Bolsonaro declara guerra à China, maior cliente do Brasil

Presidente do Brasil acusou China, principal parceiro comercial e vital para colocar à disposição matérias-primas para fabricar vacinas no país, de fazer "guerra química". "Grave doença mental", contrapõe deputado encarregado das relações sino-brasileiras

"Penso que estamos diante de um caso em que se recomenda a interdição civil para tratamento médico", disse Fausto Pinato, deputado do Partido Progressista (PP), sobre Jair Bolsonaro. O parlamentar, que também é líder da Frente Brasil-China no Congresso Nacional, referia-se ao último ataque do presidente da República ao gigante asiático que é não apenas o principal importador de commodities brasileiras como também o maior exportador de matérias-primas essenciais para a produção de vacinas contra a covid-19 em laboratórios brasileiros.

"Estou preocupado sobre um possível desvio de personalidade da maior autoridade do Brasil", continuou Pinato, cujo partido se divide entre apoiantes e críticos do presidente. "A meu ver, não se trata de uma pessoa irresponsável, desequilibrada e sem noção de mundo, na verdade pode tratar-se de uma grave doença mental que faz o nosso presidente confundir realidade com ficção".

As declarações de Bolsonaro a que Pinato se referia, em comunicado oficial da Frente Parlamentar Brasil-China, foram proferidas em simultâneo à audição de testemunhas na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que apura a responsabilidade do governo no caótico combate à pandemia.

"É um vírus novo", começou por dizer o presidente em discurso no Palácio do Planalto. "Ninguém sabe se nasceu em laboratório ou por algum ser humano que ingeriu um animal inadequado. Mas está aí. Os militares sabem o que é guerra química, bacteriológica, radiológica. Será que não estamos enfrentando uma nova guerra?". E concluiu: "Qual o país cujo PIB mais cresce? Não vou dizer para vocês", omitindo-se de citar a China.

Em janeiro, o governo de Xi Jinping anunciou crescimento do PIB de 2,3% em 2020, um dos maiores do mundo, mas ainda assim o menor do país em 40 anos. Sobre a eventual criação do novo coronavírus em laboratório, a posição oficial da Organização Mundial de Saúde é que é "extremamente improvável".

Além da reação enérgica de Pinato, a imprensa brasileira atribuiu o ataque de Bolsonaro à tentativa de desviar atenções da CPI, onde à mesma hora o segundo ministro da Saúde do seu governo, Nelson Teich, revelava ter-se demitido em maio do ano passado por discordar da imposição do uso de cloroquina, remédio sem eficácia para a covid-19. Na véspera, o seu antecessor no cargo, Luiz Henrique Mandetta, acusou o presidente de desprezar a ciência e revelou que o governo pretendia acrescentar à bula da cloroquina que era indicada contra o novo coronavírus.

As provocações do governo brasileiro ao homólogo chinês, no entanto, não se limitam a esta semana. Na anterior, o titular da economia, Paulo Guedes, havia afirmado que "a China criou o vírus", o que levou a um telefonema de urgência do ministro das Relações Exteriores, Carlos França, ao embaixador chinês em Brasília, Yang Wanming, para resolver o mal-entendido.

Além da China ser o destino de quase 30% das exportações do Brasil [ver número], a produção de vacinas na Fundação Oswaldo Cruz, principal laboratório do Brasil, depende da importação de matérias primas da China - o laboratório pediu ajuda à área internacional do governo de Bolsonaro para desbloquear a aquisição desses insumos depois de o Escritório de Vacinas do Governo da China exigir uma manifestação do governo brasileiro nesse sentido.

Histórico de ataques

Os ataques remontam, no entanto, a março de 2020, quando o deputado Eduardo Bolsonaro comparou a pandemia com o desastre de Chernobyl, documentado em série de TV. "Quem assistiu Chernobyl vai entender o que ocorreu. Substitua a usina nuclear pelo coronavírus e a ditadura soviética pela chinesa. Mais uma vez uma ditadura preferiu esconder algo grave a expor tendo desgaste, mas que salvaria inúmeras vidas. A culpa é da China [pela crise da Covid-19] e liberdade seria a solução", escreveu no Twitter o terceiro filho do presidente [ver frases].

O embaixador Yang respondeu no mesmo tom. "As suas palavras são extremamente irresponsáveis e soam-nos familiares. Não deixam de ser uma imitação dos seus queridos amigos. Ao voltar de Miami, contraiu, infelizmente, vírus mental, que está infectando a amizade entre os nossos povos".

Mas, seis meses depois, o mesmo Eduardo Bolsonaro informou que "o governo Jair Bolsonaro declarou apoio à aliança Clean Network, lançada pelo governo Donald Trump, criando uma aliança global para um 5G seguro, sem espionagem da China". Trump seria derrotado por Joe Biden na corrida à Casa Branca dias depois.

"O programa ao qual o Brasil aderiu, pretende proteger os seus participantes de invasões e violações às informações particulares de cidadãos e empresas. Isso ocorre com repúdio a entidades classificadas como agressivas e inimigas da liberdade, a exemplo do Partido Comunista Chinês", concluía o 03, como é chamado pelo pai.

