E se Bolsonaro não se recandidatar?

Hipótese foi lançada por aliados que veem a popularidade do presidente derreter. Em troca, prometem-lhe blindagem política nos múltiplos processos contra si e a sua família a correr na justiça

"O meu destino é a prisão, a morte ou a vitória", disse Jair Bolsonaro, em agosto, num culto evangélico. Colocada de parte a morte, que é o destino não apenas do presidente do Brasil mas de todos, sobram-lhe a vitória, cada vez mais improvável, depois de sondagem de dia 22 o dar com 23% contra 48% de Lula da Silva (PT) na eleição de 2022, e a eventual prisão, cada vez mais provável, depois de um grupo de juristas listar sete crimes do presidente só na pandemia.

Na ressaca daquele inflamado discurso, quem ainda apoia Bolsonaro sugere: o melhor, neste momento, é tentar evitar derrota e prisão de uma só cajadada. E a solução passa por não se recandidatar.

O cenário, discutido nos corredores de Brasília há semanas, tornou-se notícia na coluna de bastidores da jornalista Mônica Bergamo, do jornal Folha de S. Paulo, sob o título "líderes do Centrão já discutem possibilidade de Bolsonaro não disputar as eleições de 2022". O Centrão é o conjunto de partidos assumidamente clientelista que apoia qualquer governo independentemente da ideologia em troca de cargos e nacos do orçamento - por ora, o Centrão sente-se bem tratado por Bolsonaro em matéria de cargos e nacos do orçamento, razão pela qual vem bloqueando, pela ação de um dos seus líderes, o presidente da Câmara dos Deputados Arthur Lira, todos os 132 pedidos de impeachment. Mas, a médio prazo, não convém ao Centrão estar associado a uma candidatura potencialmente perdedora.

Dessa forma, move-se para convencer Bolsonaro a evitar recandidatar-se em troca de apoio político em eventuais problemas do presidente na justiça. Que não são poucos: aqueles juristas acima referidos, sob a liderança de Miguel Reale Júnior, por ironia o primeiro subscritor do texto do impeachment de Dilma Rousseff em 2016, enviaram à Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado que investiga o caos e a corrupção no combate à pandemia um parecer em que se fala, entre outras faltas, de "prevaricação", de "charlatanismo" e de "crimes contra a humanidade".

Em paralelo, no caso do desvio milionário do salário dos assessores fantasmas do senador Flávio Bolsonaro e do vereador Carlos Bolsonaro, os dois filhos mais velhos do presidente, a decisão de quebrar sigilos bancários é sinal de que o cerco se aperta. No caso da propagação de fake news, o deputado Eduardo Bolsonaro, terceiro filho, é um dos acusados. Cristina Valle e Renan Bolsonaro, respetivamente ex-mulher e quarto filho do presidente, podem estar envolvidos num complexo esquema de corrupção na aquisição de vacinas na pandemia e moram em casa incompatível com os seus salários. Flávio também é suspeito em negócios imobiliários.

"Essa troca com o Centrão é interessante para Bolsonaro porque, para muitos, aquilo que ainda o mantém motivado em continuar na presidência é escapar da justiça - já foi até noticiado que Bolsonaro abdicaria da presidência e se candidataria ao Senado pelo Rio de Janeiro precisamente para escapar da justiça", diz ao DN o cientista político Vinícius Vieira, aludindo ao foro judicial privilegiado dos políticos em funções.

"Para o Centrão", prossegue o professor universitário, "também seria interessante apoiar uma candidatura de centro-direita, que teria o apoio dos 15 a 20% de bolsonaristas, serviria de contraponto a Lula e ainda isolaria os hoje potenciais candidatos de terceira via, o João Doria, pelo PSDB, o Ciro Gomes, pelo PDT, e o Luiz Henrique Mandetta, pelo DEM".

Na sondagem de dia 22 citada acima, do instituto Ipec, ex-Ibope, os 48% de Lula equivalem a 11 pontos a mais do que todos os rivais somados, o que lhe garantiria vitória na primeira volta. Bolsonaro vem em segundo mas com os tais 23%. Ciro soma 8% e Doria e Mandetta 3% cada.

De acordo com Vieira, "o Centrão aposta que a fusão do DEM e do PSL, a antiga formação de Bolsonaro, na tentativa de formar um dos maiores partidos do Brasil no campo da direita civilizada possa prover o novo presidente do Brasil". "E um dos nomes falados para a protagonizar é o de Rodrigo Pacheco, atual presidente do Senado e um nome neutro que pode unir do centro à extrema-direita".

Noutro cenário mais alargado da pesquisa do Ipec, em que é incluído o seu nome, Pacheco não vai, para já, além de 1%. Sergio Moro, cuja decisão final sobre se se candidata ou não, está marcada para os próximos dias, recebe o apoio de 5%, e José Luiz Datena, um apresentador de programas policiais, de 3% dos eleitores.

Uma eventual desistência de Bolsonaro, entretanto, é considerada má notícia para Lula. Caso o presidente de 2003 a 2010 não consiga vencer à primeira volta, na segunda seria um candidato vulnerável a uma opção de centro ou de centro-direita, dada a ainda forte rejeição ao seu nome e ao PT.

Acresce à "teoria da não recandidatura" que Bolsonaro, depois de romper com o PSL em 2019, não foi capaz de criar o seu próprio partido, o Aliança Pelo Brasil, sem assinaturas suficientes. Está, por isso, à mercê de outra força política, uma vez que no país não há candidaturas independentes, sendo que as tais formações do Centrão lhe vêm fechando a porta.

Depois da emenda constitucional de 1994 que permitiu a reeleição do presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma reelegeram-se e venceram. Michel Temer não se candidatou à própria sucessão e, a julgar pelos movimentos de bastidor de Brasília, o atual presidente, Bolsonaro, equaciona fazer o mesmo para evitar a derrota. E os tribunais.

dnot@dn.pt

Mais Notícias

Outras Notícias GMG