Capitólio: Congressistas reconhecem trauma um ano após a invasão

A invasão ao capitólio norte-americano a 06 de janeiro de 2021 ficou marcada pela morte de cinco pessoas e mais de uma centena de polícias agredidos.

Um ano depois da invasão do Capitólio norte-americano, ainda subsistem traumas e recordações dolorosas nos congressistas que foram então ameaçados pelos apoiantes do ex-Presidente Donald Trump, revelam esta quarta-feira vários testemunhos citados pelas agências internacionais.

Quando uma multidão composta por várias centenas de pessoas irrompeu pelo edifício do Congresso, sede do poder legislativo norte-americano, muitos congressistas tiveram de ser levados para lugares seguros pela polícia do Capitólio, procurando proteger-se das ameaças físicas e verbais.

À medida que o perigo se aproximava e os invasores tentavam arrombar portas de gabinetes, congressistas ligavam às famílias e procuravam improvisar meios para se defenderem de eventuais ataques.

"Quando olhei para cima, percebi que estávamos presos", disse Jason Crow, um membro democrata da Câmara de Representantes (câmara baixa do Congresso), que se viu encurralado num dos pisos do Capitólio, durante a invasão de 06 de janeiro de 2021 por apoiantes de Trump que tentavam impedir que o Senado (câmara alta) validasse a vitória eleitoral de Joe Biden.

Crow, congressista eleito pelo Colorado, tinha sido soldado e cumprido três missões no Iraque e no Afeganistão, nos Rangers, e percebeu rapidamente que a situação no Capitólio era crítica.

"A polícia tinha evacuado o piso da Câmara de Representantes, mas tinha-se esquecido de nós", recorda hoje Crow, que compartilha o sentimento de trauma com vários outros congressistas que viveram momentos dramáticos durante o ataque ao Capitólio.

Crow lembra-se perfeitamente dos gritos dos agentes de segurança que pediam aos congressistas para permanecerem no chão, enquanto se ouviam portas a ser derrubadas e vidros a ser partidos, à medida que os invasores progrediam nos seus intentos.

"Sei bem o que são disparos de balas. Por isso, rapidamente percebi que alguns dos atacantes estavam armados e disparavam", disse Jason Crow.

"Acho que todos começámos a imaginar um massacre. Foi assustador", disse Peter Welch, outro membro democrata da Câmara de Representantes, eleito pelo estado de Vermont, recordando a tensão vivida durante a invasão do Capitólio.

A congressista democrata Val Demings estava entre os legisladores que se abrigaram na galeria do Capitólio e serviu-se da sua experiência de ter sido chefe do Departamento de Polícia de Orlando, na Florida, para manter a calma e transmitir confiança aos que a acompanhavam.

"Quando ouvi a polícia do Capitólio dizer que o edifício tinha sido 'violado', percebi que, de alguma forma, os agentes tinham perdido o controlo da situação", recorda Demings.

No dia seguinte ao ataque de 06 de janeiro de 2021, vários congressistas criaram um grupo na aplicação de mensagens WhatsApp e começaram a trocar mensagens sobre o acontecimento, recordando os episódios de risco por que tinham passado.

O grupo, intitulado "Grupo da Galeria", tornou-se uma espécie de sessão terapêutica, onde os congressistas de ambos os partidos (democratas e republicanos) se uniram num exercício de troca de experiências e de apoio mútuo, sendo evidentes as marcas deixadas pela violência da invasão do Capitólio.

O congressista republicano Kelly Armstrong, eleito pelo Dakota do Norte, foi um dos que esteve na galeria no início da invasão e tornou-se um dos elementos mais ativos no grupo do WhatsApp, procurando recolher depoimentos sobre os acontecimentos e tentando sossegar aqueles que nessa altura ainda temiam por réplicas do ataque de 06 de janeiro.

