Herat, onde se registram dois mortos e oito feridos.

A rebelião em Panshir é liderada pela Frente Nacional de Resistência (FNR), que tem como líder Ahmad Masud, filho do célebre comandante Ahmed Shah Masud, assassinado pela Al-Qaeda em 2001. Após a proclamação da vitória no Panshir, Mujahid advertiu na segunda-feira que "qualquer tentativa de criar uma rebelião será duramente reprimida. Não permitiremos". A FNR afirmou que ainda mantém "posições estratégicas" na região e Ahmad Masud convocou um levantamento da população.

Interferência do Paquistão?

Além da situação em Panshir, os manifestantes de Cabul também queriam denunciar a interferência do Paquistão, muito próximo dos talibãs. Quase cem manifestantes, a maioria mulheres, reuniram-se diante da embaixada do Paquistão e gritaram: "Não queremos um governo apoiado pelo Paquistão" e "Paquistão fora do Afeganistão".

Mujahid negou qualquer vínculo. "Dizer que o Paquistão ajuda os talibã é propaganda", afirmou. "Não permitiremos que nenhum país interfira nos temas afegãos".

helena.r.tecedeiro@dn.pt

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