"Biden ainda não nomeou embaixadores para a UE e NATO. Isso denuncia um certo 'desleixo'"

Com Joe Biden na Europa, Ana Isabel Xavier, professora e investigadora universitária, fala na diferença de estilo para Trump, na pressão o presidente dos EUA que vai manter sobre a UE em relação a Rússia e China e sobre o encontro de "velhos conhecidos" com Putin.

Esta é a primeira visita de Joe Biden ao estrangeiro desde que foi eleito. Ter escolhido a Europa é sinal de uma reaproximação entre EUA e o Velho Continente depois dos anos de tensão com Donald Trump?
É sinal do retorno ao normal e de uma necessária renovação de votos entre amigos especiais pautada por um desejo de reaproximação recíproco. Mas sejamos pragmáticos: não há um retraimento da Ásia-Pacífico em prol de um "Europe first". Os EUA de Biden vão continuar a insistir na necessidade do velho continente se autonomizar na sua segurança e defesa, para que seja mais resiliente às ameaças da Rússia e da China. Os próximos anos podem não ser de tensão, mas serão claramente de pressão. Uma pressão para resultados mais tangíveis e para uma promoção ativa da democracia que inclui também o Japão, a Coreia do Sul e a Índia que, em conjunto, representam 60% da economia mundial.

Esta visita coincide com a presidência portuguesa do Conselho da União Europeia. É apenas uma coincidência ou pode ser uma oportunidade para Portugal, uma vez que temos uma velha e longa relação com os Estados Unidos?
É apenas uma - boa - coincidência! A reunião é em Bruxelas e não em Lisboa, embora a Presidência Portuguesa assim o desejasse. Joe Biden não estará com Marcelo Rebelo de Sousa nem com António Costa, mas sim com os presidentes da Comissão Europeia e do Conselho com o intuito de concertar posições entre os dois blocos em torno das alterações climáticas, comércio e tecnologia. A velha e longa relação bilateral com os EUA irá certamente manter-se, mas à margem da Presidência do Conselho da UE e para lá de 30 de junho de 2021 e da tradicional Base das Lages, convergindo também na sustentabilidade ambiental, economia do mar ou promoção da paz em África.

Num artigo no The Washington Post, Biden escrevia há dias que os EUA e os seus aliados democráticos têm de "provar a sua capacidade contra ameaças e adversários dos tempos modernos". Estava a falar da China e Rússia ou também de outras ameaças?
Estava a falar em três direções: para a região da Ásia pacífico, para que a China seja mais resiliente e apoie o desenvolvimento global na defesa intransigente das regras internacionais sobre comércio e tecnologia; para o leste europeu, para que as ameaças híbridas que a Rússia tem alegadamente protagonizado e as vulnerabilidades das novas tecnologias e da inteligência artificial não sejam expostas negativamente aos aliados; e para as sociedades ocidentais que têm visto crescer forças nacionalistas iliberais. Os tempos modernos revelam assim que as ameaças são cada vez mais transnacionais, difusas, porosas e multidimensionais, não se podendo prevenir ou gerir senão de forma multilateral e concertada. Para além disso, Joe Biden traz para a agenda internacional uma preocupação doméstica fortíssima: os nacionalismos, populismos e autoritarismos, nas suas diferentes formas, mais ou menos radicais e extremistas, como ameaça real à democracia à escala global.

