Cem anos após a partição da Irlanda, Brexit faz subir apoio à reunificação

A 3 de maio de 1921 nascia a Irlanda do Norte, mas os planos de Londres para manter o controlo sobre o sul acabaram por desabar, com este a tornar-se independente. No aniversário, há crise entre os unionistas.

Há 100 anos, numa tentativa de conter as ideias nacionalistas no sul da Irlanda, de maioria católica, e ao mesmo tempo proteger os interesses dos unionistas de maioria protestante na região do Ulster (a norte), o governo britânico decidiu dividir a ilha. A ideia era dar a cada região um Parlamento e um governo autónomo, ficando ambas sob o controlo do Reino Unido. A 3 de maio de 1921 nascia então a Irlanda do Norte, mas na Irlanda do Sul os planos não correram como o esperado para Londres e, um ano depois, a atual República da Irlanda tornava-se independente. Agora, com o Brexit e uma mudança demográfica - e apesar das tensões sectárias que ainda existem -, cresce o apoio à reunificação.

Uma sondagem para o The Sunday Times, em abril, mostrava que 47% das pessoas na Irlanda do Norte são contra a reunificação e 43% são a favor, sendo que entre os menores de 45 anos a ideia é mais apelativa (47% querem a reunificação, contra 46% que optam por continuar no Reino Unido). Outra sondagem, divulgada no sábado pelo The Irish Independent, sugeria que 43% eram contra e 35% a favor - mas um em cada cinco não quis responder. Já na República da Irlanda, 67% defendem a reunificação e 16% são contra, sendo que nos dois países sete em cada 10 inquiridos querem um referendo sobre o tema no espaço de cinco anos.

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, já disse que um referendo está "muito, muito longe". Por seu lado, o primeiro-ministro irlandês, Michéal Martin, também lembrou que fazer um referendo demasiado cedo poderia ser "mais explosivo e divisivo". Outro obstáculo à reunificação são as questões económicas.

Se há cem anos o Norte era uma das regiões mais industrializadas e mais ricas da Irlanda, depois de décadas de violência é uma das mais pobres do Reino Unido, dependente do subsídio de 10 mil milhões de libras que recebe anualmente de Londres. Já a República da Irlanda é um dos países mais ricos, apesar de os números do PIB não refletirem a verdadeira realidade - o país dá incentivos a grandes empresas, entre elas a Apple, para a transferência dos bens intangíveis para lá, o que distorce os números. Nas sondagens, nem norte nem sul querem pagar mais impostos para conseguir a reunificação.

A ideia de um referendo está prevista nos Acordos de Sexta-Feira Santa (que puseram fim ao conflito entre nacionalistas e unionistas na Irlanda do Norte, em 1998). E para muitos analistas a reunificação sempre foi certa, sendo apenas uma questão de saber quando acontecerá. Em causa está a demografia na Irlanda do Norte: o censo deste ano pode mostrar que, pela primeira vez, o número de católicos (que tradicionalmente têm mais filhos) ultrapassa o de protestantes. Há 10 anos, 48% identificavam-se como protestantes e 45% como católicos, sendo que estes eram só 31% da população em 1973. Nem todos os católicos são nacionalistas e nem todos os protestantes são unionistas, mas este é tido como um bom indicador.

E depois há o Brexit, que incendiou ainda mais as tensões a norte. No referendo de 2016 sobre a saída do Reino Unido da União Europeia, 55,8% dos eleitores na Irlanda do Norte votaram contra. Mas este foi em frente e, para evitar que a reintrodução de uma fronteira pudesse reatar o conflito que entre 1968 e 1998 matou mais de 3500 pessoas, a Irlanda do Norte continuou dentro do mercado único europeu. Na prática, foi criada uma fronteira no mar da Irlanda que a separa do resto do Reino Unido.

À procura de um líder

Isso causou tensão dentro dos próprios unionistas, que resultou na decisão da líder do governo, Arlene Foster, de apresentar a demissão quando se falava que tinha perdido a confiança dos deputados do Partido Unionista Democrático (DUP, na sigla em inglês). Deixará a liderança partidária a 28 de maio, depois de seis anos, e, consequentemente, o cargo de primeira-ministra. Cabe ao partido encontrar um sucessor ou sucessora, que terá pela frente a tarefa de tentar dar a volta à situação criada pelo Brexit.

A corrida para suceder a Foster já começou, com dois candidatos a declarar a sua intenção de concorrer. O favorito parece ser Edwin Poots, que tem a pasta da Agricultura, Ambiente e Assuntos Rurais e foi o primeiro a lançar-se na corrida. "Criacionista da terra jovem", que rejeita a teoria da evolução e acredita que o mundo foi criado por Deus há seis mil anos, considerava a atual chefe de governo como "demasiado moderada". A candidatura de Jeffrey Donaldson, que é líder do DUP na Câmara dos Comuns, em Londres, e é visto como mais moderado do que a própria Foster, também é dada como certa.

Fala-se ainda de outros nomes, como o do antigo presidente da Câmara de Belfast, Gavin Robinson, ou até Ian Paisley Jr, filho do fundador do partido. Mas este último esteve envolvido num escândalo em relação a despesas de representação e é considerado um risco. Sammy Wilson, deputado em Westminster, tem sido o porta-voz da linha mais dura do partido em relação ao Brexit e poderá ser um nome forte para tentar reverter a situação em relação ao Brexit.

susana.f.salvador@dn.pt

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