Bolsonaro elege o número três, mas desconfia do número dois

Na mesma semana em que um aliado do Planalto foi eleito presidente da Câmara dos Deputados, a terceira figura na linha sucessória, voltam as suspeitas de deslealdade do vice-presidente, Hamilton Mourão, após telefonema misterioso. E o impeachment não sai de cena.

Uma conversa nos últimos dias de janeiro entre um assessor do vice-presidente e o chefe de gabinete de um deputado devolveu às manchetes um tema recorrente durante os dois primeiros anos do atual governo do Brasil. O vice Hamilton Mourão conspira para substituir Jair Bolsonaro na presidência?

"É bom estarmos preparados para começarmos a fazer articulação política", disse Ricardo Morato, assessor do vice-presidente, ao funcionário do parlamento, num diálogo mantido através da aplicação WhatsApp e tornado público pelo site O Antagonista. "A ala militar [do governo] está dividida, o capitão [Bolsonaro] tem errado muito na pandemia, o general [Mourão] é mais preparado e político", concluiu.

A reação de Mourão à divulgação da conversa foi categórica: demitiu Morato e disse-se atingido na sua "honra". "E a minha honra está ligada à lealdade." Os mais cínicos comentadores de Brasília, no entanto, recordaram que Michel Temer, vice-presidente que tomou o lugar da presidente Dilma Rousseff após um doloroso impeachment, dizia mais ou menos a mesma coisa no início do processo.

Será que Mourão quer mesmo o lugar de Bolsonaro?

Com a vitória de Arthur Lira nas eleições para a presidência da Câmara dos Deputados do último dia 1 paira sobre Brasília a ideia de que um processo de impeachment, que levaria à troca de Bolsonaro por Mourão na chefia do Estado, está afastado até às eleições de 2022.

Lira, candidato abençoado pelo Palácio do Planalto, com aval do poder executivo para conquistar os votos dos parlamentares prometendo verbas e cargos estatais, dificilmente desencadearia esse processo - e é ele, e mais ninguém, quem tem a chave da gaveta onde repousam os 62 pedidos de impeachment.

"Eu sou cético em relação ao impeachment depois da vitória de Lira", admite ao DN o cientista político André Kaysel, da Unicamp.

"Mourão age de forma independente, cria conflitos com Bolsonaro, e Bolsonaro com ele, mas um impeachment não acontece se o presidente da Câmara dos Deputados não quiser e esse presidente olha para as sondagens e vê um apoio ao governo ainda na ordem dos 25 a 30 pontos, olha para as ruas e não vê quase ninguém a protestar, até por causa do quadro da pandemia, logo, mesmo Lira pertencendo ao "centrão" [conjunto de partidos assumidamente clientelista], cujo apoio aos governos é sempre pouco sólido, só condicionado apenas a cargos e verbas, sou cético..."

O histórico

Mas há quem não seja cético: Bolsonaro, por exemplo. Thays Oyama, autora do livro Tormenta. O Governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos, escreve no portal UOL que o núcleo duro do presidente "já está à caça de aliados de Mourão", desconfiado, em especial, do trecho do diálogo entre o assessor do vice e o funcionário do deputado em que se fala em "divisões na ala militar".

As suspeitas de Bolsonaro sobre Mourão são tão antigas quanto a aliança eleitoral dos dois. Antes de concordar em ter o general como vice, o capitão sondou o vocalista da banda gospel Tempero do Mundo, o ex-senador Magno Malta, a subscritora do impeachment de Dilma, a hoje deputada estadual Janaína Paschoal, e o herdeiro da família real, o deputado federal Luiz Philippe d"Orléans e Bragança, por exemplo.

No episódio da facada em Juiz de Fora, o então candidato Bolsonaro deu ordens ao filho 3, o deputado Eduardo Bolsonaro, para assumir a campanha de forma a esvaziar o eventual protagonismo de Mourão.

