Alemanha e EUA pedem trégua e Erdogan arrefece ânimo da NATO

Chanceler alemão e secretário da Defesa norte-americano coincidem no pedido a Moscovo. Suécia e Finlândia veem oposição da Turquia na adesão à Aliança Atlântica.

Ao 79.º dia da invasão da Ucrânia pela Rússia, dois altos dirigentes ocidentais pediram a Moscovo uma trégua imediata, numa altura em que o exército ucraniano estará a expulsar o russo na região de Kharkiv. Depois de na véspera o presidente e a primeira-ministra da Finlândia terem anunciado de forma informal que o seu país vai candidatar-se à NATO, dois ministros suecos apresentaram um documento com conclusões semelhantes. No entanto, o presidente turco já ameaçou bloquear o processo de adesão.

Os ministros da Defesa dos Estados Unidos e da Rússia falaram ao telefone, o que não acontecia desde 18 de fevereiro, dias antes de Vladimir Putin ter dado início à "operação militar especial". Segundo o porta-voz do Pentágono John Kirby, Lloyd Austin pediu a Sergei Shoigu um cessar-fogo imediato na Ucrânia e salientou a importância de manter as linhas de comunicação. Já o Ministério da Defesa russo afirmou que o telefonema entre os ministros resultou da "iniciativa do lado norte-americano", o que foi confirmado pelo Pentágono. O Departamento da Defesa disse ainda que os seus funcionários, Austin incluído, tinham tentado várias vezes contactar os seus homólogos russos após a invasão, sem sucesso.

Também o chefe do governo alemão Olaf Scholz fez um apelo direto ao líder russo para que este estabeleça uma trégua. No Twitter, o chanceler confirmou o apelo, dizendo que tinha exortado Putin para um cessar-fogo rápido na Ucrânia. Putin terá respondido que as conversações de paz sobre o conflito tinham sido "essencialmente bloqueadas" pelo governo ucraniano, de acordo com a versão do Kremlin. O líder russo disse também que Moscovo estava a combater a "ideologia nazi" na Ucrânia, ao que não ficou sem resposta: o social-democrata negou as alegações de que há um governo nazi em Kiev, classificando-as de "falsas".

No telefonema que se prolongou por 75 minutos, Scholz apelou a Putin para "melhorar rapidamente a situação humanitária no terreno e [fazer] progressos na procura de uma solução diplomática para o conflito". E não só: "Lembrei-o também da responsabilidade da Rússia pela situação alimentar global", acrescentou o chanceler alemão, que tem mantido várias conversas com o presidente russo desde 24 de fevereiro. O ministro alemão da Agricultura, Cem Özdemir, foi mais direto e disse no início de uma reunião do G7 que o roubo de cereais pelas forças russas no leste da Ucrânia é "uma forma de guerra especialmente repugnante".

A esse propósito, o chefe do Programa Alimentar Mundial da ONU, David Beasley, voltou a alertar para o risco de fome para milhões de pessoas se os russos continuarem a bloquear os portos ucranianos do Mar Negro.

Durante a reunião do G7, em Berlim, que contou com a presença do ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, foram discutidas formas de ajudar a Ucrânia a escoar a produção agrícola e a União Europeia comprometeu-se com mais 500 milhões de euros em ajuda militar. Enquanto Kuleba pedia meios aéreos e lançadores de foguetes, o Bild avançou que o governo alemão planeia enviar o novo (e ainda não disponível) sistema de defesa ar-terra IRIS-T SLM para a Ucrânia, depois de na semana passada ter anunciado o envio de sete obuses autopropulsados. Em definitivo, o governo alemão mudou de tom quanto ao regime russo. O ministro da Economia Robert Habeck denunciou o uso da energia "como uma arma" por parte de Moscovo, horas antes da multinacional Siemens ter anunciado o encerramento das operações na Rússia, e de a Rússia ter anunciado o corte do fornecimento de eletricidade à Finlândia.

É a primeira consequência da declaração de Helsínquia favorável ao pedido de adesão à NATO. Estocolmo deverá seguir o mesmo caminho nas próximas horas, mas o presidente turco não perdeu tempo e ameaçou bloquear o processo, que necessita de consenso entre os 30. Recep Erdogan alegou que os países escandinavos são "quase como casas de hóspedes de organizações terroristas", referindo-se aos militantes curdos do PKK. Uma situação que irá ser discutida neste fim de semana entre os ministros dos Negócios Estrangeiros da NATO com os homólogos da Suécia e Finlândia, reunidos em Berlim.

Ossétia do Sul referenda anexação

A Ossétia do Sul, região da Geórgia com cerca de 50 mil habitantes, vai organizar um referendo para aprovar a sua integração na Federação Russa, à imagem do que aconteceu com a Crimeia. Citando a "aspiração histórica", o líder da região separatista, Anatoly Bibilov, promulgou um decreto a marcar a consulta popular para 17 de julho. Região autónoma durante o período soviético, a Ossétia do Sul esteve em guerra com Tiblissi em 1991.

Em agosto de 2008, durante o governo de Mikheil Saakashvili, que procurava a integridade territorial e a integração na NATO, a Rússia invadiu a Geórgia, em resultado de tropas georgianas terem entrado em combates na Ossétia do Sul, depois de ossetas terem bombardeado aldeias georgianas. Em resultado, a Ossétia do Sul e outra região separatista pró-russa, a Abecásia, declararam a independência, só reconhecida por Moscovo, Manágua e Caracas.

cesar.avo@dn.pt

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