Biden vê sucesso na retirada e promete vingar-se do Estado Islâmico

Num discurso à nação, o presidente reiterou justeza da decisão do fim da guerra e lembrou desafios mais importantes. Virar a página com resultados económicos é essencial para a estratégia da Casa Branca.

Ao dar cumprimento a um acordo assinado pelos talibãs e pela administração Trump, o presidente dos Estados Unidos cumpriu também a sua promessa de acabar a mais longa guerra dos Estados Unidos, mas a forma como decorreu - simbolizado pelo atentado suicida no aeroporto que matou cerca de 180 pessoas - deixou uma imagem de fracasso e improviso, com consequências por contabilizar no terreno (milhares de afegãos e centenas de ocidentais por retirar), com os aliados e, sobretudo no cálculo político a médio prazo, junto dos norte-americanos.

A oposição republicana cavalgou a onda e até Donald Trump foi igual a si próprio ao alegar que Washington teria deixado para trás material militar no valor de 85 mil milhões de dólares (83 mil milhões foi o valor de todo o programa de assistência militar e de segurança dos EUA no Afeganistão em 20 anos). Os democratas juntaram-se ao coro de críticas aprovando uma investigação no Congresso sobre o que aconteceu nos últimos meses.

O líder da minoria da Câmara dos Representantes, Kevin McCarthy, disse que a data de retirada fixada por Biden foi concebida para uma operação fotográfica. "Houve um momento em que, se este presidente tivesse ouvido os seus militares, ainda haveria prisioneiros terroristas dentro de [a base de] Bagram, estaríamos a retirar todos os norte-americanos, os militares não teriam saído antes dos americanos", censurou. "Todas as crises que Biden enfrentou até agora nesta administração falharam", concluiu McCarthy.

"Extraordinário sucesso"

Fragilizado pelos acontecimentos em Cabul nos últimos dias, Joe Biden, que na véspera enviara uma mensagem escrita a agradecer aos militares, deu a cara e dirigiu-se aos concidadãos num discurso televisivo na Casa Branca. Depois de voltar a agradecer aos operacionais da missão que tirou mais de 120 mil pessoas de Cabul numa ponte aérea e aos "13 heróis que deram as suas vidas" no atentado terrorista, Biden tentou passar uma imagem positiva dos acontecimentos, ao declarar um "extraordinário sucesso" da "missão de misericórdia", sem precedentes na história.

"O extraordinário sucesso desta missão deveu-se à incrível capacidade, bravura e coragem altruísta dos militares dos Estados Unidos e dos nossos diplomatas e profissionais dos serviços secretos", disse. Biden destacou que 90% dos norte-americanos que queriam partir fizeram-no, tendo sido retirados cerca de 5500 cidadãos. Sobre quem mais queira sair do país, Biden lembrou que os talibãs comprometeram-se publicamente "a transmitir na televisão e na rádio através do Afeganistão" passagem segura para qualquer pessoa que queira partir, incluindo aqueles que trabalharam ao lado dos americanos. "Não acreditamos neles apenas pela sua palavra, mas pelas suas ações. E temos influência para garantir que esses compromissos sejam cumpridos", assegurou.

Biden argumentou que a decisão tomada foi a melhor para os Estados Unidos. Disse que não há necessidade de manter "botas no terreno", muito menos de continuar a gastar dinheiro numa guerra que iria entrar na terceira década e que já custou dois biliões de dólares. "Eu não ia prolongar uma guerra eterna. E eu não ia prolongar uma saída para sempre", afirmou.

Apesar de ficar privado de uma base na região, Biden prometeu dar luta ao ramo do Estado Islâmico no Afeganistão. "Ao ISIS-K, ainda não terminámos", tendo prometido uma "estratégia dura, implacável, direcionada e precisa" para responder ao ataque terrorista da semana passada. "A ameaça do terrorismo continua, mas mudou. A nossa estratégia também precisa de mudar."

O presidente voltou a apontar para desafios mais essenciais dos EUA, como a China, a Rússia, e os ciberataques. Sobre aqueles dois países referiu que não há nada que "preferissem e quisessem mais nesta competição do que os Estados Unidos ficarem atolados mais uma década no Afeganistão".

