Eduardo Paz Ferreira: "Temos uma dívida de gratidão para com Biden"

O professor universitário mostra-se desiludido com a falta de ambição e a desunião na União Europeia e no seu mais recente livro aponta o caminho: Bruxelas deve ter como modelo as políticas do Presidente dos Estados Unidos.

Tocado por um discurso do Papa Francisco aos membros do corpo diplomático proferido em fevereiro, em que falava num mundo doente não só pelo vírus mas também pelas desigualdades, pela iniquidade e pela indiferença, Eduardo Paz Ferreira, de 68 anos, exclamou: "É isto mesmo!" Inspirado pelo homem que diz, em tom de brincadeira, ser o seu líder político, escreveu "umas duas páginas a pensar o que poderia ser um livro" e enviou o plano a alguns amigos, ao que responderam de forma "entusiasta". Entre março e o final de maio, o professor catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e dono de uma sociedade de advogados, dedicou 10 a 12 horas diárias à "tarefa necessária" que o deixou contente, embora "extremamente cansado". O resultado é Como Salvar Um Mundo Doente, uma obra acessível, em que o autor põe esta pandemia em perspetiva com as anteriores, reflete sobre os erros cometidos e aponta caminhos para o futuro.

O livro é um trabalho jornalístico, tal como o início da sua vida profissional. Em que medida os media estiveram ou estão mal na cobertura noticiosa da pandemia?

Ninguém estava preparado para lidar com esta pandemia, ninguém sabia ao certo o que fazer. Os governos cometeram erros, as autoridades cometeram erros e o jornalismo também os cometeram. Para mim, o pior foi uma certa obsessão por determinadas posições a quem eram dadas vozes. Fui um dos subscritores de uma carta aberta às televisões generalistas, que acho terem atuado de uma forma totalmente desastrada, confundindo a tragédia e o espetáculo e achando que a melhor forma de lidar com a pandemia era entrar pelas enfermarias adentro, era ver pessoas nos cuidados intensivos e aquela procissão das ambulâncias paradas no Hospital de Santa Maria. Tudo isto tem um efeito depressivo sobre as pessoas e não ajuda a lutar. É preciso encontrar um equilíbrio. Acho que tem melhorado, a pandemia passou um pouco de moda - não sei se posso usar esta expressão -, mas há uns meses todas as primeiras páginas eram consagradas à pandemia, mas agora vai havendo mais espaço para outras coisas. Os media têm um papel decisivo para alertar as pessoas, mas têm que o fazer com extremo cuidado e olhando para as guidelines da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Como disse o Presidente da República, há vida para além da pandemia...

Esperemos que sim, temos de acreditar nisso. Eu cito dois autores que dizem que as pandemias são o nosso pior e mais mortal inimigo. Ao longo dos séculos, os milhões e milhões de pessoas que morreram por força das pandemias formaram um número muito grande. Não se pode dizer que seja uma novidade. Por enquanto, e graças a Deus e à grande evolução das vacinas, não podemos comparar os quatro milhões de mortos de agora com a gripe espanhola, que matou mais de 100 milhões de pessoas. Aos poucos, as coisas vão melhorando de algum modo. O que se irá passar ninguém percebe muito bem. E depois há os dramas das lutas entre Estados, como a China e a Rússia, a distribuir vacinas para influência política, ou a briga com as empresas farmacêuticas. O G7 fez algum esforço nesse sentido e agora há um consenso político de distribuição de mil milhões de vacinas para os países menos desenvolvidos. Enquanto houver países com os graus de pandemia que há agora, não se pode voltar à vida normal. E eu não quero um regresso à vida normal no sentido em que era em 2019, uma sociedade injusta e motivada por valores péssimos. Por um lado, tem havido coisas positivas, e temos uma dívida de gratidão para com o Presidente americano, Joe Biden, que tem tido uma atuação muito inesperada até para quem achava que ele era um low profile centrista, e que acabou por se revelar um Franklin Roosevelt, o que é impressionante. É preciso que sobre o que resta se construa uma nova sociedade, essa tal para a qual o Presidente da República fazia referência, utilizando a velha imagem do Presidente Jorge Sampaio, de que há vida para além do défice.

