Biden aterra na Europa para galvanizar aliados e reforçar aliança transatlântica

Presidente norte-americano vai iniciar na quinta-feira a primeira viagem internacional da sua presidência

O Presidente norte-americano Joe Biden espera restaurar a confiança e galvanizar as democracias aliadas na Europa durante a primeira viagem internacional da sua presidência, que começa quinta-feira, 10 de junho, no Reino Unido.

"A política externa não tem sido uma prioridade da administração, mas Biden é sincero neste desejo de renovar e reforçar a aliança transatlântica", disse à agência Lusa a cientista política luso-americana Daniela Melo, que leciona na Universidade de Boston.

"Para Biden, esta é a primeira oportunidade em termos de política externa de passar das palavras à ação, no que diz respeito à governança global", considerou a especialista, destacando as questões da vacinação contra a covid-19, as alterações climáticas, o comércio internacional e a própria democracia.

No briefing da Casa Branca que antecedeu o início da visita, o conselheiro de Segurança Nacional, Jake Sullivan, explicou quais os objetivos da administração com a agenda de oito dias que terá várias paragens cruciais.

"Esta viagem, no seu âmago, irá avançar o impulso fundamental da política externa de Joe Biden: galvanizar as democracias do mundo para enfrentarem os grandes desafios do nosso tempo", disse Sullivan.

Da agenda consta a primeira cimeira entre os Estados Unidos da América e a União Europeia desde 2014, na qual serão endereçados tópicos quentes como as tarifas comerciais impostas pelo ex-Presidente Donald Trump, as disputas referentes aos subsídios às companhias aeronáuticas Boeing e Airbus e ainda a regulação das empresas tecnológicas.

"Na cimeira EUA-UE, o Presidente e os líderes da União Europeia vão focar-se no alinhamento das nossas abordagens aos acordos comerciais e à tecnologia", descreveu Sullivan, "de modo a que sejam as democracias e mais ninguém, nem a China nem outros regimes autocráticos, a escreverem as regras para o comércio e a tecnologia no século XXI".

Com a participação no encontro do G7 (sete economias mais desenvolvidas do mundo), em Cornwall, a administração Biden tem como objetivos o apoio ao IRC mínimo de 15%, na sequência da reunião dos ministros das Finanças do G7, e a assunção de compromissos para o clima, padrões laborais, anticorrupção e ciberataques do tipo ransomware, que têm abalado grandes companhias nos últimos meses.

"É a oportunidade de começarmos a perguntar o que é que o G7 vai fazer para travar o retrocesso da democracia a nível mundial, para assegurar o acesso à vacinação em países menos desenvolvidos e para responsabilizar as empresas que fogem aos impostos através de paraísos fiscais", sublinhou Daniela Melo.

Segundo disse Jake Sullivan no briefing, uma das coisas que a Casa Branca quer ver sair do G7 é "o início de um plano de ação que cubra uma série de áreas críticas", sendo necessário reforçar as defesas coletivas contra os ataques de ransomware, resolver como partilhar informações sobre as ameaças entre os regimes democráticos e como lidar com o desafio das criptomoedas relacionado com os ciberataques.

O conselheiro disse ainda que os Estados Unidos querem que o mundo fale a uma só voz contra os países, "incluindo a Rússia", que albergam cibercriminosos ou permitem que eles operem a partir dos seus territórios.

Biden terá a oportunidade de dizer isso pessoalmente ao Presidente russo Vladimir Putin, quando os dois líderes se encontrarem no final da viagem, em Genebra, já depois de um encontro com o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan.

"Estamos aqui a ver um novo momento de redefinição da relação entre a Rússia e os Estados Unidos", afirmou Daniela Melo, considerando que o encontro entre Biden e Putin será o momento mais mediático da visita.

"Os americanos esperam ver um Biden forte, coerente, calmo, mas que insista nas questões prioritárias para a segurança externa dos Estados Unidos, desde os ciberataques à interferência nas eleições, [oposicionista russo] Alexei Navalny e interferência na Ucrânia", disse a cientista política.

No entendimento da Casa Branca, Jake Sullivan disse que Biden parte para a viagem numa "posição de força", fundamentada no progresso dos Estados Unidos na luta contra a pandemia, o crescimento projetado que irá contribuir para a recuperação económica mundial e "um poder e um propósito Americanos renovados".

Num artigo de opinião publicado no Washington Post a 05 de junho, o Presidente já tinha escrito que esta viagem tem como objetivo "realizar o compromisso renovado da América" para com os seus aliados e parceiros, num momento de incerteza e pandemia, "e demonstrar a capacidade das democracias de estarem à altura dos desafios e deter as ameaças da nova era".

Além de reuniões com aliados da NATO, as primeiras desde 2018, Joe Biden irá também reunir-se com o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, e visitará a Rainha de Inglaterra, Isabel II.

Do ponto de vista dos meios de comunicação e analistas norte-americanos, a viagem será ensombrada pelas questões domésticas mais bicudas que têm ocupado a jovem presidência de Joe Biden. Na linha da frente está a negociação, até agora falhada, para aprovar um pacote económico de 2 biliões de dólares (1,6 biliões de euros), virado para a modernização da infraestrutura do país e criação de emprego.

As "dores de cabeça" internas do Presidente, como lhes chamou o Washington Post, incluem ainda o abrandamento do ritmo de vacinação dos cidadãos norte-americanos e a redução titubeante da taxa de desemprego, conforme ilustrado no relatório mensal sobre o emprego publicado a 04 de junho.

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