Porém, a gestão unilateral da retirada do Afeganistão deixará a sua marca nos aliados internacionais, quando a chegada de Biden à Casa Branca tinha sido motivo de elogios. "Não somos ilhas. As decisões dos nossos aliados têm consequências para os seus aliados", disse Constanze Stelzenmüller, especialista em assuntos alemães ao Washington Post. Armin Laschet, o candidato conservador a suceder a Angela Merkel como chanceler da Alemanha, chamou ao sucedido o "maior desastre que a NATO sofreu desde a sua fundação".

Os democratas, com uma maioria magra na Câmara dos Representantes, tem "uma janela limitada" para passar as suas principais reformas antes das eleições intercalares, na qual é costume "o partido do presidente perder terreno", aponta David Karol da Universidade de Maryland à AFP. Depois de Biden ter conseguido reunir apoios da oposição republicana para o pacote de infraestruturas, terá agora de unir o campo democrata em torno dos seus gastos sociais e esperar a conjugação da continuidade da recuperação económica e da melhoria relativa à pandemia.

Resta saber como os eleitores irão digerir o sucedido. Uma sondagem da Associated Press-NORC no início de agosto ia ao encontro das ideias do presidente democrata, com seis em cada 10 norte-americanos a concordarem que não fazia sentido a guerra no Afeganistão. No entanto, depois do atentado terrorista no aeroporto de Cabul, uma sondagem da ABC News revela que também seis em cada 10 norte-americanos desaprovam a forma como Biden lidou com o dossiê afegão.

Talibãs festejam e apelam ao investimento estrangeiro

Enquanto ecoavam tiros de celebração um pouco por toda a Cabul, coroando a vitória do grupo islamista radical após o último voo militar dos EUA ter deixado o país, os talibãs assumiram o controlo do aeroporto na terça-feira. Os dirigentes talibãs não perderam a oportunidade e realizaram uma conferência de imprensa para adoçar a sua imagem, não tendo faltado apelos ao investimento estrangeiro, bem como à moderação no tratamento da população local.

"Parabéns ao Afeganistão. Esta vitória pertence-nos a todos", disse o porta-voz dos talibãs aos jornalistas na pista do aeroporto. Zabihullah Mujahid afirmou que a vitória dos talibãs foi uma "lição para outros invasores". O porta-voz apelou ao investimento internacional e à unidade nacional.

"Convido-vos a todos a virem investir no Afeganistão. Os vossos investimentos estarão em boas mãos. O país será estável e seguro", afiançou, antes de ter dito que, após anos de guerra e invasão, "o povo não tem mais tolerância" para mais violência. E nesse convite os talibãs incluíram os norte-americanos. "Queremos ter boas relações com os EUA e o mundo. Saudamos as boas relações diplomáticas com todos eles."

Na pista onde mais de 120 mil pessoas fugiram da provável opressão islamista, o porta-voz dos fundamentalistas repetiu a ideia de que o regime não será como o de 1996 a 2001, conhecido pela brutalidade com que aplicou a lei islâmica e perseguiu minorias. Mujahid advertiu os seus combatentes, agora transformados em forças de segurança, para terem cuidado com a maneira como tratavam a população local, de forma "suave e simpática". Mas o assassínio, na sexta-feira, do cantor Fawad Andarabi pelos talibãs, depois de terem decretado a proibição da música, é um aviso para o que aí vem.

A atenção está virada para a forma como os talibãs lidam com o papel de autoridade, e em especial sobre a promessa de que iriam deixar partir quem queira, estrangeiros incluídos, acatando ao mesmo tempo a resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovada segunda-feira nesse sentido.

Um número indeterminado de afegãos, na casa dos milhares, os quais trabalharam para o governo apoiado pelo Ocidente, teme represálias e quer sair. Já a Alemanha situa em 40 mil o número de cidadãos e familiares que trabalharam com agências e organizações alemãs e que poderão ser expatriados. O secretário de Estado Antony Blinken disse que um pequeno número de cidadãos norte-americanos permaneceu no país, "menos de 200", Londres informou que o número de cidadãos britânicos no país se situava em "baixas centenas" e Paris afirmou que há dezenas de cidadãos franceses na mesma situação.

Na terça-feira, o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, afirmou ser essencial manter o aeroporto aberto, "tanto para permitir a ajuda humanitária ao povo afegão como para garantir que podemos continuar a tirar as pessoas de lá". Estão em curso conversações sobre quem irá agora gerir o aeroporto de Cabul, de "importância vital", segundo palavras"da chanceler alemã Angela Merkel. O Qatar e a Turquia fazem parte da possível solução.

cesar.avo@dn.pt

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