Aponta para outras questões, como a ganância da indústria farmacêutica e a incapacidade da União Europeia se libertar do seu lóbi, em contraste com os EUA, que defendem o levantamento das patentes das vacinas. Acha que essa posição ainda tem viabilidade?

Houve a tentativa de as autoridades se desculparem com um cisne negro, um acontecimento imprevisível. Mas não era nada, não só tínhamos um longo historial [de pandemias] como havia perto de nós figuras como Bill Gates ou Fareed Zakaria, mas também os cientistas e a própria OMS tinham prevenido de que viria aí uma pandemia. Só não se sabia qual nem quando e os governos foram indiferentes. Isto tem um problema essencial: a saúde devia ser tratada como um bem público comum, os Estados não deviam lidar com estas matérias isoladamente, mas em conjunto, proporcionando meios fortes a uma organização internacional que pudesse definir estratégias de combate à doença. Por muito que se estime, a OMS tem meios fraquíssimos e não pode grande coisa. Houve de facto uma indiferença inicial, uma correção muito lenta em muitos países, e depois houve casos trágicos, como os EUA, Brasil e Índia, em que figuras como Donald Trump, Jair Bolsonaro e Narendra Modi são totalmente cúmplices da divulgação e do acréscimo da doença.

Aponta para questões, como a ganância da indústria farmacêutica e a incapacidade da União Europeia se libertar do seu lóbi, em contraste com os EUA, que defendem o levantamento das patentes das vacinas. Crê que essa posição tem viabilidade?

Os EUA estão a destruir-se a eles próprios com essa profunda divisão. Sempre houve duas Américas, sabíamos isso, mas agora tornou-se muito nítido. O único aspeto positivo é que alguns governadores republicanos estão a favor da vacinação, mas em geral a campanha movida por Trump e seus herdeiros está a ser eficaz. Os valores que Biden tinha apontado para a vacinação não foram atingidos, embora não estejam muito longe. Mas a partir de agora vai ser um inferno, vai haver pouca vacinação, e isso é muito mau. Biden tem, no geral, um programa com o qual me identifico, mas vai ter enormes dificuldades em passar as suas várias propostas, porque tem uma maioria mínima e ainda por cima assente num democrata muito vadio, capaz de namorar com o inimigo [Joe Manchin].

A vacinação devia ser obrigatória?

É uma posição minoritária, mas acho que sim. Temos um plano nacional de vacinação, com vacinas obrigatórias. Salvo por razões de saúde ou outros motivos excecionais, devia ser obrigatória. E, aliás, o que se desenha neste momento como mais provável é que a pandemia não irá acabar e vai ser necessário renovar a vacina todos os anos. E há uma obrigação cívica de não fazermos mal aos outros.

Compara o plano de recuperação da UE com o dos EUA e defende uma espécie de Plano Marshall para a Europa. Falta ambição?

Claramente. Falta ambição e união. Esse plano foi objeto de uma negociação complexíssima. O plano inicial era muito mais ambicioso, designadamente os apoios ao Estado eram a fundo perdido, e depois passou parcialmente a fundo perdido e a outra a empréstimos com taxas de juro bonificadas. Portugal começou por declarar que não ia recorrer a empréstimos, mas agora já diz que em determinadas circunstâncias poderá recorrer. É perder uma oportunidade histórica não ir buscar o dinheiro que temos oportunidade de obter a custo zero.

Que plano gostaria de ver na Europa?

Gostaria que a UE se aproximasse muito do modelo de Biden. A OCDE diz que os EUA tomaram medidas de apoio duas a três vezes superiores às da Europa, o que é especialmente curioso, porque têm uma tradição de maior rejeição do Estado, e a Europa, pelo contrário, já teve a tradição de grande dependência do Estado. Teria gostado que investisse um valor muito superior àquele que acabou por ficar e que os apoios aos Estados fossem a fundo perdido, com um controlo muito estrito. E, acima de tudo, gostaria que a Europa organizasse uma estrutura suficientemente importante para poder lidar com um problema da doença, que percebemos hoje que é um bem comum internacional.

cesar.avo@dn.pt

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