Israel e Hamas clamam vitória mas violência volta a Al-Aqsa

Primeiro-ministro israelita fala num "sucesso excecional", enquanto o líder do grupo islamita que controla Gaza alega que foi destruído "o projeto de coexistência com Israel".

O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, e o líder do Hamas, Ismail Haniyeh, clamaram vitória no primeiro dia de cessar-fogo, depois de 11 dias de ataques que deixaram mais de 250 mortos (a grande maioria do lado palestiniano). Mas se os rockets e os mísseis deixaram de cruzar os céus, novos confrontos voltaram a irromper entre palestinianos e forças de segurança israelitas no local onde tudo tinha começado há duas semanas, a mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém.

Após a oração de sexta-feira, horas depois de o cessar-fogo negociado pelo Egito ter entrado em vigor (02.00 locais, 00.00 em Lisboa), "centenas de pessoas atiraram pedras e cocktails molotov contra os agentes da polícia, que responderam ao local e começaram a dispersar os desordeiros", indicaram as autoridades. A polícia respondeu com balas de borracha e granadas de atordoamento. De acordo com as autoridades de saúde, pelo menos 21 pessoas ficaram feridas, sendo que duas tiveram mesmo que ser hospitalizadas.

No dia 10 de maio, perto do final do Ramadão, após três dias de violência semelhante naquele que é o terceiro local mais sagrado para os muçulmanos, o movimento islamita do Hamas deu um ultimato para que as forças israelitas abandonassem o local. Quando o prazo acabou, o grupo que controla a Faixa de Gaza começou a lançar rockets contra Israel, que respondeu com ataques de mísseis. Depois de onze dias de bombardeamentos, que causaram a morte de 243 palestinianos (incluindo 66 crianças) e 12 israelitas (incluindo um menor), além de mais de dois mil feridos, Israel e Hamas acordaram o cessar-fogo na quinta-feira, sendo este monitorizado pelo Egito.

Ambos os lados apressaram-se a declarar vitória. Netanyahu classificou a ofensiva como um "sucesso excecional", dizendo que os objetivos foram alcançados. O alvo de Israel eram especificamente os túneis que o Hamas construiu sob Gaza, permitindo-lhe esconder armas e os próprios combatentes dos drones israelitas. "O Hamas já não se pode esconder", disse o primeiro-ministro israelita , acrescentando que foram mortos "mais de 200 terroristas, incluindo 25 oficiais". Além disso, prometeu que qualquer rocket lançado pelo Hamas será respondido com "um novo nível de força" da parte de Israel.

Também o ministro da Defesa, Benny Gantz, falou em sucesso. "Desferimos um golpe muito duro ao Hamas", disse, defendendo que Israel fez com que as capacidades do grupo recuassem anos. E defendeu a necessidade de construir uma nova realidade "sob os escombros das casas dos líderes do Hamas", lembrando que se não houver agora uma ação diplomática rápida, este terá sido apenas "mais um conflito antes do próximo".

Mas do lado do Hamas também houve motivos para festejar a alegada vitória. "Destruímos o projeto de coexistência com Israel, de normalização com Israel", defendeu Haniyeh, alegando que o grupo irá beneficiar de um apoio regional maior depois do conflito. "O que vem depois desta batalha não é o que veio antes dela. Vocês vão ver muitos contactos e êxitos diplomáticos", acrescentou. "Nós vimos como a nossa nação acordou, para ficar ao lado de Jerusalém, a Palestina e a resistência", acrescentou.

Mais cedo, milhares de palestinianos tinham festejado o cessar-fogo em Gaza. "É a euforia da vitória", disse diante da multidão Khalil al-Hayya, número dois do gabinete político do Hamas na Faixa de Gaza, prometendo "reconstruir" as casas destruídas pelos bombardeamentos israelitas. Segundo as Nações Unidas, cerca de 91 mil pessoas foram obrigadas a fugir de casa, com o Hamas a dizer que 1447 residências (casas ou apartamentos) foram atingidos e 205 blocos residenciais completamente destruídos, além de 75 edifícios públicos ou do governo e várias infraestruturas de água, luz ou esgotos.

Mundo congratula-se

A comunidade internacional saudou o cessar-fogo, mas apela a uma solução de longo prazo para o conflito. O presidente dos EUA, Joe Biden, disse que esta é "uma oportunidade genuína de fazer progressos", dizendo-se "comprometido a trabalhar nesse sentido". Do lado da Rússia, o acordo foi visto como "um passo importante, mas ainda insuficiente", com a porta-voz da diplomacia, Maria Zakharova, a defender negociações diretas entre Israel e os palestinianos.

"A União Europeia congratula-se com o anunciado cessar-fogo que põe termo à violência", indicou o chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, reiterando contudo que "só uma solução política poderá trazer uma paz sustentável e pôr fim de uma vez por todas ao conflito israelo-palestiniano". Para o alto representante da UE para a Política Externa, "restaurar um horizonte político no sentido de uma solução de dois Estados continua a ser da maior importância e a UE está pronta a apoiar plenamente as autoridades israelitas e palestinianas nestes esforços".

susana.f.salvador@dn.pt

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