Biden-Putin. Diálogo construtivo mas sem cedências à espera de resultados concretos

O esperado frente-a-frente entre os presidentes dos EUA e da Rússia durou cerca de três horas e serviu para mostrar que nenhum deles parece disposto a ceder, mas que ambos estão preparados para avançar em algumas áreas que garantam a "estabilidade estratégica".

Foram cerca de três horas de diálogo "construtivo" em que ambos mostraram "vontade de se entenderem", disse o presidente russo, Vladimir Putin após o encontro com o homólogo norte-americano, em Genebra. "Não há substituto para diálogo frente a frente", defendeu Joe Biden, explicando que houve um "tom positivo" na conversa e lembrando que a sua agenda "não é contra a Rússia" mas é "pelo povo americano". Na cimeira de baixas expectativas, os resultados concretos foram poucos, tendo ambos os líderes tido oportunidade de mostrar o que defendem e ficado a saber com o que podem contar, à espera de resultados futuros.

Em conferências de imprensa separadas, Putin e Biden deram a sua versão do que se passou à porta fechada, com o presidente russo a tecer elogios ao norte-americano. "O presidente Biden é um experiente estadista", disse, afirmando mais à frente que "ele é muito diferente do presidente [Donald] Trump". Em resposta aos jornalistas, reiterou que o democrata é uma pessoa "construtiva, um político experiente". Já Biden, que há dez anos disse que olhou nos olhos de Putin e não viu uma alma, recusou responder à pergunta sobre se tinha reconsiderado essa posição.

Ambos os líderes deixaram claro que não está em causa uma relação de amizade e que cada um representa os interesses do seu país. "Isto não é sobre confiança. É sobre interesse próprio e verificação de interesse próprio", disse Biden. Já Putin lembrou que ambos representam os interesses dos seus países: "Não partilhamos as mesmas posições em muitas áreas, mas penso que ambos os lados mostraram uma vontade de se entenderem um ao outro e encontrar formas de aproximar as nossas posições."

Um ponto de discórdia prende-se com direitos humanos - algo que Biden disse a Putin que estaria sempre em cima da mesa. Questionado sobre o impacto que teria se o opositor russo Alexei Navalny morresse na prisão, o norte-americano disse que "deixou claro que as consequências seriam devastadoras para a Rússia". Sobre Navalny, Putin nem usou o seu nome, limitando-se a lembrar que "esta pessoa sabia que estava a violar a lei".

Mais tarde, Biden apelidou de "ridícula" a comparação que Putin fez sobre a forma como lida com os opositores à invasão ao Capitólio, a 6 de janeiro. Quando questionado sobre as questões dos direitos humanos, o presidente russo também falou das mortes por armas nos EUA, de Guantánamo ou das prisões secretas da CIA para questionar o registo de direitos humanos dos norte-americanos.

"Estabilidade estratégica"

Em concreto, da cimeira saiu a decisão de voltar a enviar os respetivos embaixadores para os seus postos - o russo Anatoly Antonov tinha sido chamado a Moscovo depois de Biden dizer numa entrevista, em março, que considerava Putin um assassino, e o norte-americano John Sullivan tinha voltado a Washington em abril, quando houve uma ronda de sanções e expulsões de diplomatas. Putin disse ainda que "pode haver um compromisso" em relação a uma troca de prisioneiros.

Os dois líderes concordaram em iniciar negociações sobre a limitação da proliferação nuclear, à procura de um substituto para o tratado que termina em 2026 - após ambas as partes terem acordado no início do ano alargá-lo por cinco anos. Biden falou da importância do conceito de "estabilidade estratégica", com um comunicado conjunto a lembrar que ambos os países estão interessados, mesmo em períodos de tensão, em "reduzir os riscos de conflitos armados e a ameaça de guerra nuclear". Biden disse que a última coisa que Putin quer é uma Guerra Fria.

Há ainda acordo em abrir a porta a consultas na área da cibersegurança, com Washington a acusar Moscovo de estar por detrás de vários ataques informáticos nos EUA. Putin lembrou que maioria destes têm origem nos EUA. "Acreditamos que a cibersegurança é importante para o mundo em geral, para os EUA em particular, e também para a Rússia", disse Putin, defendendo que os dois países "só precisam de abandonar as insinuações, sentar-se ao nível dos peritos e começar a trabalhar nos interesses" comuns.

Na sua conferência de imprensa, Biden deixou claro que deu uma lista de 16 infraestruturas consideradas prioritárias para os EUA (desde energia ao setor das águas) que não podem ser alvo deste tipo de ataques (ou de outros), deixando entender que os norte-americanos têm também capacidades nesta área e que podem responder na mesma moeda. Biden disse que não fez qualquer ameaça, defendendo que a Rússia terá que pensar no impacto para a sua reputação de todas as ações que empreender.

A cimeira envolveu duas sessões de diálogo. A primeira contou com a presença na sala do secretário de Estado norte-americano, Anthony Blinken, e do chefe da diplomacia russa, Sergey Lavrov, tendo durado hora e meia. A segunda, de mais uma hora, foi alargada a mais representantes de ambos os executivos. Em nenhum momento, Biden e Putin estiveram sozinhos, ao contrário do que aconteceu na cimeira deste com Trump, em julho de 2018, em Helsínquia, quando ambos ficaram só com os tradutores. Até hoje não se sabe o que falaram.

Linguagem corporal

Sendo uma reunião à porta fechada, com os jornalistas a terem acesso apenas a pequenas amostras do encontro, especialistas foram chamados para analisar a postura de ambos os presidentes. Assim, segundo a perita em linguagem corporal Mary Civiello, de Nova Iorque, ouvida pela BBC, os dois mostraram forte presença e autoridade, mas duas posturas diferentes. Se no aperto de mão Biden estava mais sorridente, o que mostrava que estava disposto a "deixar a bola rolar", Putin parecia forçado.

No momento em que se sentaram no interior de uma biblioteca na mansão do século XVIII que acolheu a cimeira, as pernas do presidente dos EUA estavam num ligeiro ângulo para Putin, mostrando mais uma vez que estava aberto ao diálogo. Já o presidente russo sentou-se com as penas abertas para a frente, numa postura considerada mais agressiva.

Visão diferente teve a especialista em etiqueta e protocolo ouvida pela televisão estatal russa. "O nosso presidente parece mais confortável, mais confiante, mais relaxado", indicou Tatyana Baranova, dizendo que Biden parecia mais "acorrentado" e deixava passar a sensação de que "não está muito confortável na sua cadeira".

susana.f.salvador@dn.pt

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