"Desta vez temos de lidar com o Hamas de forma profunda" 

O embaixador de Israel em Portugal, Raphael Gamzou, fala ao DN dos rockets lançados a partir de Gaza, da surpreendente influência do Hamas juntos dos árabes israelitas e da esperança que "no fim desta fase haja uma dissuasão a longo prazo que permita aos nossos cidadãos viver uma vida normal".

Tem-se falado no início de uma terceira Intifada. O que está a acontecer é comparável com 1987 e 2000 ou é algo diferente?
Há uma característica na atual situação que é diferente: é uma competição dramática entre duas forças na esfera pública palestiniana; uma competição entre os islamitas radicais - Hamas, Jihad Islâmica - e a Fatah, ou seja, a Autoridade Palestiniana. Se olharmos de perto, podemos ver imagens - que talvez não cheguem às televisões portuguesas - que mostram agentes das forças de segurança da Autoridade Palestiniana a lutar contra os manifestantes, incitados pelo Hamas. Aconteceu perto de Ramallah, em Nablus e noutras cidades. Não foi em vão que Abu Mazen [o nome de guerra do presidente palestiniano, Mahmud Abbas] adiou as eleições. Devo dizer que quando as convocou, eu e muitos outros ficámos surpreendidos. E vindo de uma tradição democrática, gostaria que os palestinianos alcançassem a democracia e transparência na sua vida política. Mas as coisas funcionam de forma diferente na nossa região. Basta lembrar que quando a administração Obama pôs pressão sobre os egípcios para realizarem eleições democráticas, o resultado foi o regime de Morsi, dos Irmãos Muçulmanos, que nada tinha a ver com valores democráticos.

As últimas eleições palestinianas deram a vitória ao Hamas...
Exatamente. Isto é algo que os nossos amigos e a opinião pública na Europa, no Ocidente, não entendem. A democracia não pode ser definida por tecnicismos, tem de se basear nos fundamentos democráticos. De outra forma, teremos radicais e extremistas, que são os inimigos da democracia, a chegar facilmente ao poder. Aconteceu nas últimas eleições palestinianas, como disse. Por isso ficámos surpreendidos quando Abu Mazen anunciou o escrutínio. E quando, há duas semanas, disse que seria adiado, o Hamas ficou frustrado. Porque acreditava, talvez com razão, que se houvesse eleições ganharia, não só em Gaza mas na Cisjordânia. Isso não seria bom para a Autoridade Palestiniana, para a Fatah. Então o Hamas decidiu mostrar que mesmo a partir de Gaza consegue controlar os territórios palestinianos, sem precisar de eleições.

Ficou surpreendido por terem influenciado até os palestinianos de Jerusalém Oriental, onde começaram os últimos confrontos?
Eles têm apoiantes em todo o lado. Para nossa surpresa e desânimo, têm até uma profunda capacidade para influenciar cidadãos árabes de Israel. Temos vistos os confrontos, esta vaga de jovens que atacam os vizinhos judeus, linchando-os e queimando sinagogas. Foi um "bom trabalho" do Hamas. Fiquei mais surpreendido com a sua influência dentro de Israel do que nos territórios. Foi bem orquestrado. E na segunda-feira até pré-anunciaram que as 18:00 iam começar a lançar rockets. E foi o que fizeram. Era Dia de Jerusalém, um festival judaico, e era também o fim do Ramadão. Eles quiseram provar que, a partir de Gaza, controlam tudo.

A origem destes confrontos é apontada à expulsão de famílias palestinianas do bairro de Sheikh Jarrah, em Jerusalém, por colonos judaicos. Começou aí?
Isso é algo que está nas mãos do Supremo Tribunal. É uma questão jurídica, ligada às propriedades de famílias judias que foram, elas próprias, expulsas em 1948 quando a Jordânia ocupou Jerusalém Oriental. Estas famílias recorreram à justiça. Infelizmente, tanto o Hamas como a AP usaram esta questão como pretexto. Denunciando uma provocação de Israel, para ganhar a simpatia da Europa e no mundo. Lamento mesmo, porque gostava que a opinião pública, também a portuguesa, tivesse informações corretas para poder avaliar a situação. Essa é uma mentira. Não há expulsão de famílias. Há uma questão que está em tribunal. Eu não gosto de ver as coisas a preto e branco. Não digo que sejamos perfeitos, que não cometemos erros. Mas há sem dúvida uma situação em que um país democrático, com as suas falhas, está a lutar contra uma organização islamita radical e cruel, que em 2007 tomou o controlo de Gaza através de um golpe militar contra os próprios compatriotas. E têm Gaza refém. Usam o seu próprio povo como escudo humano, colocam rampas de lançamento dos rockets dentro de prédios, junto a hospitais, a escolas. Colocam munições ou, centros de comando militares em bairros residenciais. E Israel? Conhece algum outro exército que mande por antecipação uma mensagem a anunciar aos civis do alvo vai atingir? Pedindo para deixarem o local? Claro que há sempre danos colaterais que são inevitáveis. E o Hamas faz um uso cínico da situação, tentando ganhar a simpatia das pessoas. Como é o caso dos portugueses. Muitas vezes as pessoas não percebem o que está a acontecer, porque só veem as imagens na televisão e muitas vezes os relatos são enviesados - mostram Israel a atacar Gaza, mas omitem a sequência de eventos. Se Portugal - Deus queira que não - fosse atacado por uma organização terrorista seria de esperar que o vosso governo retaliasse para proteger os cidadãos.