Clima, comércio, tecnologia, segurança, saúde - são muitos os assuntos em que EUA e UE podem cooperar mais. O discurso em Washington mudou, mas será que basta?
Não estou certa de que o discurso em Washington tenha mudado assim tanto com a nova Administração. Mudou a forma, a "diplomacia" do tweet, mas não necessariamente o conteúdo. A União Europeia continua omissa dos discursos de tomada de posse e dos 100 dias, e estará certamente ausente do Estado da União. Sempre esteve! É certo que são narrativas simbólicas para consumo interno, mas do outro lado do Atlântico quando se pensa em Europa pensa-se na Boulevard Leópold III - os headquarters da NATO - e não na Praça Schuman, onde a latitude de Instituições Europeias se encontra. Biden ainda não nomeou os seus embaixadores para a NATO ou para a União Europeia e isso é manifestamente denunciador de um certo "desleixo". É a primeira Cimeira EUA-UE desde 2014 e a União Europeia continua a ser encarada como um parceiro júnior na competição geopolítica cada vez mais intensa com a China. Os anos Trump ou a pandemia não explicam tudo. Mas claramente que o que aproxima EUA e UE é muito mais do que o que os separa e existe uma agenda externa e interna que coincide e que vai ao encontro de um grande desígnio: como é que as democracias podem potenciar políticas de bem-estar para as suas sociedades, contendo o extremismo e a radicalização e apostando nas agendas verde e digital como motores da recuperação pós-covid? Biden precisa de uma Europa unida, livre e em paz, para que esta pergunta tenha uma resposta concertada.

A UE tem o velho problema de falar a várias vozes, isso continua a prejudicar a relação com os EUA?
Já lá vai o tempo em que Henry Kissinger, então secretário de Estado Americano e adepto fervoroso da realpolitik, se interrogava quem atenderia o telefone na Europa. A diplomacia europeia tem uma voz única que o Tratado de Lisboa definiu na figura do Alto representante da união para os negócios estrangeiros e a política de segurança, que é também vice-presidente da Comissão Europeia. Do ponto de vista institucional, afirmar que a UE tem várias vozes é erróneo, mesmo que se pense numa certa liderança bicéfala entre Von der Leyen e Charles Michel em alguns episódios à escala internacional. Mas claramente que nas matérias que persistem como intergovernamentais, como a área da política comum de segurança e defesa, há um esforço acrescido e permanente de compromisso e essa inevitabilidade leva a uma perceção óbvia de que mais do que existirem várias vozes, elas são dissonantes e reveladoras de um gap estrutural entre expectativas e capacidades. Isso sim é prejudicial, não só em relação aos EUA, mas em relação ao projeto de Europa global que esta Comissão Europeia que se auto proclamou de geopolítica ainda não consegue fazer vingar. Quando se proclama uma voz única para a Europa projetar ou relançar o relacionamento com outros blocos, é porque essa utopia já se transformou em fatalidade e se não for potenciada como oportunidade então está a alimentar o seu próprio foco de ameaça interna.

Biden vai estar também na cimeira da NATO. Depois das ameaças de Trump de sair da Aliança, espera-se um tom mais conciliatório, mas o que pode a Aliança esperar quando Biden afirma que a "América está de volta"?
Espera-se um tom mais conciliatório em nome de uma ambição maior entre os aliados e parceiros: uma aliança de democracias, que os Estados Unidos querem liderar, para enfrentar a pandemia e impulsionar uma recuperação económica global robusta e inclusiva. Os EUA estão de volta à diplomacia multilateral, das mudanças climáticas e do aprofundamento da cooperação transatlântica para promover uma transição global para energia limpa. Mas "a América está de volta" também para recordar que a aliança transatlântica tem que preparar um novo conceito estratégico mais operacional e robusto. Isso significa que vai continuar a ser relembrado o desafio de Obama - potenciado por Trump - dos aliados da NATO projetarem os seus investimentos em defesa para, pelo menos, 2% do PIB, até 2024 e reforçarem a sua capacidade de dissuasão em terra, mar, ar, ciberespaço, espaço e espectro eletromagnético.

O estilo de Biden é muito diferente do de Trump, mas sobretudo no que se refere à China, pouco parece ter mudado com o novo presidente. Pequim é o grande inimigo esteja quem estiver na Casa Branca. Qual o papel da Europa no meio desta guerra? Não há outra escolha a não ser escolher um lado?
Com Biden, Pequim vai continuar a ser encarado como um competidor estratégico e a China o reflexo maior de um choque ideológico entre regimes democráticos e autoritários. O que muda de Trump para Biden nessa matéria, como em tantas outras, é a forma, não o conteúdo. No meio desta guerra comercial, a relação UE-China tem sido marcada por sanções por violações dos direitos humanos na província de Xinjiang e pelo impasse na ratificação do acordo de dezembro passado que permitiria aumentar as oportunidades de negócio na e com a China. A Europa vai continuar, por razões estratégicas, a tentar ser malabarista em todos esses equilíbrios, simplesmente porque a falta de peso geopolítico não lhe permite comprometer de forma perentória com nenhum lado.

