Assessor de Bolsonaro acusado de fazer gesto supremacista branco

Filipe Martins, conselheiro internacional do Planalto que estava em sessão no Senado Federal, nega intenção mas o caso junta-se a um histórico de uso de códigos neonazis no atual governo brasileiro

Um assessor de Jair Bolsonaro foi acusado de fazer um gesto supremacista branco em sessão do Senado Federal ao fim da tarde de quarta-feira, 24 de março. Filipe Martins, conselheiro especial para assuntos internacionais, juntou o polegar e o indicador, estendeu os três dedos restantes e movimentou-os de baixo para cima, gesto associado a extremistas. O senador Randolfe Rodrigues, do Rede, solicitou que Martins fosse levado para fora da casa pela polícia legislativa. O assessor de Bolsonaro negou a intenção e ameaçou de processo quem o acusou.

"Numa sessão do Senado Federal, durante o discurso do presidente do Senado, um senhor está procedendo a gestos obscenos, Isso é inaceitável, já basta o desrespeito que este governo está tendo com mais de 300 mil mortos, não aceitamos que um capacho do presidente da República venha ao Senado nos desrespeitar", disse Randolfe, antes de requerer a sua saída da sala, o que não veio a acontecer. Rodrigo Pacheco, do DEM, presidente do Senado, afirmou, no entanto, que comprovada a situação "medidas enérgicas" contra Martins seriam tomadas.

Martins reagiu mais tarde pela rede social Twitter. "Um aviso aos palhaços que desejam emplacar a tese de que eu, um judeu, sou simpático ao "supremacismo branco" porque nas suas mentes doentias enxergaram um gesto autoritário numa imagem que me mostra ajeitando a lapela do meu terno: serão processados e responsabilizados; um a um".

O assessor do Planalto, aluno de Olavo de Carvalho, considerado o guru do governo e o pai da nova extrema-direita do Brasil, e muito próximo dos filhos de Bolsonaro, estava no Senado a acompanhar Ernesto Araújo, ministro das relações exteriores convocado pela câmara alta do parlamento para explicar os motivos do atraso na compra de vacinas contra a covid-19.

O sinal feito por Martins vem sendo difundido, sobretudo nos Estados Unidos, como um gesto ligado a movimentos supremacistas de extrema-direita, usado pelo grupo Proud Boys, que ajudou na invasão do Capitólio, em janeiro, e pelo atirador responsável pelo ataque a mesquitas em Christchurch, na Nova Zelândia, em 2019.

O episódio junta-se, entretanto, a outros no mesmo sentido ao longo do governo Bolsonaro. O deputado Eduardo Bolsonaro, por exemplo, usa o efeito fashwave nos seus perfis nas redes sociais - a estética fashwave, em que fash é uma abreviatura de fascismo, foi iniciada por bandas de músicas eletrónicas e apropriada pela extrema-direita. "Eduardo promove a sua retórica usando técnicas condizentes com a propaganda de extrema-direita americana, como a sua foto fashwave no perfil do Twitter. Os supremacistas sociais compartilham conteúdo pró-armas, racista, anti-LGBT, antissemita e anti-Nordeste", contou em novembro do ano passado ao DN o investigador David Nemer, que se inseriu por um ano em grupos bolsonaristas na internet, após extenso artigo no site The Intercept sobre o tema.

"Eles levam novos membros para outros canais de discussão, como Dogolachan e 55chan (...) local frequentado pelos autores do massacre da escola de Suzano [tragédia que levou à morte de 10 pessoas em março de 2019, no estado de São Paulo]. Esses canais são conhecidos pela propagação do ódio, do preconceito e da extrema-direita na internet brasileira", continuava Nemer, professor na Universidade de Virginia.

A propósito da cena protagonizada agora por Filipe Martins, o pesquisador chamou-o nesta quinta-feira de "dog whistle [expressão que literalmente significa apito para cães mas que politicamente se refere à emissão de mensagens em código] aos neonazis brasileiros".

O COPO DE LEITE

Outra controvérsia, de maio do ano passado, envolveu diretamente Bolsonaro. O presidente bebeu um copo de leite durante a tradicional live das quintas-feiras, ato interpretado como mensagem subliminar em prol da supremacia branca, uma vez que movimentos neonazis têm adotado a prática de tomar leite em vídeos para sublinhar essa suposta supremacia.

Bolsonaro, cujo histórico de afirmações desrespeitosas para com asiáticos, quilombolas (descendentes de escravos africanos) e população indígena é vasta, afirmou que o gesto fez parte de um desafio da Associação Brasileira dos Produtores de Leite, o "Desafio do Leite".

Durante a campanha eleitoral, David Duke, o ex-líder do Ku Klux Klan, elogiou o hoje presidente dizendo que "ele soa como nós'.

Ainda em maio de 2020, a Secom, organismo responsável pela comunicação social da presidência da República, publicou nas suas redes sociais um vídeo de divulgação de ações no combate à pandemia e usou, em determinado ponto, uma expressão que remete à famosa inscrição nazi na entrada do campo de concentração de Auschwitz: "Arbeit macht frei" ("O trabalho liberta").

A peça da Secom, que foi compartilhada pelo presidente Bolsonaro, afirma, em determinado ponto: "O trabalho, a união e a verdade nos libertará [sic]​".

A IMITAÇÃO DE GOEBBELS

Quatro meses antes, em vídeo divulgado pelas redes sociais, o então secretário de estado da cultura, Roberto Alvim, afirmou que "a arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes de nosso povo, ou então não será nada".

O discurso foi comparado ao de Joseph Goebbels, ministro da propaganda do III Reich. Segundo o livro "Goebbels: a Biography", de Peter Longerich, o nazi afirmara que "a arte alemã da próxima década será heroica, será ferreamente romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, será nacional com grande pathos e igualmente imperativa e vinculante, ou então não será nada".

Como música de fundo para a sua intervenção, Alvim escolheu uma ópera de Richard Wagner, "Lohengrin", o compositor preferido de Adolf Hitler e do regime nazi.

Para Alvim, tratou-se apenas de "uma coincidência retórica" e que jamais citaria Goebbels. "Mas a frase é perfeita...".

Criticado pela classe política, Alvim acabou demitido e substituído pela atriz Regina Duarte que, por sua vez, daria lugar meses mais tarde a Mário Frias, ex-protagonista da novela juvenil Malhação.

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