Já depois da eleição, o filho 2 do presidente, o vereador Carlos Bolsonaro, liderou pelas redes sociais uma campanha violenta contra o vice-presidente. Em apenas dois dias de abril de 2019 lançou 17 tweets a chamá-lo "traidor" ou "ambicioso". Numa troca de farpas entre Mourão e Olavo de Carvalho, o astrólogo que serve de mentor da família presidencial, os Bolsonaro ficaram do lado do segundo.

Em contrapartida, na convenção que celebrou os 25 anos do Partido Renovador Trabalhista Brasileiro, o partido de Mourão, uma reportagem do site The Intercept ouviu do general Paulo Assis, que articulou com Bolsonaro a escolha do amigo como vice-presidente, uma sentença inequívoca. "Ele será presidente", disse. "Ele é uma estrela."

Quando Bolsonaro prometeu uma embaixada em Jerusalém a Israel, Mourão reuniu-se com a comunidade árabe; depois de o presidente se congratular com o exílio na Europa de Jean Wyllys, deputado do esquerdista PSOL ameaçado por bolsonaristas, o vice afirmou que o Estado deveria tê-lo protegido.

No entanto, não é o histórico de conflitos que preocupa o Planalto - é a tal alusão à divisão nas hostes militares do governo. Será verdade? Quem são? Como atuam? São as perguntas que atormentam as noites de Bolsonaro no Alvorada. Como 6157 militares, no ativo e na reserva, fazem parte das estruturas do governo, a busca será demorada.

A oposição

Dos 62 pedidos de impeachment na Câmara dos Deputados, a maioria, sem surpresa, é da autoria de partidos de oposição. Ou seja, na prática, a oposição está a pedir para que acabe o governo Bolsonaro e comece um governo (provisório) Mourão. Porquê?

O general, como o capitão, também já elogiou o torturador da ditadura Brilhante Ustra, proferiu frases consideradas racistas, namorou com a ideia de intervenção militar, entre outros momentos capazes de deixar os cabelos de qualquer esquerdista em pé.

O desastre na condução da pandemia é um dos motivos - o atual chefe de Estado desdenhou da doença, desvalorizou as mortes de 220 mil compatriotas, boicotou as medidas de proteção, dificultou a aquisição de vacinas, desmontou o Ministério da Saúde.

Ouvido pela revista Época, o vice-presidente nacional do Partido dos Trabalhadores resume: "O Mourão é tão ou mais conservador do que Bolsonaro mas não tem o mesmo grau de loucura", disse Alberto Cantalice.

Randolfe Rodrigues, do Rede, a força política criada em torno da ambientalista Marina Silva, lembra que "Bolsonaro rasgou todo o leque de crimes de responsabilidade previstos na Constituição, nunca houve tantas razões para um impeachment". "Com Mourão", completa, "seria possível um governo de união nacional."

No país onde Café Filho assumiu a presidência após o suicídio de Getúlio Vargas, nos anos 1950, João Goulart herdou o cargo após a renúncia de Jânio Quadros nos anos 1960, José Sarney substituiu Tancredo Neves, falecido entre a eleição e a posse, nos anos 1980, Itamar Franco sucedeu a Collor de Mello, nos anos 1990, e Temer a Dilma, na década passada, ambos após processos de impeachment, o papel dos "vices" é lendário.

Como seria então um eventual governo Mourão? "Seria conservador e com forte presença militar, claro, provavelmente com um ministro da Economia como o atual, Paulo Guedes, ou até o próprio Paulo Guedes, isto é, alguém liberal, teria uma quota de evangélicos mas não os discípulos do ultraconservador Olavo de Carvalho, como o ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo", projeta André Kaysel.

Para o cientista político, "o tom seria autoritário, também, mas mais racional e disposto a acordos com as elites políticas e económicas do país em torno de uma suposta estabilidade".

"Seria capaz de ouvir quem pensa diferente, como mostrou em alguns momentos no comando do Conselho da Amazónia", diz, por sua vez, Matheus Leitão, em artigo na revista Veja em que faz o mesmo exercício. "Seria mais apaziguador e mais focado em resolver os problemas do que em arranjar confusão, não se imagina Mourão adotando uma posição antivacina, por exemplo."

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