Biden reconhece "genocídio arménio". Turquia já respondeu

Apesar de anos de pressão da comunidade arménia nos Estados Unidos, nenhum Presidente norte-americano ousou irritar Ancara, um aliado histórico de Washington e membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO).

Numa declaração para comemorar o 106º aniversário do início daquele massacre, que ocorre este sábado, Joe Biden tornou-se no primeiro presidente dos EUA, a reconhecer formalmente o que aconteceu como genocídio, algo que seus antecessores evitaram para não colocar em causa a aliança com Ancara.

"O povo americano homenageia todos os arménios que morreram no genocídio que começou há 106 anos", disse Biden na sua declaração.

O presidente usou a palavra "genocídio" duas vezes no comunicado, cumprindo assim uma das suas promessas eleitorais.

Em 2019, tanto o Senado dos EUA quanto a Câmara dos Deputados aprovaram medidas que descrevem o massacre de 1915 como "genocídio", apesar das advertências do governo turco de que isso prejudicaria seriamente as relações bilaterais.

Biden explicou que a sua intenção era "homenagear" a memória e a "dor" dos imigrantes arménios que vieram para os Estados Unidos após o massacre, e os seus descendentes, que nunca esqueceram aquela "história trágica".

"Não estamos a fazer isto para culpar, mas para garantir que o que aconteceu nunca mais se repete", frisou.

O presidente dos Estados Unidos destacou que o respeito pelos direitos humanos é uma de suas prioridades, além de construir "um mundo não contaminado pelos males diários da intolerância".

Até agora, nenhum presidente dos EUA em exercício apelidou oficialmente o massacre de genocídio, embora Ronald Reagan (1981-1989) já tenha usado essa palavra para se referir ao massacre arménio numa proclamação sobre o Holocausto nazista.

O dia 24 de abril marca o início dos massacres de arménios pelo Império Otomano, em 1915.

A Turquia recusa o termo "genocídio" e rejeita qualquer sugestão de extermínio, citando massacres recíprocos num cenário de guerra civil e fome que provocou centenas de milhares de mortes em ambos os lados.

Apesar de anos de pressão da comunidade arménia nos Estados Unidos, nenhum presidente norte-americano ousou irritar Ancara, um aliado histórico de Washington e membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO).

O presidente turco Tayyip Erdogan já reagiu à declaração de Joe Biden.

Erdogan denuncia a "politização por terceiros" do debate sobre a questão do genocídio arménio e adianta que a Turquia não recebe lições de ninguém sobre a sua história.

Joe Biden e Recep Tayyip Erdogan concordaram reunir-se em junho, paralelamente à cimeira da NATO, em Bruxelas.

Enquanto a conversa entre os dois líderes foi anunciada, na capital da Arménia cerca de 10.000 pessoas marcharam para assinalar o massacre de arménios durante a I Guerra Mundial.

A multidão, carregando tochas, marchou do centro de Erevan até ao memorial dedicado às vítimas, com alguns manifestantes a entoarem canções patrióticas enquanto outros tocaram tambores, relataram jornalistas da agência France Presse no local.

Três dezenas de países, incluindo Portugal, e muitos historiadores classificam o massacre como um genocídio, termo rejeitado com firmeza pela Turquia.

Turquia "não tem nenhuma lição a receber de ninguém sobre a sua história" - ministro

O ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Mevlut Cavusoglu, afirmou este sábado que a Turquia "não tem nenhuma lição a receber de ninguém sobre a sua história", numa reação ao reconhecimento por parte dos Estados Unidos do genocídio arménio.

O Presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Joe Biden, descreveu hoje o massacre de 1,5 milhões de arménios pelo Império Otomano, em 1915, como "um genocídio", num gesto que pode aumentar a tensão com a Turquia.

"As palavras não podem mudar ou reescrever a história", prosseguiu o ministro turco, numa mensagem escrita na rede social Twitter.

"Não aceitamos lições de ninguém sobre a nossa história", sublinhou o governante, que apontou que o "oportunismo político é a maior traição à paz e à justiça".

E rematou: "Rejeitamos completamente esta declaração com base apenas no populismo".

Logo depois, o ministério dos Negócios Estrangeiros turco publicou na sua página de Internet um comunicado a "rejeitar e denunciar de forma mais categórica" o comunicado de Biden, "feita sob pressão de círculos arménios radicais e grupos anti-turcos".

O comunicado "não tem base académica ou jurídica, nem é sustentado por qualquer prova. Os acontecimentos de 1915 não cumprem nenhuma das condições para utilizar o termo 'genocídio', definido de forma precisa pelo direito internacional", refere o ministério dos Negócios Estrangeiros turco.

"Pedimos ao Presidente dos Estados Unidos que corrija este grave erro, que não serve nenhum fim, a não ser para satisfazer alguns círculos políticos", acrescenta.

Por sua vez, o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan acusou "terceiros" de interferir nos assuntos da Turquia.

"Ninguém está a aproveitar o facto de que os debates - que deveriam ser realizados por historiadores - são politizados por terceiros e tornam-se um instrumento de interferência no nosso país", disse o Presidente turco numa mensagem ao patriarca arménio em Istambul.

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