Quanto à Rússia, Biden vai ter no dia 16 uma cimeira com Putin. Depois da acesa troca de palavras entre ambos no início do seu mandato - em que chamou assassino ao presidente russo -, o que podemos esperar deste encontro?
Podemos esperar um encontro cordial entre dois "velhos" conhecidos, mas não particularmente amistoso. Antes de viajar para a Europa, Joe Biden confirmou a extensão do Tratado START por mais cinco anos, o que antecipa o controlo de armas como middle ground para a relação bilateral. Mas o objetivo de Biden não é transformar as relações com um spoiler revisionista como a Rússia, mas sim restaurar a previsibilidade e a estabilidade, com abertura para diálogo e consultas, mas sem qualquer pressão para compromissos concretos. E nisso Putin converge, embora reconheça em entrevista recente à NBC que as relações com Washington se encontram no ponto mais baixo dos últimos anos. A verdade é que quer Putin quer Biden serão habilidosos em retirar dividendos para consumo interno de uma certa incompatibilidade estrutural. Os EUA continuam dispostos a usar a força moral e militar caso as démarches híbridas se mantenham e a Rússia continua firme em não admitir nenhuma interferência ou ameaça aos seus interesses vitais como os casos da Síria, Crimeia ou da Bielorrússia demonstram.

Biden começou esta visita pelo Reino Unido, esteve no G7, que balanço faz destes primeiros dias?
É o balanço expectável para uma visita presidencial inaugural que se quer de concertação diplomática, plena de momentos simbólicos (como a assinatura de uma nova Carta para o Atlântico entre EUA e Reino Unido) mas também de uma mão cheia de nada (as tensões pós-Brexit na Irlanda do Norte não foram dramatizadas e confirmou-se o compromisso no acesso equitativo às vacinas contra a Covid-19, com ênfase na redistribuição de doses excedente). Na verdade, a grande decisão já tinha sido tomada previamente pelos ministros das Finanças do G7: a de impulsionar uma tributação mínima global de pelo menos 15% que limite a capacidade de os gigantes tecnológicas desviarem os lucros registados e pagando mais impostos nos países onde de facto as suas vendas são feitas. A concretizar-se, é a mudança no sistema fiscal internacional mais significativa das últimas décadas. De tudo o resto, o que perpassa é o informalismo e o entusiasmo no reencontro presencial dos líderes, que se mostraram verdadeiramente encantados com a Cornualha e com o jantar oferecido pela Rainha Isabel II que propiciou uma conversa sobre a sustentabilidade ambiental em torno do seu projeto Éden. Há compromissos e metas para uma recuperação forte e equilibrada que beneficie a classe média e as famílias trabalhadoras e um sistema de alerta mundial para novas pandemias. Mas também foi evidente o desconforto sobre a transferência de tecnologias e recursos de países e farmacêuticas que facilitem e aumentem a produção de vacinas e a resistência na suspensão de patentes e numa abordagem mais dura contra a China pelo trabalho forçado na província ocidental de Xinjiang. Mesmo assim, a Cimeira fica para a história por se ter permitido ser presencial e por se ter encontrado no mote "Reconstruir Melhor" mais um passaporte para a renovação do multilateralismo com a nova administração Biden. Com ativistas criativos a manifestarem-se no local, mas sem imprevistos, gaffes ou conclusões surpreendentes, fica ainda no ar um prenúncio de anúncio de uma alternativa democrática à Nova Rota da Seda da China para países em desenvolvimento até 2035.

helena.r.tecedeiro@dn.pt

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