Como responde à opinião pública que acusa Israel de usar força desproporcional contra um inimigo militarmente mais fraco?
Em primeiro lugar devo dizer que também temos muito apoio em Portugal. E muitas expressões de solidariedade que nos chegam. O ministro dos Negócios Estrangeiros expressou a sua solidariedade com o povo de Israel.

E foi criticado...
Foi criticado por algumas forças radicais, mas foi apoiado por muitas outras forças racionais. O Ministério conhece a realidade e o quanto é complexa. E acredita, como a maioria dos Estados-membros europeus, que é inaceitável ter uma organização terrorista a lançar rockets. Até ao momento foram mais de 1600 rockets. Um terço deles caíram na Faixa de Gaza, causando algumas das baixas palestinianas, incluindo nove crianças. Quanto às críticas de uma certa opinião pública portuguesa e europeia, há várias razões. Em primeiro lugar, algumas das ex-sociedades coloniais têm sentimentos de culpa em relação ao Terceiro Mundo, aos pobres. Depois, a URSS durante anos foi uma máquina de propaganda anti-sionista, antissemita. E tinha muita influência nos partidos comunistas do Ocidente. Mas se pensarmos bem, Israel, com todas as suas fraquezas e falhas, representa valores que são queridos a toda a esquerda liberal, muito mais do que os nossos inimigos - estatuto das mulheres, direitos LGBT, liberdade de imprensa... Mas há ainda outra camada. Ontem estava a ver as notícias da noite e mais de metade do tempo foi a falar do Sporting campeão. E quero dar os meus parabéns aos sportinguistas. Mas ao mesmo tempo, estava a ver a televisão israelita e os rockets a cair, tinha estado ao telefone com o meu filho, a perguntar se os meus netos estavam bem, nos abrigos, e percebi que apesar de termos muito em comum, de me sentir em casa aqui e de os israelitas estarem apaixonados por Portugal, a realidade é completamente diferente. E que é muito difícil os portugueses perceberem o que é viver junto a Gaza. Fico muito feliz por os portugueses terem um contexto geopolítico pacífico, mas é normal que tenham dificuldade em perceber o que vivemos. .

Duas das vítimas israelitas também eram cidadãos árabes...
Quando se atinge Israel, os rockets não distinguem entre judeus e árabes. Um pai e uma filha, árabes de uma aldeia perto de Lod, morreram quando o seu carro foi atingido por um rocket. Vi as imagens. A rapariga planeava estudar Medicina, para salvar as vidas dos outros e acabou por perder a vida assim.

Em 2014 Israel também respondeu com uma operação militar ao lançamento de rockets a partir de Gaza. Desta vez a ONU alerta para o risco de uma guerra em "grande escala". É um cenário provável?
Desta vez teremos de lidar com o Hamas de forma profunda. O preço a pagar vai ser pesado. Penso que eles já o estão a sentir. Não podemos aceitar que sejam sempre eles a estabelecer a agenda e a duração da luta. E quando ficam aflitos, correm a pedir ajuda aos egípcios, aos qataris ou outros para pressionar a ONU a exigir um cessar-fogo a Israel. Não podemos aceitar que os nossos cidadãos sejam vítimas periódicas deste terrorismo. Como nenhum outro país aceitaria. Nunca me armaria em profeta, mas a verdade é que depois do que aconteceu na segunda guerra do Líbano, em 2006, no Norte o Hezbollah - que já não é uma milícia, é um dos exércitos mais poderosos do Médio Oriente, fortemente armado e equipado com o patrocínio do Irão - não está com pressa de voltar a atacar Israel. A dissuasão funcionou. Espero que o fim desta fase também leve a uma dissuasão a longo prazo, que permita aos nossos cidadãos viver uma vida normal, como é seu direito. Não será um processo imediato, mas espero que nesta competição entre os islamitas radicais e as forças mais pragmáticas da esfera pública palestiniana, as últimas ganhem. Não é garantido. O Irão está a agitar a situação, não só nos territórios palestinianos, também na Síria, no Líbano, no Iémen. Essa é a maior ameaça no Médio Oriente. E no mundo. Com tempo, espero que a população palestiniana perceba que o extremismo não os leva a uma vida melhor. E que se veja uma mudança gradual.

Como vê a posição da comunidade internacional, sobretudo dos EUA, com a Administração Biden?
Ao contrário da Administração Trump, a Administração Biden está a tentar um entendimento com os iranianos sobre o nuclear. Há diferenças óbvias, mas acredito que a amizade e proximidade entre Israel e qualquer administração americana existe. Mas no contexto mais largo, se os islamitas palestinianos virem que o mundo livre é fraco em relação ao regime iraniano, pode ser um incentivo para eles.

Israel teve quatro eleições em dois anos, a instabilidade política pode ser aproveitada pelos grupos radicais palestinianos para atacar. E para minar um potencial governo com apoio dos partidos árabes?
A instabilidade política não ajuda nenhuma democracia. Se os radicais se aproveitaram? Não tenho resposta. Mas agora que pergunta, penso que uma possível futura coligação de governo com um parceiro árabe seria vista como um fenómeno negativo. Os radicais não estão interessados na convivência pacífica entre judeus e árabes em Israel, pelo contrário. No último ano, a Lista Única Árabe trouxe um novo elemento para o debate, afirmando ser tempo de participar não só no Parlamento, mas também no governo. Enquanto democrata, acho isso saudável. Mas provavelmente foi visto como algo negativo tanto pelos extremistas judeus como pelos extremistas palestinianos. Uma melhor integração dos cidadãos árabes israelitas não serve os interesses desses radicais que querem destruir qualquer textura pacífica entre Israel e os vizinhos árabes e entre cidadãos judeus e árabes de Israel.

helena.r.tecedeiro@dn.pt

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