Canoa esculpida de Mateus salva moçambicanos de inundações

A tempestade que atingiu o centro de Moçambique no sábado foi apenas a mais recente provação para os habitantes que neste mês têm sofrido com cheias constantes.

Com uma canoa esculpida à mão e com remos improvisados, Mateus Paulo desbrava um mato esfolado pela corrente das águas do rio Búzi, que galgou aldeias e campos agrícolas, para encontrar mais sobreviventes.

O ciclone Eloise, no sábado, foi a mais recente provação para os habitantes que neste mês têm sofrido com cheias constantes.

Sem ajuda de barcos a motor ou mergulhadores, o jovem pescador arrisca o salvamento até ao anoitecer, conta, ao mesmo tempo que consegue salvar mais duas pessoas em Guendje, aldeia do interior de Estaquinha, distrito de Búzi, centro de Moçambique.

"Com as canoas, procuramos pessoas", diz à Lusa o pescador de 28 anos, ao frisar que a maioria dos residentes que resgatou estavam no cimo de árvores e coberturas de casas danificadas pela corrente.

Alguns já lá estavam há "um dia, outros dois dias e muitos já tinham medo, porque partilhavam a mesma árvore com cobras" que tentavam também sobreviver às inundações, acrescenta. O silêncio da navegação das canoas ajuda a ouvir gritos de socorro que surgem de vários lados das aldeias junto ao rio, mas Mateus Paulo luta também contra a fome e a fadiga.

Desde sábado, quando o ciclone Eloise se abateu sobre o centro de Moçambique, Mateus Paulo e outros 14 pescadores saíram em busca de pessoas em situação de risco, em aldeias arrasadas pela água, levando-as para dois centros de acomodação improvisados junto a uma capela em Estaquinha e a um bairro de reassentamento.

Milhares de pessoas tiveram de ser reassentadas há dois anos por causa do ciclone Idai, um dos mais devastadores de sempre do hemisfério sul que só em Moçambique fez 603 mortos.

Depois de reassentadas, ainda em condições precárias, sofrem com um novo ciclone, que provocou nove mortos.

As autoridades distritais de Búzi calculam que ainda haja cinco mil pessoas a precisar de resgate em Guendje, Mussinemwe, Bupira, Janga e Mutanda, as aldeias que ficaram isoladas da sede do posto administrativo de Estaquinha.

O Instituto Nacional de Gestão de Desastres (INGD) alocou nesta semana três embarcações a motor para ajudar nas buscas e no salvamento e na travessia dos que procuram serviços básicos de saúde.

Fernando Guendje, régulo de uma aldeia isolada, explica que o ciclone Eloise provocou destruição severa de habitações e campos agrícolas, deixando em "total desespero" uma população já sem recursos para sobreviver.

"Agora estamos a sofrer, aí não tem escola, não tem hospital, não tem mercado e não há comida. A população está a sofrer porque tudo depende de Estaquinha", diz à Lusa o régulo, enquanto faz de guia pelo rio.

Mais a nordeste de Búzi, Ilda Mussera é uma deslocada de guerra no centro de abrigo de Chibuto. Como se não bastassem os ataques de ex-guerrilheiros, descontentes com o plano de paz para o país, Ilda é também vítima dos desastres naturais.

Em dezembro foi a tempestade Chalane que lhe danificou o abrigo precário, agora o ciclone Eloise destruiu a última tenda que lhe sobrava. Das duas que recebeu das Nações Unidas, uma foi rasgada pela força do vento no final do ano e, desta vez, teve de "cobrir a lona com a ajuda de quatro filhos", porque a cabana de capim tinha sido destruída.

"Fugimos à guerra e estamos aqui, neste acampamento, a sofrer", conta à Lusa a camponesa de 39 anos, que a par dos ciclones diz que a malária e as diarreias têm atormentado a vida dos deslocados.

O régulo local, Golona Eferro, reconhece que "a população está desorientada", após perder as casas e as sementeiras com as intempéries.

"Essa ventania estragou tudo, estragou milho cortado na machamba [horta] e já não temos nada. Hoje ainda estamos a chorar", lamenta, olhando para o duplo sofrimento da sua população.

Jornalista da Lusa

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