Fuga radioativa ou de gases inofensivos: o que se passa na central chinesa de Taishan?

Pequim negou "ameaça radiológica iminente" denunciada pelos franceses que desenharam o reator. Mas já esta quarta-feira admitiu que cinco barras combustíveis rebentaram na central.

Os níveis de radioatividade em torno da central nuclear de Taishan, no sul da China, não são "anormais", explicaram as autoridades chinesas, após ter sido detetado um "problema de performance" num reator. O comunicado surge depois de a CNN revelar que os EUA estavam a investigar uma denúncia, que alertava para uma "ameaça radiológica iminente" na central.

A estação de televisão norte-americana revelou na segunda-feira que o Departamento de Energia dos EUA tinha recebido uma carta da empresa francesa Framatome (a subsidiária da energética EDF responsável pelo fabrico do reator) a alertar para a ameaça em Taishan. De acordo com a denúncia, as autoridades chinesas estariam a aumentar o nível dos limites de radiação aceitáveis no exterior da central nuclear na província de Cantão (a cerca de cem quilómetros de Macau), para evitar o seu fecho.

Diante da denúncia, a EDF (que tem uma participação minoritária na central nuclear, gerida pela estatal China General Nuclear Power Corporation, ou CGN) confirmou que uma acumulação de crípton e xénon, ambos gases inertes (isto é, não reativos), tinha afetado o circuito primário de um dos reatores. Mas explicou que este é um "fenómeno conhecido, estudado e previsto nos procedimentos operacionais" da central. Ainda assim, pediu uma reunião extraordinária do conselho de administração da central.

Por sua vez, a CGN frisou num comunicado que os indicadores operativos dos reatores do tipo EPR da central mantiveram-se nos limites estabelecidos pelas regras de segurança nuclear chinesas. O reator número 1 da central de Taishan foi o primeiro EPR (desenvolvido pela Framatome em conjunto com a alemã Siemens) a entrar em funcionamento, em setembro de 2018. O reator de última geração, de água pressurizada, é objeto de anos de atraso em projetos europeus semelhantes no Reino Unido, França e Finlândia.

Segundo a agência estatal chinesa responsável por supervisionar as centrais nucleares do país, os níveis de radioatividade na região estão normais. Mas é esta agência que é acusada na denúncia da Framatome para Washington de aumentar os limites para evitar fechar a central. Hong Kong e Macau também dizem ter níveis de radiação normais.

Já nesta quarta-feira, a China admitiu que cinco barras combustíveis rebentaram na central nuclear de Taishan, voltando a negar qualquer fuga de radioatividade. O nível de radiação aumentou dentro do reator nº 1 da central nuclear de Taishan, na província de Guangdong, sudeste da China, mas foi contido por barreiras que funcionaram conforme o planeado, explicou o ministério da Ecologia e do Ambiente da China, em comunicado.

"Não há problema de derrame radioativo para o ambiente", afirmou o ministério no comunicado, acrescentando que a radiação no reator aumentou, mas manteve-se dentro dos "níveis permitidos". O envelope protetor de cerca de cinco das 60 mil barras de combustível do reator está danificado, disse o ministério.

Os EUA surgem neste caso porque a CGN está na lista negra de empresas desde agosto de 2019, por alegadamente ter tentado adquirir tecnologia avançada e materiais norte-americanos para uso militar na China. Isso obriga a Framatome, que também opera nos Estados Unidos, a pedir uma autorização para ajudar a CGN a solucionar os seus problemas tecnológicos.

(Notícia atualizada às 11.20 com novas explicações da China)

susana.f.salvador@dn.pt

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