Bulgária volta a ir a votos na sombra da corrupção

Eleições de abril terminaram com um parlamento dividido e ninguém capaz de formar governo. Amanhã, eleitores voltam às urnas.

O movimento anticorrupção que saiu para as ruas no ano passado já tinha deixado marcas na popularidade do primeiro-ministro Boyko Borisov, mas nas eleições de 4 de abril o seu conservador GERB ainda foi primeiro. Agora, depois de não ter conseguido formar governo e de ter havido necessidade de nomear um executivo interino, que levantou o véu de tudo o que o Borisov fez de errado, o cenário é ainda pior para o homem que domina a política búlgara há mais de uma década. Há sondagens para as eleições de domingo que o colocam em segundo mas, mesmo se ganhar, dificilmente terá o que é preciso para regressar ao poder.

Depois das eleições de abril, que deixaram um parlamento muito dividido, nenhum dos outros cinco partidos que elegeram deputados (passaram a barreira dos 4%) aceitaram aliar-se com o GERB - mesmo sob a promessa de Borisov não voltar a ser primeiro-ministro. Uma situação que deverá repetir-se depois das eleições de amanhã, ainda para mais depois das revelações feitas nas últimas semanas pelo governo interino do general Stefan Yanev, nomeado pelo presidente Rumen Radev.

"Sempre soubemos que algo estava errado, agora temos a ideia da dimensão do problema", disse Yanev, que além de assumir interinamente o governo tinha prometido fazer um levantamento daquilo que Borisov fez enquanto esteve no poder. Alegou que era uma resposta aos manifestantes, que exigiram nas ruas transparência face aos negócios do governo com os oligarcas - muitos são agora alvo de sanções dos EUA.

O ex-primeiro-ministro denunciou uma "caça às bruxas" da parte de Radev, que há um ano viu o seu gabinete ser alvo de buscas - os seus apoiantes acusaram o executivo de tentar atrasar as investigações à corrupção.

O governo de Yanev já revelou casos de alegada corrupção e de intimidação da parte do executivo de Borisov, assim como o facto de que este usou as agências governamentais para espiar os seus opositores e ativistas políticos ou de má gestão durante a pandemia de covid-19 e o programa de vacinação. Tudo acusações de Borisov rejeita. O relatório da Transparência Internacional, de maio, revela que 56% dos três mil búlgaros ouvidos no ano passado acreditavam que ele estava envolvido em corrupção.

Terceiras eleições?

As denúncias que têm sido feitas têm tido reflexo nas sondagens, com o GERB a cair e a surgir em algumas pesquisas em segundo lugar, atrás do partido Existe Um Tal Povo (ITN, na sigla búlgara), do cantor, apresentador de televisão e humorista Slavi Trifonov. Foi a surpresa das eleições de abril, quando o partido populista (batizado com o nome de um dos álbuns de Trifonov) criado há pouco mais de um ano ficou em segundo lugar.

Mas desde esse resultado, Trifonov tem estado quase em silêncio - alegou numa entrevista já este mês ao Le Monde que não fala com a imprensa búlgara porque esta não é livre - tendo o seu estado de saúde estado a ser questionado. Além de supostamente ter tido covid-19 próximo das eleições de abril, o jornalista do jornal francês disse que estava de muletas e alegou estar com problemas em recuperar de uma fratura. Não aceitou ser fotografado para a entrevista.

O ITN pode ser o favorito, mas Trifonov já disse que não quer ser ele a chefiar o governo. E rejeita qualquer aliança com o GERB ou a Coligação para a Bulgária, liderada pelo Partido Socialista, outros dos partidos tradicionais de governo (foi terceiro em abril, perdendo 37 deputados). Trifonov aposta numa aliança com o Bulgária Democrática (centro-direita) de Hristo Ivanov e o Levantem-se! Fora a Mafia!, que nasceu no rescaldo dos protestos.

Mas as contas podem não ser suficientes e não está de todo afastada a hipótese de os búlgaros terem de voltar pela terceira vez às urnas. "Para termos um governo estável, não podemos pôr de lado uma terceira ou quarta eleição", disse o número dois do ITN.

Quem é quem?

Seis partidos (dois novos) elegeram deputados em abril. O Parlamento muito dividido tornou impossível formar governo. Estes são os nomes a seguir no novo escrutínio.

Boyko Borisov: O ex-guarda-costas de 62 anos já foi primeiro-ministro em três ocasiões (2009-2013, 2014-2017 e 2017-2021). Os dois primeiros mandatos acabaram com a sua demissão, mas Borisov recusou sair no terceiro, em plena onda de protestos anticorrupção em 2020. Líder do conservador GERB, foi primeiro em abril, mas não conseguiu encontrar parceiros para formar governo.

Slavi Trifonov: Cantor, apresentador de TV e humorista de 54 anos, lidera o partido populista anticorrupção Existe Um Tal Povo, que em abril se estreou em segundo. Agora é favorito, mas já disse que não será candidato a liderar o governo. Trifonov rejeita aliar-se ao GERB e aposta numa aliança com a Bulgária Democrática e o pequeno Levantem-se! Fora a Mafia! Mas poderá não bastar.

Hristo Ivanov: O advogado de 46 anos, ex-ministro da Justiça, saltou para a ribalta quando desembarcou numa praia pública que, por ser perto da casa de um político, era tratada como privada, sendo expulso por guarda-costas pagos pelo Estado. Tudo em direto nas redes sociais. Fundou o partido Sim, Bulgária, que faz parte da coligação Bulgária Democrática.

susana.f.salvador@dn.pt

Mais Notícias

Outras Notícias GMG