Covid-19. Como a União Europeia se deixou atrasar na corrida às vacinas

Os sinais de alarme ecoam por toda a UE face ao atraso na entrega das vacinas, que ameaça o objetivo de imunizar 70% da população até final do verão. E, sobretudo, ameaça a tão urgente recuperação económica. Gestão de Ursula von der Leyen sob críticas.

Se a presidência portuguesa do Conselho da União Europeia arrancou em janeiro com os focos postos numa desejada recuperação pós-pandémica entre os 27, após os últimos dias de 2020 (ainda sob presidência alemã) terem proporcionado o lançamento dos programas de vacinação na maioria dos países da UE, o entusiasmo desses dias parece ter-se esvaído rapidamente.

Um mês decorrido, os sinais de esperança deram lugar a dúvidas carregadas sobre um processo de vacinação lento e recheado de obstáculos. Por toda a União Europeia, multiplicam-se os clamores críticos o incómodo é já indisfarçável até nos eixos Paris e Berlim, deixando a alemã Ursula von der Leyen perante a maior crise da sua liderança.

Nas últimas semanas, os atrasos na distribuição das vacinas contratualizadas pela União Europeia tomaram conta da gestão diária dos planos de vacinação entre os países da UE e deixam em risco os objetivos anunciados já sob a presidência portuguesa do Conselho: "até ao verão de 2021, os Estados-membros deverão ter vacinado 70% da população adulta."

Ora, depois de a AstraZeneca ter assumido que, das 100 milhões de doses inicialmente previstas para o primeiro trimestre, só conseguirá entregar 40 milhões, e segundo o que se conhece dos contratos firmados pela União Europeia com os três consórcios que atualmente lhe disponibilizam doses de vacinas contra a COVID-19, até final de junho os Estados-membros da UE não deverão receber mais do que 210 milhões de doses dessas três vacinas - Pfizer/BioNTech, Moderna e da Oxford/Astrazeneca -, conforme adiantava terça-feira o jornal catalão La Vanguardia.

Em entrevistas concedidas a vários media europeus, Ursula von der Leyen reiterou o objetivo, especificando que espera obter os 70% da população adulta vacinada até ao final do verão - final do terceiro trimestre, portanto. Mas os atrasos e o mau estar que eles têm provocado são indisfarçáveis, levantando muitas questões sobre a forma como a União Europeia geriu todo este processo, por comparação com países como Israel, Reino Unido ou os Estados Unidos, que têm taxas de vacinação já bastante mais elevadas do que os países da UE, segundo dados do site Our World In Data.

A burocracia de Bruxelas

"Não é de todo surpreendente", assinala ao DN o presidente da Sociedade Portuguesa de Gestão em Saúde (SPGS), Miguel Sousa Neves. "A União Europeia é muito burocrática nos seus processos e nas suas instituições", refere.

Ao todo, a União Europeia, que concertou uma atuação em bloco, assinou até agora seis contratos com diferentes farmacêuticas, num investimento de 2,7 mil milhões de euros para a obtenção de 2,3 mil milhões de doses. Mas não só assinou contratos mais tarde, como a Agência Europeia de Medicamento (EMA) demorou mais a autorizar a utilização das diferentes vacinas disponíveis até agora. Um atraso que, agora, se reflete também no atraso do plano de vacinação face a outros pontos do globo. "A EMA devia ter feito o que outras agências do medicamento fizeram, como no Reino Unido e nos Estados Unidos, que era conceder uma autorização de emergência para aprovar o uso das vacinas", defende o médico que lidera a SPGS.

Ursula von der Leyen defende-se com os protocolos de segurança. "É certo que outros começaram antes, mas nós decidimos, entre os 27, que é muito importante que qualquer vacina seja efetiva e segura. É uma enorme responsabilidade, não admitimos atalhos e penso que fizemos bem", justificou a presidente da Comissão Europeia na entrevista concedida a vários media europeus e ontem publicada."

Certo é que a EMA só aprovou a primeira vacina para uso na UE, a da Pfizer/BioNTech, a 21 de dezembro, e depois de públicas pressões das autoridades de saúde alemãs, quando o Reino Unido o fez no dia 2 e os EUA na semana seguinte. Um atraso que repetiu aquele que já se tinha verificado na hora de contratualizar o fornecimento de vacinas. O primeiro acordo assinado pela Comissão Europeia foi anunciado apenas a meados de agosto de 2020, com a AstraZeneca, enquanto os britânicos o tinham feito já em maio.

