Egípcios em Gaza e Israel para negociar trégua duradoura

Cairo, que endureceu o tom para com Telavive, reafirma preponderância diplomática. Secretário de Estado norte-americano também visitará a região.

Nas ruas de Gaza a vida voltou à normalidade possível, com a reabertura de cafés e comércio, entre os escombros e as feridas abertas por 11 dias de guerra, mas também com um desfile de centenas de militantes armados do Hamas, ao qual não faltou o líder Yahya Sinwar, cuja casa foi bombardeada. Com as declarações dos governantes israelitas e do movimento islamista que controla a Faixa de Gaza a demonstrar a fragilidade da trégua, mediadores egípcios estão em Israel e Gaza com o objetivo de assegurar que as hostilidades não regressam tão cedo.

Segundo informações do Hamas à Reuters, o Cairo enviou na sexta-feira uma delegação para Israel na sexta-feira para discutir formas de fortalecer o cessar-fogo, bem como de prestar assistência aos palestinianos de Gaza, e desde então a equipa diplomática desloca-se entre território israelita e palestiniano. Um diplomata egípcio citado pelo Times of Israel disse que a missão procura o estabelecimento de uma trégua a longo prazo, tendo dito ainda que as discussões incluem a aplicação de medidas acordadas em Gaza e Jerusalém, incluindo formas de prevenir práticas que conduziram aos últimos combates, dando a entender que se referia à violência na Esplanada das Mesquitas e ao processo na justiça que pode acabar com o despejo de famílias palestinianas em Sheikh Jarrah, Jerusalém Oriental.

O regime liderado por Abdel Fattah al-Sisi reafirmou o seu papel determinante de mediador no Médio Oriente, embora desta vez tenha transparecido críticas ao governo israelita e dado mais sinais de apoio aos palestinianos, como a promessa de Sisi de apoiar a reconstrução de Gaza com 500 milhões de dólares.

O Egito considera a Irmandade Muçulmana uma organização terrorista e o Hamas é uma ramificação palestiniana, todavia mantém os canais diplomáticos abertos. E também abriu, de forma excecional, a fronteira em Rafah, para a entrada de feridos e o envio de uma coluna de camiões com ajuda médica, mantimentos e combustíveis. Por outro lado, o ministro dos Negócios Estrangeiros Sameh Shoukry criticou "as violações israelitas nas imediações da mesquita Al-Aqsa" e o regime deixou que o sermão transmitido na TV no dia 14 fosse particularmente violento para com Israel, com apelos para tirar os "vagabundos estrangeiros" de Jerusalém.

A um tempo, o Cairo tentou apaziguar as críticas internas e ganhar as boas graças da administração Biden, desconfiada do regime autoritário e do histórico de desrespeito pelos direitos humanos. "Em virtude da geografia e dos seus laços com todas as partes, o Egito é único nesta matéria. E, claro, procura demonstrar a sua relevância regional e influência a todas as partes envolvidas, incluindo os Estados Unidos", comentou à Associated Press Michael Hanna, da ong International Crisis Group.

O secretário de Estado norte-americano Antony Blinken não deixará de passar pelo Cairo na próxima semana, numa viagem cujo itinerário passa também por Amã, Telavive e Ramallah. Na cidade da Cisjordânia deverá encontrar-se com o presidente da Autoridade Palestiniana (AP) Mahmud Abbas.

Os planos de reconstrução de Gaza devem fazer parte da agenda e Abbas deve tentar centralizar os mesmos para evitar o reforço do Hamas. Na sexta-feira, o líder da AP foi o alvo de uma manifestação de revolta sem precedentes em Jerusalém. A visita do chefe da diplomacia norte-americana dá-se depois de o presidente Joe Biden ter reafirmado o apoio à solução dos dois Estados e à reconstrução de Gaza, em declarações na sexta-feira à noite.

cesar.avo@dn.pt

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