EUA contra "golpe de estado" na Birmânia vão reduzir ajuda financeira

Os Estados Unidos acusam o exército da Birmânia (atual Myanmar) de ter realizado "um golpe de Estado" contra o governo civil de Aung San Suu Kyi, avisando que haverá uma redução na ajuda norte-americana ao país.

"Após uma análise cuidadosa dos factos e circunstâncias, chegamos à conclusão de que Aung San Suu Kyi, a líder do partido governante na Birmânia, e Win Myint, o Presidente do governo eleito, foram depostos num golpe" na segunda-feira, disse um oficial do Departamento de Estado norte-americano.

Os Estados Unidos anunciaram também que irão limitar a ajuda pública ao governo da Birmânia, que fica "automaticamente interrompida".

O exército prendeu na segunda-feira a chefe do governo civil da Birmânia, Aung San Suu Kyi, o Presidente Win Myint e vários ministros e dirigentes do partido governamental, proclamando o estado de emergência e colocando no poder um grupo de generais.

Os militares acusaram a comissão eleitoral de não ter sanado as "enormes irregularidades", que segundo eles ocorreram durante as eleições legislativas de novembro, vencidas por esmagadora maioria pelo partido de Aung San Suu Kyi, a Liga Nacional para a Democracia (LND), no poder desde 2015.

Para além da interrupção da ajuda financeira à Birmânia, o Governo norte-americano fará também cortes na colaboração em diversos programas de ajuda internacional.

"Além disso, vamos rever todos os nossos programas de ajuda", acrescentou a mesma fonte do Departamento de Estado norte-americano, alegando que se trata de uma medida para evitar beneficiar os autores do golpe de Estado.

No entanto, toda a ajuda humanitária - especialmente para os muçulmanos rohingya - e toda a assistência "que beneficie diretamente o povo da Birmânia" não será afetada por estas restrições, assegurou o Departamento de Estado.

Na segunda-feira, o governo do Presidente Joe Biden tinha pedido aos militares da Birmânia para entregarem "imediatamente" o poder, ameaçando voltar a impor as sanções que tinham sido levantadas na última década.

"A comunidade internacional deve falar a uma só voz para exigir que o exército da Birmânia entregue imediatamente o poder", disse Biden.

União Europeia pondera sanções

A União Europeia (UE) garantiu esta terça-feira que "considerará todas as opções à sua disposição para garantir que a democracia prevaleça" na Birmânia, uma declaração que abre a porta à adoção de sanções.

"A UE espera que a segurança dos cidadãos da Birmânia e a dos seus Estados-membros seja sempre garantida e considerará todas as opções à sua disposição para garantir que a democracia prevaleça", anunciou em comunicado o chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell. E reitera a condenação "nos termos mais veementes" o golpe militar perpetrado no país.

"Pedimos aos militares que libertem imediatamente e sem quaisquer condições o Presidente, a Conselheira de Estado e todos aqueles que foram detidos, exerçam a máxima contenção, restabeleçam as telecomunicações, e respeitem os direitos humanos, a liberdade de expressão, as liberdades fundamentais e o Estado de direito", disse também o chefe da diplomacia da UE.

A UE exorta ainda os militares a podem fim ao estado de emergência, a que restabeleçam o Governo civil e à abertura do Parlamento recém-eleito.

"Estamos prontos a apoiar o diálogo com todos os principais interessados que desejem resolver a situação de boa-fé, e a regressar à ordem constitucional" segundo o comunicado.

Pequim não quer "complicações"

Por seu lado, a China apelou esta terça-feira à comunidade internacional para não "complicar ainda mais a situação" na Birmânia, antes de uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU, na sequência do golpe de Estado.

Pequim, que tem importantes interesses estratégicos e económicos no seu vizinho do sul, é tradicionalmente hostil à "interferência" nos assuntos internos dos Estados e à imposição de sanções internacionais.

Depois de pedir às partes que "resolvam as suas disputas", de acordo com as leis e a Constituição do país, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da China pediu hoje à comunidade internacional "que contribua para a estabilidade política e social" na Birmânia.

O Conselho de Segurança da ONU deve realizar uma reunião de emergência sobre a situação no país durante o dia de hoje. O porta-voz da diplomacia chinesa Wang Wenbin pediu que se evite a escalada do conflito e se complique ainda mais a situação.

O chefe das Forças Armadas da Birmânia, Min Aung Hlaing, que passou a concentrar o essencial dos poderes, vei defender também esta terça-feira que o golpe de Estado militar de segunda-feira era "inevitável".

"Este desfecho era inevitável para o país e foi por isso que o escolhemos", declarou o general Min Aung Hlaing segundo a página oficial das Forças Armadas na rede social Facebook, um dia após o golpe de estado condenado pelos principais atores internacionais.

Refugiados com medo

Os Rohingya, que vivem em campos de refugiados no Bangladesh, condenaram o golpe militar no seu país e referem que o mesmo os deixa mais receosos em regressar.

Os refugiados disseram hoje que estão com mais medo agora, que os militares têm controlo total.

"Os militares mataram-nos, violaram as nossas irmãs e mães e incendiaram as nossas aldeias. Como é possível ficarmos seguros sob o seu controlo?", questionou Khin Maug, chefe da Associação Juvenil Rohingya, a partir dos campos de refugiados em Cox Bazar.

"Qualquer repatriação pacífica vai sofrer um impacto enorme. Vai demorar mais tempo porque a situação política na Birmânia está pior agora", indicou à Associated Press.

As autoridades da Birmânia e Bangladesh reuniram-se no mês passado para discutir formas de iniciar as repatriações, com o Ministério dos Negócios Estrangeiros do Bangladesh a parecer mais esperançoso no sucesso, com as autoridades a dizer que esperavam começar em junho.

Porém, os refugiados opõem-se totalmente ao golpe de estado encetado pelos militares da Birmânia na segunda-feira, e que se traduziu na detenção da chefe do governo civil, Aung San Suu Kyi, do presidente Win Myint e de vários ministros e dirigentes do partido governamental, proclamando o estado de emergência e colocando no poder um grupo de generais.

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