Covid-19, economia e internet móvel: os ingredientes da revolta social em Cuba

A pandemia e a crise alimentaram as manifestações espontâneas que as redes sociais ajudaram a espalhar. Díaz-Canel respondeu como Fidel em 1994: culpou os EUA e apelou aos seus apoiantes que saíssem também às ruas.

Um dos sucessos da revolução cubana sempre foi o sistema de saúde público, gratuito e universal. Mas, tal como no resto do mundo, a covid-19 deixou os hospitais à beira da rutura e diariamente são batidos recordes de novos casos, enquanto se espera pelas vacinas desenvolvidas na ilha. A pandemia representou também um golpe para a economia cubana, dependente do turismo e há mais de cinco décadas a braços com o embargo norte-americano, com as medidas que entraram em vigor no início do ano para acabar com a moeda dupla a traduzirem-se num aumento da inflação e na escassez de produtos. A somar a tudo isto, algo que faltou noutros momentos de contestação ao regime: o acesso à internet móvel (só existe desde 2018) que permitiu rapidamente espalhar a palavra e alimentar os maiores protestos em décadas.

"Cuba livre", "pátria e vida" - em vez do tradicional lema da revolução "pátria ou morte" - ou "abaixo a ditadura" ouviu-se no domingo nas manifestações espontâneas que surgiram em várias cidades cubanas e levaram milhares às ruas. O ponto de partida foi San Antonio de los Baños, a 30 quilómetros de Havana, e a mensagem do que estava a acontecer espalhou-se rapidamente através das redes sociais, tendo o governo cubano cortado o acesso à rede 3G ao princípio da tarde. Ao final do dia tinha sido restabelecido.

Em resposta às manifestações, o presidente cubano Miguel Díaz-Canel - que sucedeu a Raúl Castro à frente dos destinos da ilha em 2019 e como primeiro secretário do Partido Comunista Cubano no passado mês de abril - lançou um apelo numa mensagem televisiva. "Convocamos todos os revolucionários do país, os comunistas, a tomarem as ruas onde quer que essas provocações ocorram, de agora em diante e em todos estes dias. E enfrentá-las com decisão, com firmeza, com coragem", disse. "A ordem de combate está dada, os revolucionários às ruas", reiterou, numa declaração vista pelos opositores como um apelo à guerra civil.

"A ordem de combate está dada, os revolucionários às ruas"

Os revolucionários responderam à chamada e saíram às ruas, tendo Díaz-Canel participado ao final da tarde de domingo numa segunda manifestação em San Antonio de los Baños, desta vez de apoio à revolução. Segundo os testemunhos recolhidos pelo Granma, o jornal oficial do Partido Comunista Cubano, a outra mensagem do presidente também passou, a de que a culpa dos protestos iniciais foi da "máfia cubano-americana". Já nesta segunda-feira, após reunir com o governo, Díaz-Canel voltou a apontar as culpas aos EUA, acusando Washington de desenvolver "uma política de sufoco económico para provocar a revolta social no país". E lembrou que o seu governo tem tentado "ultrapassar" as várias dificuldades causadas por décadas de sanções contra a ilha.

Apesar da aproximação verificada entre os EUA e Cuba na presidência de Barack Obama (e ainda com Raúl Castro no poder), que levou ao restabelecer de relações diplomáticas em 2015, só o Congresso norte-americano pode levantar o embargo imposto há quase seis décadas. A presidência de Donald Trump representou um novo recuar nas relações, com o atual residente da Casa Branca, Joe Biden, a não mostrar até agora qualquer vontade de alterar a situação.

Resposta internacional

Logo no domingo, através das redes sociais, a secretária de Estado adjunta em exercício do Gabinete para os Assuntos do Hemisfério Ocidental dos EUA, Julie Chung, sublinhou o apoio norte-americano ao direito dos cubanos se manifestarem pacificamente. E mostrou-se "muito preocupada" com o que considerou serem "apelos para combater" em Cuba, proferidos por Díaz-Canel, apelando à calma.

Já ontem o próprio Biden reiterou essa mensagem: "Estamos do lado do povo cubano e do seu clamor por liberdade e alívio das trágicas garras da pandemia e de décadas de repressão e sofrimento económico a que tem sido sujeito pelo regime cubano autoritário", indicou num comunicado, apelando ao governo cubano para "ouvir o povo" e responder às suas necessidades "em vez de se enriquecerem a eles próprios".

O chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, apelou ontem ao governo cubano que "permita manifestações pacíficas e oiça o descontentamento que está a ser expressado pelos manifestantes", depois de uma reunião com os ministros europeus dessa pasta, em Bruxelas. A mesma ideia expressou o ministro dos Negócios Estrangeiros português, Augusto Santos Silva, que se mostrou preocupado com a situação. "Vamos ver como é que as coisas evoluem, e em que é que nós podemos influenciar para que evoluam num sentido positivo", disse.

Por seu lado, tanto a Rússia como o México alertaram, já nesta segunda-feira, para qualquer ingerência estrangeira em Cuba. "Consideramos inaceitável qualquer ingerência estrangeira nos assuntos internos de um Estado soberano e qualquer outra ação destrutiva que promova a desestabilização da situação na ilha", disse o Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, em comunicado. "Estamos convencidos de que as autoridades cubanas estão a tomar todas as medidas necessárias para restaurar a ordem pública, no interesse dos cidadãos do país", acrescentou, dizendo que está a "acompanhar de perto a evolução da situação em Cuba e nos arredores".

"Maleconazo"

A última vez que os cubanos protestaram de forma semelhante contra o governo foi em 1994, quando o histórico líder da revolução, Fidel Castro, ainda estava vivo e se vivia em pleno "período especial" de crise económica, após a queda da União Soviética. Mas o "Maleconazo" ocorreu apenas em Havana (o nome vem do Malecón, a grande avenida ribeirinha da capital) - não havia então redes sociais para ampliar o protesto.

Fidel, tal como Díaz-Canel fez agora, acusou os EUA de tentarem provocar "um banho de sangue" e mobilizou os seus apoiantes para as ruas. O rastilho que incendiou o Malecón foi a interceção de quatro barcos com cubanos que queriam fugir da ilha, sendo que depois do protesto, Fidel abriu as portas a um êxodo em massa: cerca de 33 mil cubanos fugiram em embarcações caseiras, num episódio conhecido como "crise dos balseros".

Em pleno século XXI não é claro quais serão as consequências dos protestos deste fim de semana - ou se estes se vão voltar a repetir. Certo é que as duas principais razões para o descontentamento social, a covid-19 e a crise económica, não têm solução a curto prazo. E a internet, que segundo uma das vozes críticas do governo, a jornalista Yoani Sánchez, continuava ontem muito lenta, não poderá ficar cortada para sempre.

Em relação à pandemia, a ilha atravessa atualmente o pior momento, com os recordes de casos a serem batidos diariamente. No sábado foram contabilizados oficialmente mais 6923 casos (os opositores alegam que serão muitos mais) e 47 novas mortes (num total de mais de 1500 desde o início da pandemia). Diante dos números, na semana passada as autoridades de saúde cubanas deram luz verde a uma das vacinas desenvolvidas na ilha: a Abdala, com uma eficácia de 92% em relação à covid-19 após três doses. A outra vacina é a Soberana 2, que está ainda em testes.

Um grupo de opositores cubanos denunciou na sexta-feira uma "crise humanitária", apelando à criação de um corredor humanitário. Em resposta, o governo cubano admitiu que há uma "complexa situação epidemiológica", mas rejeita o termo "crise humanitária". E mostrou-se aberto a receber doações, apesar de denunciar o que apelidou de "campanhas de descrédito". O presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, além de condenar qualquer ingerência externa na ilha, ofereceu ontem ajuda a Cuba.

A pandemia só veio complicar mais a situação económica na ilha, já que afeta diretamente o turismo - uma das bases da economia. A reforma económica do início do ano, que além de acabar com a dupla moeda trouxe um aumento nos salários cubanos, causou inflação e o aumento dos preços dos alimentos e medicamentos, assim como o aumento das filas para comprar bens essenciais. Para complicar mais a situação de muitos cubanos, que sobrevivem à custa das remessas dos familiares no estrangeiro, o governo deixou de aceitar depósitos em dólares nos bancos da ilha ou câmbios da moeda norte-americana, devido às dificuldades que depois tem em depositar esses mesmos dólares no exterior.

Patria y Vida, música deu o mote

"Não mais mentiras/O meu povo pede liberdade, não mais doutrinas/ Já não gritamos pátria ou morte mas pátria e vida." A letra (numa tradução livre do espanhol) é da música Patria y Vida, dos artistas cubanos Yotuel Romero, Descemer Bueno, Gente de Zona, Maykel Osorbo e El Funky, que altera o lema "pátria ou morte" da revolução e critica 60 anos de governação comunista. A música foi lançada a 16 de fevereiro, espalhou-se rapidamente graças às redes sociais (ultrapassou o milhão de visualizações no YouTube em 72 horas) e causou críticas diretas do próprio presidente cubano. Neste domingo, era uma das palavras de ordem dos manifestantes.

susana.f.salvador@dn.pt

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