Fogo entre israelitas e libaneses recorda guerra de há 15 anos

O exército israelita respondeu ao lançamento de foguetes a partir do sul do Líbano, um tipo de ataque que está a repetir-se com mais frequência e que ocorreu no dia de luto do Líbano em memória da explosão no porto de Beirute.

No dia exato em que os libaneses lamentavam o aniversário da explosão dantesca que esfacelou Beirute, e 15 anos depois da segunda guerra entre Israel e o Líbano, um grupo que não reivindicou a ação disparou três foguetes contra território israelita a partir do sul do país. Perante este ataque a força aérea do Estado hebraico ripostou com um bombardeamento no país vizinho, o que não acontecia de forma oficial há sete anos.

Segundo os meios de comunicação israelitas, a operação, na qual dois foguetes aterraram em campos perto da cidade israelita de Kiryat Shemona e outro caiu no Líbano, foi levada a cabo por grupos palestinianos ao longo da fronteira sul do Líbano. Não houve feridos a lamentar, mas do ataque resultaram incêndios tanto num lado da fronteira como no outro, dado o calor extremo e os ventos fortes.

Em resposta, Israel disparou mais de cem projéteis e mais tarde realizou ataques aéreos, tendo visado os locais de onde os foguetes foram disparados. O canal de televisão Al-Manar, ligado ao grupo islamista Hezbollah, noticiou que os aviões israelitas atingiram uma área na periferia da cidade libanesa de Aishiya.

"O Estado libanês está sem controlo sobre os grupos terroristas que operam no seu interior", diz o exército israelita, ao que o presidente libanês critica as "intenções agressivas" de Telavive.

"Os ataques das Forças de Defesa de Israel vão continuar e até intensificar-se face aos ataques terroristas contra o Estado de Israel e os seus cidadãos", disse o exército numa declaração em que também consideraram o Líbano responsável pelos ataques. "Sem chegar à identidade de quem disparou os foguetes é evidente que o governo libanês tem total responsabilidade por qualquer incêndio no território do Estado de Israel. O Estado libanês está sem controlo sobre os grupos terroristas que operam no seu interior", concluiu o exército israelita.

Em resposta, o presidente libanês Michel Aoun acusou Israel de violação territorial e das resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas. "A utilização por Israel da sua força aérea para atingir aldeias libanesas é a primeira do seu género desde 2006 e indica a presença de intenções agressivas e de escalada no meio de contínuas ameaças contra o Líbano e a sua soberania", disse Aoun. Os ataques aéreos no Líbano foram os primeiros reconhecidos pelos militares israelitas no sul do Líbano desde 2014. Mas há relatos de recorrentes manobras de aeronaves no espaço aéreo libanês.

O episódio desenrolou-se num dia de luto nacional no Líbano para assinalar um ano em que uma explosão arrasou o porto de Beirute. Um desastre que simboliza a negligência e corrupção do país, e que teve o condão de aprofundar a crise, com o governo demissionário desde então ainda em funções, na ausência de uma solução governativa dentro do regime sectário, e uma espiral negativa económico-financeira que leva os libaneses ao desespero.

Considerado culpado pela explosão por parte dos libaneses, o Hezbollah, mais poderoso do que o exército libanês, não terá sido o autor do ataque a Israel, segundo fontes militares hebraicas, mas como disseram ao Canal 13, o grupo terrorista apoiado pelo Irão tem poder suficiente para controlar ações de outros grupos.

Há um mês, a polícia e o exército israelitas anunciaram ter impedido o contrabando de armas entre os dois países. Segundo o perito Taal Beeri, em declarações à Jewish News Syndicate, suspeita-se de que o Hezbollah esteja a redobrar atividades na Unidade 133, dedicada a ataques terroristas em Israel e na Cisjordânia.

Os disparos de foguetes a partir do Líbano têm sido raros desde a segunda guerra do Líbano, em 2006, que Israel lutou contra o Hezbollah. No entanto, nos últimos meses registou-se um ligeiro aumento, com 10 lançamentos dirigidos a Israel em maio, durante o bombardeamento de 11 dias sobre Gaza, bem como no mês passado, levando a considerar-se se as operações deste género podem normalizar-se, como aconteceu na fronteira de Gaza.

Israel pressiona

O incidente acontece dias depois de os governos israelita, norte-americano e britânico terem culpado o Irão por um ataque mortífero com drones contra um petroleiro de um bilionário israelita e de uma abordagem de homens armados a um navio-cisterna, ambos ao largo da costa de Omã, no Mar Arábico. As autoridades iranianas negaram qualquer envolvimento nos ataques.

Os ministros israelitas Benny Gantz (Defesa) e Yair Lapid (Negócios Estrangeiros) encontraram-se na quarta-feira com embaixadores dos países do Conselho de Segurança das Nações Unidas, tendo afirmado que forneram provas de que o Irão atacou o petroleiro, tendo designado Saeed Ara Jani, chefe da secção de drones dos Guardas da Revolução, "o homem pessoalmente responsável pelos ataques terroristas no golfo de Omã". Gantz acusou ainda o Irão de ter violado o acordo nuclear e de estar a cerca de 10 semanas de obter materiais necessários para uma arma nuclear. "É tempo de atos diplomáticos, económicos e mesmo militares - caso contrário, os ataques continuarão."

Uma vizinhança conturbada

1982 A tentativa de assassínio do embaixador israelita no Reino Unido, Shlomo Argov, por parte de um grupo palestiniano, foi o detonador para que o exército israelita, com o apoio de milícias cristãs libanesas, invadisse o sul do Líbano e impusesse um cerco de mês e meio à capital, Beirute. O grupo armado, Abu Nidal, era rival da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) de Yasser Arafat, que operava a partir da capital libanesa, mas para Telavive foi o momento para atacar no dia 6 de junho de 1982, por mar, ar e terra. Três dias depois as forças sírias envolveram-se na guerra, mas viu a força aérea israelita destruir cerca de um terço das suas aeronaves e um avanço por terra que levou a uma rápida trégua, algo que se repetiu dias depois com a OLP, que acabou por retirar-se do Líbano.

Com a vitória militar de Israel foi instalado um governo da fação cristã, mas os massacres de Shabila e Sabra (na foto) por parte das milícias cristãs aos palestinianos e libaneses xiitas foram mais combustível para o conflito: em setembro, o presidente Bachi Gemayel foi assassinado e depois da retirada israelita a guerra civil prolongou-se até 1990.

2006 A presença militar síria no Líbano durou até 2005, e no ano seguinte o exército israelita voltou a entrar em guerra contra posições naquele país. Desta vez foi o grupo terrorista Hezbollah que no dia 12 de julho atacou uma patrulha do exército israelita junto à fronteira. Matou três soldados e raptou outros dois, além de outros cinco soldados mortos na tentativa de resgatar os camaradas. Nesse mesmo dia, o Hezbollah disparou tiros de morteiro e foguetes tendo como alvo a população. Morreram então seis civis. As Forças de Defesa de Israel responderam com ataques aéreos e uma invasão terrestre pelo sul do Líbano.

Ao fim de 34 dias, Israel impôs danos significativos quer em bases do Hezbollah, quer nas infraestruturas do país, e matou mais de 1100 libaneses, tendo contado mais de 160 baixas, entre soldados e civis, ainda assim uma fração da guerra de 1982. No dia 11 de agosto o Conselho de Segurança da ONU aprovou a resolução 1701 para o fim das hostilidades, o que foi aceite pelos governos de ambos os países no dia 14. Os dois soldados raptados pelo Hezbollah foram mortos.

cesar.avo@dn.pt

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