Bolsocaro. Campanhas anónimas nas ruas e internet animam esquerda

Cartazes espalhados por São Paulo denunciam aumento de itens alimentares básicos e sugerem nova alcunha ao presidente. Vídeo fala em "custo Bolsonaro" para a economia. Comparações com os preços na Era Lula elevam popularidade digital do ex-sindicalista

São Paulo acordou no último domingo com centenas de cartazes autocolantes, aparentemente anunciando promoções de supermercado, tendo em conta o uso do amarelo, preto e encarnado comuns a esse tipo de publicidade no Brasil, espalhados por 20 pontos da cidade. Mas as aparências iludem: em vez de preços em baixa, o destaque são preços em alta e, no lugar, dos tradicionais "aproveite já" ou "pague um, leve dois", foram escolhidos slogans como "'tá muito caro", "essa conta não é nossa, põe na conta do Bolsonaro". E, acima de todos as outras palavras de ordem, uma persuasiva sugestão de nova alcunha para o presidente da República: "Bolsocaro".

A esquerda, desde logo, animou-se com a "Campanha Bolsocaro": "Nosso povo está abandonado à própria sorte. A prioridade do governo é proteger os muito ricos do país e o arrocho é sempre no bolso dos trabalhadores. Este é o Brasil de Bolsonaro! #bolsocaro", escreveu Ciro Gomes (do PDT, de centro-esquerda), pré-candidato, pela quarta vez na carreira política, à presidência do Brasil, no seu perfil no Twitter.

"Avenida Paulista #Bolsocaro", observou, de forma económica, o também provável candidato à presidência pela segunda vez seguida Guilherme Boulos (do esquerdista PSOL).

Os deputados federais Ivan Valente e Sâmia Bonfim (ambos também do PSOL), a candidata a vice-presidente de Fernando Haddad em 2018 Manuela d'Ávila (do comunista PCdoB) ou o deputado federal Zeca Dirceu (do PT), filho de José Dirceu, ex-braço-direito de Lula, foram outros políticos profissionais que replicaram a imagem, exaltando a ideia dos cartazes com o mesmo entusiasmo com que criticaram a politica económica do governo.

A campanha publicitária (aliás, a propaganda política) chegou até aos jornais, como o Folha de S. Paulo, e aos portais de notícias, como o UOL.

Com tanto e tão rápido sucesso, seria de esperar que os autores, um grupo de jovens designers, reivindicasse orgulhosamente a autoria do projeto. Pelo contrário: os autores do "Bolsocaro" optaram pelo anonimato, o que aumentou o interesse no tema, temendo represálias.

Em conversa com a coluna de Chico Alves, articulista do UOL, um designer disse que, por um lado, continuando sem assinatura a campanha pode manter-se independente, e, por outro, o mais importante, preserva a segurança do grupo - o criativo contou que ele e o seu pequeno grupo de amigos e ativistas já sofreram ataques dentro e fora das redes de apoiantes do presidente.

"Entretanto, convidamos todos os que gostariam de ver essa mensagem no seu bairro, na sua cidade, a baixar os cartazes e colar onde estiver a seu alcance", solicitou, congratulando-se por terem já "recebido muitos pedidos".

"Nós inspiramo-nos noutras artes feitas nas redes mas era preciso ir para fora da internet e tentar, de alguma forma, uma abordagem direta e popular", explicou. "E num país tão desigual, é na alta inaceitável dos preços dos alimentos que a grande maioria das pessoas pode sentir o fracasso total desse governo".

Se a "campanha Bolsocaro" faz sucesso nas ruas, um vídeo sob o título "quanto custa Bolsonaro", onde se mede o impacto do governo na gestão da pandemia, se sublinha a desvalorização do real, se avalia as perdas com o intervenção presidencial na Petrobras, entre outros fracassos do presidente, invadiu a internet.

Também esta campanha não tem autor definido e também ela foi partilhada por atores políticos de esquerda - e de centro-direita neste caso.

Em paralelo, o presidente da República perdeu popularidade nas redes e viu Lula aproximar-se, segundo o ranking do Índice de Popularidade Digital elaborado pela consultora Quaest, tendo em conta o desempenho nas plataformas Facebook, Twitter, Instagram, YouTube, Google e Wikipedia.

"O que causou isso? Comparação entre os preços na Era Lula e agora", avalia o pesquisador da Universidade de Minas Gerais Felipe Nunes, no jornal ​​​​​​Folha de S. Paulo.

De acordo com a revista Exame, o preço de itens básicos, como feijão e o arroz, subiu 23,1% e 21,1% no acumulado do ano de 2020. "O leite e óleo de soja não ficam atrás: o preço médio dos itens aumentou 21,62% e 9,62%, respetivamente, no mesmo período".

Citada na revista, a Associação Paulista de Supermercados atribui a disparada de preços ao aumento das exportações do arroz e feijão e suas matérias-primas, à diminuição das importações dos itens e à valorização do dólar frente ao real.

O Instituto de Pesquisa Económica Aplicada, fundação pública veiculada ao Ministério da Economia, informa que nos últimos 12 meses o preço do grupo alimentação e bebidas acumulou alta de 14,81% e o dos combustíveis 4,45%.

E, pressionado pelos alimentos, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo deve encerrar o ano em 3,7%, aumento superior aos 3,5% previstos anteriormente e acima do centro da meta de inflação para 2021.

Esses números estão na ponta da língua dos anónimos autores da propaganda espalhada por São Paulo que, para a realizar, garante o membro do grupo citado, fizeram intensa pesquisa de campo pelas prateleiras da maior cidade do Brasil.

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