Escândalo no Peru depois de ex-presidente e outros responsáveis serem vacinados antes do tempo

Martín Vizcarra, que foi destituído em novembro de 2020, foi vacinado em segredo com doses da vacina chinesa Sinopharm destinadas ao estudo que estava a ser feito no país. E não foi o único político a beneficiar.

Entre setembro do ano passado e janeiro, vários funcionários peruanos, entre os quais o então presidente Martín Vizcarra e a sua mulher, foram vacinados em segredo contra a covid-19. As inoculações foram feitas com doses adicionais do estudo que estava a ser feito à vacina chinesa Sinopharm e envolveram pessoas com capacidade de decisão na compra das mesmas - o primeiro milhão dos 38 que foram comprados acaba de chegar ao país.

O escândalo rebentou na semana passada e já levou à demissão de vários responsáveis, entre os quais a ministra da Saúde, Pilar Mazzetti (que não terá sido uma das inoculadas, mas que teria conhecimento), o vice-ministro da Saúde Oscar Ugarte (que foi um dos vacinados), e a ministra dos Negócios Estrangeiros, Elizabeth Astete (que recebeu a primeira dose e já disse que não receberá a segunda).

"Estou indignado e furioso com esta situação que põe em risco todo o esforço dos peruanos que trabalham na linha da frente", disse o atual presidente, Francisco Sagasti, que foi eleito pelo Congresso depois de Vizcarra ter sido destituído, em novembro do ano passado, por ser considerado "moralmente incompetente" devido a alegadamente ter recebido dinheiro ilícito quando era governador. Sagasti deixou claro que nenhuma das pessoas que foi vacinada terá lugar no seu governo.

Foi Vizcarra, que é candidato às eleições gerais de abril, que revelou ter sido vacinado em outubro, quando ainda era presidente. Alegou que foi vacinado como voluntário do estudo da Sinopharm e que manteve em segredo, porque a confidencialidade dos voluntários deve ser mantida. Mas a Universidade Cayetano Heredia, que realizou o estudo, negou que o seu nome estivesse entre a lista dos voluntários, tal como o da sua mulher. Vizcarra disse-se surpreendido com isso, alegando que recebeu um boletim de vacinação como os voluntários.

A vacinação em segredo de Vizcarra desencadeou as suspeitas de que mais responsáveis tenham sido vacinados, sendo que só a partir de dia 8 de fevereiro é que começou oficialmente a vacinação dos profissionais de saúde no país - nessa mesma data, o presidente Sagasti foi inoculado. E ainda não há data para o início da vacinação do resto da população.

A procuradora-geral da República, Zoraida Avalos, já abriu um inquérito preliminar contra o ex-presidente e para saber afinal quem foi inoculado.

Segundo Sagasti, a Sinopharm enviou, além das doses destinadas ao estudo com 12 mil voluntários que foi feito, duas mil doses suplementares para a equipa de investigação e o pessoal envolvido no estudo. Terá sido com estas doses adicionais que Vizcarra e outros responsáveis foram vacinados.

O Peru, que atravessa atualmente a segunda vaga da pandemia, já registou mais de 1,2 milhões de casos de covid-19 e mais de 43 700 mortes.

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