Alguns congressistas, nas semanas seguintes, procuraram mesmo ajuda médica especializada, tendo sido diagnosticados com a doença de 'stress' pós-traumático, provocada pela tensão da invasão do Capitólio.

"Mas foi o grupo do WhatsApp que mais me ajudou a superar o trauma do ataque, com as mensagens de apoio que fomos trocando", reconheceu a congressista democrata Norma Torres, eleita pela Califórnia.

Os acontecimentos ocorridos a 06 de janeiro de 2021 ficaram marcados pela morte de cinco pessoas e mais de uma centena de polícias agredidos.

Autoridades ainda procuram centenas de pessoas suspeitas da invasão

Um ano depois do ataque ao Capitólio, sede do Congresso norte-americano, em Washington, as autoridades ainda procuram centenas de pessoas presumivelmente relacionadas com os acontecimentos, com o intuito de as responsabilizar criminalmente.

Cerca de 700 pessoas já foram alvo de acusações criminais e mais de 50 foram condenadas, mas, um ano depois do ataque ocorrido em 06 de janeiro de 2021, as autoridades ainda continuam na busca de muitos outros suspeitos pelos crimes associados à invasão da sede do poder legislativo norte-americano.

Um dos suspeitos mais procurados - que foi visto a fugir pelas ruas de Washington, após ter colocado dois engenhos explosivos junto da sede do Congresso -- ainda não foi identificado e não há sequer ainda uma relação entre os explosivos e a invasão do Capitólio.

Este suspeito está entre as centenas de pessoas que ainda são procuradas pela polícia federal norte-americana (FBI) após a insurreição.

Até agora, 250 pessoas observadas em vídeos a atacar a polícia do Capitólio ainda não foram identificadas pelo FBI e outras 100 estão a ser procuradas por outros crimes ligados ao motim.

Para os agentes do FBI que trabalham nestes casos, o trabalho está longe de terminar: agentes de investigação têm examinado exaustivamente milhares de horas de vídeo de vigilância, segundo a segundo, para tentar obter imagens nítidas de pessoas que atacaram agentes de segurança dentro do Capitólio.

"Esta investigação leva tempo porque é muito trabalhosa, muito árdua", disse Steven D'Antuono, o diretor responsável pelo gabinete do FBI em Washington.

"Os ataques contra os polícias são extremamente graves", disse D'Antuono, referindo-se aos mais de 100 agentes que foram atacados por manifestantes no dia 06 de janeiro de 2021.

Num vídeo analisado pelo FBI, um homem é visto a golpear repetidamente um polícia na cabeça com uma vara de metal, enquanto tenta abrir caminho para o Capitólio; um outro vídeo revela um homem a usar um produto químico, a partir de uma lata, atirando-o contra o rosto de polícias.

"Acabaremos por conseguir identificar estas pessoas", promete D'Antuono.

Na procura pela pessoa que deixou os explosivos junto do Capitólio, os investigadores já entrevistaram mais de 900 pessoas, coligiram 39.000 arquivos de vídeo e examinaram mais de 400 pistas.

"Temos usado e continuamos a usar todas as ferramentas de investigação legais para encontrar essa pessoa", disse D'Antuono.

Mas, um ano depois, os investigadores ainda não sabem se o suspeito é um homem ou uma mulher e ainda não é claro se os explosivos estavam ligados ao planeamento da invasão do Capitólio.

A 06 de janeiro de 2021, milhares de pessoas cercaram e várias centenas forçaram a entrada no Capitólio, quando os congressistas estavam a certificar o resultado das eleições presidenciais de novembro de 2020 e a vitória do atual Presidente, o democrata Joe Biden.

A invasão da sede do Congresso norte-americano aconteceu algumas horas depois do ainda Presidente Donald Trump (republicano) se ter dirigido a uma multidão composta por milhares de apoiantes, durante um comício realizado nas imediações da Casa Branca, e de ter defendido que estes nunca deveriam aceitar uma derrota, numa referência aos resultados das presidenciais de novembro de 2020.

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