Brian Deese: "Riscos de fazer pouco ultrapassam em muito os de fazer demasiado"

Brian Deese, que vai ser o principal conselheiro económico do novo presidente dos EUA, garante que a "dignidade económica" da classe média será a prioridade.

Com mais de 25 milhões de norte-americanos desempregados e um recuo económico de 2,4% em 2020, a nova administração da Casa Branca vai mudar significativamente o rumo da política económica dos EUA. Foi isso mesmo que confirmou Brian Deese, próximo diretor do Conselho Económico Nacional, durante uma sessão do evento de tecnologia CES 2021.

"Estamos no meio de uma crise económica e esta é diferente da que tivemos em 2009", afirmou Deese, que há 12 anos foi o conselheiro de Barack Obama responsável pelo resgate da indústria automóvel e ajudou a negociar a entrada no Acordo de Paris para o clima.

"Esta crise teve um impacto desigual em milhões de americanos", descreveu, "e as escolhas que fizermos durante os próximos meses terão enorme impacto neles."

Sendo o principal conselheiro económico de Joe Biden, que toma posse como presidente a 20 de janeiro, Deese terá de enfrentar inúmeros desafios em simultâneo para evitar o aprofundamento da crise. "O presidente-eleito tem a perspetiva de que o que vai ser bom para a economia e a forma de medir saúde económica é verificar se as famílias americanas e a classe média têm dignidade económica", indicou, considerando esta a "estrela" que irá nortear as políticas.

"O foco será mover-nos rapidamente para conter a crise e reconstruir de forma melhorada", salientou o responsável. "Olhando para a minha experiência em 2009, os riscos de fazer pouco ultrapassam em muito os riscos de fazer demasiado", afirmou. Este posicionamento poderá fazer antever um pacote de estímulos mais robusto por parte da administração Biden, agora coadjuvada pelo facto de os democratas terem reconquistado o controlo do Senado.

Em termos de medidas que serão privilegiadas, Deese disse que o foco estará em melhorar a competitividade doméstica das empresas, com investimentos em Investigação & Desenvolvimento, manufatura e áreas associadas. O país regressará ao Acordo de Paris e a administração tentará criar condições para que os grandes investidores desviem os seus recursos para áreas e tecnologias de baixo carbono.

Deese prometeu também algo que o sector tecnológico em particular tem temido: um aumento da regulação.

"Iremos tentar fazer parcerias com o sector privado onde pudermos, mas há áreas em que o presidente-eleito identificou que a arquitetura regulatória não capta as necessidades da economia e por isso vamos trabalhar com o congresso nessas áreas." Agora que os Democratas vão recuperar o controlo do Senado, aprovar legislação neste sentido será mais realista.

O papel das grandes tecnológicas em diversas áreas da sociedade, tais como discurso público, desinformação, privacidade e emprego precário tem sido um dos maiores temas de discussão nos últimos anos.

"As empresas privadas são grandes empregadoras e as tecnológicas, em particular, têm a obrigação de endereçar desafios persistentes que são reais, de que o presidente-eleito falou e com que os consumidores estão preocupados", sublinhou Deese. "Há uma oportunidade e também obrigação de as empresas perceberem o que podem fazer para serem mais conscientes da forma como tratam os seus trabalhadores, o que fazem com os dados e reconhecerem que há partes interessadas, para lá dos acionistas, que são essenciais para a sua operação."

Google, Amazon, Apple e Facebook não só enfrentam o escrutínio do congresso como estão a ser ou poderão ser alvo de processos que as acusam de práticas anticoncorrenciais e de abuso de posição dominante.

Isso não significará, no entanto, guerra a Silicon Valley. "O governo norte-americano poderá desempenhar um papel importante ao investir numa série de áreas de impulso da inovação", disse. "Queremos inovar e fazer as coisas de maneira diferente."

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