A EMA devia ter feito o que outras agências do medicamento fizeram, como no Reino Unido e nos Estados Unidos, que era conceder uma autorização de emergência para aprovar o uso das vacinas

O barato pode sair caro

"Podem dizer que Israel pagou mais, ou os Estados Unidos, mas a verdade é que nestes casos, de uma crise urgente para resolver, o barato pode sair muito caro à União Europeia. Enquanto Israel daqui a poucos meses pode retomar a sua economia, na UE o processo vai ser mais demorado, com custos económicos brutais", relembra Miguel Sousa Neves sobre os valores dos contratos que uma governante belga deixou "escapar" nas redes sociais - a vacina da Moderna aparecia como a mais cara, a 14,70 euros por dose, enquanto a da Pfizer/BioNTech terá custado 12 euros por dose, sendo a da AstraZeneca a mais barata, a 1,78 euros/dose.

Nos últimos dias, depois de a Pfizer e, sobretudo, a AstraZeneca terem anunciado atrasos na entrega das vacinas, a Comissão Europeia reagiu com pressões sobre a AstraZeneca e inspeções à fábrica da Pfizer na Bélgica, por entre suspeitas de favorecimento no trato ao Reino Unido, ameaçando ainda com um mecanismo que permite o bloqueio de exportações.

Miguel Sousa Neves critica aqui também a gestão de expetativas. "Houve demasiado folclore no lançamento das primeiras doses nos vários países da UE. Passou-se à população uma imagem de que em três tempos a pandemia ia estar resolvida", aponta, relembrando que "há umas três semanas, nós na SPGS já lançámos um comunicado a alertar que a imunidade de grupo em Portugal seria, na melhor das hipóteses, alcançada no início de outubro, com cerca de 40 a 50% da população" vacinada.

Não querendo retirar o "benefício da dúvida" ao objetivo anunciado pela Comissão Europeia (70% da população adulta até final do verão), o médico oftalmologista vê-o ainda assim como "muito difícil". "Em países como a Dinamarca ou a Alemanha, é possível. Em países com dificuldades logísticas, como Portugal, duvido".

Vacina russa pode ajudar?

Estes atrasos no plano de vacinação são especialmente preocupantes numa altura em que vão ganhando força novas variantes do SARS-CoV-2. "Se não vacinarmos rapidamente, os vírus vão-se espalhando e alterando a sua configuração, dando origem a novas estirpes", sublinha o presidente da SPGS. O que dificultará ainda mais o sucesso na imunização. Além disso, alerta, a imunidade das pessoas recuperadas de infeção com COVID-19 também vai diminuindo, obrigando a incluí-las no plano.

Para acelerar o alcance da vacinação, alguns países estudam seguir a estratégia do Reino Unido e alargar o período de intervalo entre a primeira e a segunda doses - a OMS recomendou um intervalo entre 21 e 28 dias, Londres está a optar por 12 semanas. "Se tivemos a garantia de que o atraso na entrega das doses é de uma ou duas semanas, é uma possibilidade, mas se não tivermos certeza de ter as segundas doses em tempo útil é um risco que pode comprometer a vacinação. Aí, acho que Portugal faz bem em assegurar desde já reservas de segunda dose", adverte.

Uma alternativa disponível, diz Miguel Sousa Neves, é a Agência Europeia de Medicamento "avaliar a autorização de emergência de outras vacinas, como a russa ou a chinesa". Ontem, a revista Lancet "avalizou" a eficácia de 91,6% da vacina Sputnik V, até aqui menosprezada pela Europa ocidental.

Falta de controlo em Portugal

Em Portugal, aos atrasos comunitários acrescem ainda dezenas de episódios caricatos na gestão da vacinação. O presidente da SPGS aponta o dedo a uma task-force "que tem feito um trabalho em cima do joelho". "O plano de vacinação em Portugal não tem uma voz de comando que se reconheça, não tem logística adequada, que devia ser assegurada pelas Forças Armadas, e não há mecanismos de controlo rigorosos", critica, frisando que "essa falta de controlo põe em causa a eficácia da própria vacinação". E, sobretudo, reforça, "mina a confiança da população".

A nível comunitário ou nacional, os sinais de alerta são vários. E a preocupação aumenta. É que do sucesso destes planos de vacinação depende a tão desejada recuperação pós-pandémica que Portugal quer como bandeira da sua presidência europeia.

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