Desastre em Israel foi choque sem surpresa

Em 2008, um relatório alertava para a insegurança e desorganização da peregrinação ao Monte Meron.

Israel viveu uma das suas páginas mais negras na noite de quinta-feira, quando o primeiro evento com uma multidão durante a pandemia terminou com a morte de pelo menos 45 pessoas e ferimentos em 150, incluindo um número indeterminado de crianças.

A tragédia ocorreu no Monte Meron, no norte do país, quando milhares de pessoas saíam do recinto onde se crê estar o mausoléu do rabino Shimon Bar Yochai, ao qual é atribuída a autoria do Zohar, obra principal da Cabala e do misticismo judaico. Não há certezas sobre o que levou as celebrações do Lag B"omer - que culminara minutos antes com o atear da tradicional fogueira junto ao mausoléu - a acabarem em desastre.

Segundo o Times of Israel, uma rampa de metal da passagem estreita por onde os ultraortodoxos se acumularam estaria húmida, fazendo com que algumas pessoas caíssem. "Alguns terão caído quando desciam um lance de escadas, tombando sobre os que se encontravam por baixo e precipitando uma debandada e um efeito de dominó de esmagamento fatal", lê-se. "Formou-se uma pirâmide de uns sobre os outros", disse um homem à Reuters. "As pessoas amontoavam-se umas em cima das outras. Eu estava na segunda fila. Vi pessoas a morrer à frente dos meus olhos."

Vários testemunhos dão conta de que a polícia teria bloqueado a saída onde a azinhaga desemboca. "A polícia fechou-a. Depois, chegaram mais pessoas, e cada vez mais, e a polícia não as deixou sair, por isso começaram a cair umas em cima das outras", disse Shmuel, de 18 anos, à AFP. Também o correspondente da BBC no local ouviu quem dissesse que a polícia havia montado barreiras.

O chefe da polícia da região disse aos jornalistas que assumia "a responsabilidade total, para o bem e para o mal" e que estava "pronto para responder a todas as investigações". Shimon Lavi disse mais tarde à AFP que os seus agentes tinham feito tudo o que podiam numa "noite trágica". Ouvidas pelo Haaretz, chefias policiais rejeitaram a responsabilidade das forças de segurança.

Gerido pelos ultraortodoxos

O problema, como escreve o jornal de Telavive, é que sucessivos governos deixaram que o Estado de Israel não se imiscua nas comunidades ultraortodoxas (uma nem sequer reconhece o Estado). Isso acontece em bairros de Jerusalém e Bnei Brak (a leste de Telavive) e também em Meron, onde as seitas hassídicas exercem autoridade.

Em 2008, e de novo em 2011, o organismo de fiscalização estatal de Israel emitiu relatórios com avisos muito claros sobre o perigo de centenas de milhares se juntarem tendo como vias de acesso "caminhos estreitos e não apropriados". Cinco anos depois, o comandante da polícia Ilan Mor assinou um relatório em que defendia a limitação do acesso ao local sagrado, e que a organização das celebrações fosse de uma só entidade. Neste ano, o Ministério da Saúde quis limitar as entradas a quem estava vacinado, mas os partidos religiosos terão impedido a iniciativa.

Debandadas em peregrinações

Arábia Saudita

A caminho de Meca, em Mina, no ritual do apedrejamento do diabo.

Em 2015: Mais de 2300 mortos
Em 1990: 1426 mortos

Iraque

Rumor de bombista na ponte Aimmah, em Bagdad, gerou pânico na peregrinação xiita.
Em 2005: Mais de 1000 mortos

Índia

Junto a templos hindus.
Em 2008: 374 mortos
Em 2011: 106 mortos
Em 2013: 115 mortos

Fonte: AFP

cesar.avo@dn.pt

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