Abraham Weintraub, ministro da Educação entretanto demitido, usou a personagem de livros infantis brasileiros Cebolinha, que troca os "rr" pelos "ll", como supostamente os cidadãos asiáticos, para outro ataque. "Geopoliticamente, quem podeLá saiL foLtalecido, em teLmos Lelativos, dessa cLise mundial?", perguntou nas redes sociais.

Ainda nesse mês, o então ministro das relações exteriores, Ernesto Araújo, chamou o covid-19 de "comunavírus" no seu blogue. Segundo o diplomata, que será ouvido na CPI por poder ser responsável pelo atraso na aquisição de vacinas, o medo causado pela nova doença "faz-nos despertar novamente para o pesadelo comunista", projeto que "já vinha se executando no climatismo ou alarmismo climático, na ideologia de género, no dogmatismo politicamente correto, no imigracionismo, no racialismo, no antinacionalismo, no cientificismo".

Coronavac

Mas a maior fatia dos ataques à China partiu do próprio Bolsonaro, a propósito da aquisição, por decisão do governo de São Paulo, liderado pelo seu rival político João Doria (PSDB), da vacina chinesa Coronavac. Após ter afirmado que também compraria essa vacina, o então ministro da saúde Eduardo Pazuello acabou desautorizado pelo presidente da República em público.

"NÃO SERÁ COMPRADA", escreveu Bolsonaro em letras maiúsculas nas suas redes sociais, a 21 de outubro. "Qualquer vacina, antes de ser disponibilizada à população, deverá ser COMPROVADA CIENTIFICAMENTE PELO MINISTÉRIO DA SAÚDE e CERTIFICADA" e que "o povo brasileiro NÃO SERÁ COBAIA DE NINGUÉM".

Menos de 24 horas depois, reforçou, em entrevista à rádio Jovem Pan: "A [vacina] da China nós não compraremos, é decisão minha. Eu não acredito que ela transmita segurança suficiente para a população (...) já existe um descrédito muito grande por parte da população, até porque, como muitos dizem, esse vírus teria nascido por lá".

No mês seguinte, celebrou a morte de um voluntário nos testes da Coronavac (sem relação com a utilização da vacina). "Morte, invalidez, anomalia. Esta é a vacina que o Doria queria obrigar todos os paulistanos a tomá-la. O presidente [Bolsonaro] disse que a vacina jamais poderia ser obrigatória. Mais uma que Jair Bolsonaro ganha".

Hoje a Coronavac é responsável pela vacinação de oito em cada dez brasileiros.

Retaliações

Roberto Abdenur, que atuou como embaixador em Pequim (1989 a 1993) e nos Estados Unidos (2004 a 2006), alertou para os perigos de uma atitude hostil contra a China.

"O Brasil está metendo os pés pelas mãos de maneira desarrazoada e contraproducente (...) ameaçando causar danos graves aos interesses do Brasil com a China", disse em entrevista à BBC Brasil no auge das provocações.

Abdenur alertou que o governo de Xi Jinping adotou em 2020 retaliações económicas contra outro importante parceiro comercial, a Austrália, em reação a críticas de autoridades australianas que pediam uma investigação internacional sobre a origem do coronavírus.

NÚMERO

28,1%

De tudo o que Brasil exporta, a maior percentagem é para a China, seguida dos EUA, com 13%, num total de 63 mil milhões de dólares ao ano. Soja, minérios de ferro e carne estão entre os produtos brasileiros mais consumidos no gigante asiático

Fonte: Abracomex, Associação Brasileira de Consultoria e Assessoria em Comércio Exterior

FRASES

"Quem assistiu Chernobyl vai entender o que ocorreu. Substitua a usina nuclear pelo coronavírus e a ditadura soviética pela chinesa. Mais uma vez uma ditadura preferiu esconder algo grave a expor tendo desgaste, mas que salvaria inúmeras vidas. A culpa é da China [pela crise da Covid-19] e liberdade seria a solução"

Eduardo Bolsonaro, deputado, março de 2020

"Geopoliticamente, quem podeLá saiL foLtalecido, em teLmos Lelativos, dessa cLise mundial?"

Abraham Weintraub, ex-ministro da saúde, abril de 2020

"A [vacina] da China nós não compraremos, é decisão minha. Eu não acredito que ela transmita segurança suficiente para a população (...) já existe um descrédito muito grande por parte da população, até porque, como muitos dizem, esse vírus teria nascido por lá".

Jair Bolsonaro, outubro de 2020

[ao celebrar a morte de um voluntário nos testes da chinesa Coronavac] "Morte, invalidez, anomalia. Esta é a vacina que o Doria queria obrigar todos os paulistanos a tomá-la. O presidente [Bolsonaro] disse que a vacina jamais poderia ser obrigatória. Mais uma que Jair Bolsonaro ganha".

Jair Bolsonaro, novembro de 2020

"A China criou o vírus (...) mas a vacina americana é mais eficaz"

Paulo Guedes, ministro da economia, abril de 2021

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