À espera de negociar, Pyongyang testa novo míssil

A tática já foi usada no passado. Objetivo é chamar a atenção para desencadear nova ronda de negociações com os EUA

Em 2017, no primeiro ano de Donald Trump na presidência dos EUA, a Coreia do Norte testou 17 mísseis e efetuou o seu sexto teste nuclear, de uma alegada bomba de hidrogénio. No ano seguinte, Pyongyang abriu um canal de diálogo com Seul que culminaria na primeira cimeira entre Trump e o líder norte-coreano, Kim Jong-un, em junho de 2018. Mas o diálogo arrefeceu após a segunda cimeira e os testes voltaram no final de 2019, com os especialistas a considerar que o objetivo era levar os EUA a fazer concessões, nomeadamente no que diz respeito ao levantamento das sanções. Agora, há um novo inquilino na Casa Branca e Pyongyang parece mais ativo do que nunca, alegando ter testado, com sucesso, um míssil hipersónico. Será para chamar a atenção de Joe Biden e voltar à mesa de negociações?

O lançamento do míssil, identificado como Hwasong-8, ocorreu na terça-feira. Foi o terceiro teste só este mês, tendo já sido também testados um míssil de cruzeiro de longo alcance e um míssil balístico de curto alcance. Os especialistas defendem que estes testes (e haverá mais) não servem apenas para aumentar a postura militar de Pyongyang, sendo também uma forma de abrir espaço para a diplomacia. Os EUA condenaram este teste, dizendo continuar "comprometidos com uma abordagem diplomática" e apelando ao diálogo.

O sucesso deste último teste é "de grande importância estratégica", já que Pyongyang procura "multiplicar por mil" as suas capacidades de defesa, disse a agência de notícias oficial KCNA. Os mísseis hipersónicos são muito mais rápidos do que os mísseis balísticos convencionais ou de cruzeiro e são muito mais difíceis de detetar e intercetar por sistemas de defesa antimísseis, nos quais os EUA gastam milhares de milhões de dólares.

O desenvolvimento do míssil hipersónico era um dos cinco pontos "prioritários" do plano estratégico de armas de cinco anos da Coreia do Norte. Este plano foi apresentado em janeiro por Kim Jong-un, que elegeu, na altura, os EUA como "principal inimigo". Na terça-feira, pouco depois de Seul fazer soar os alarmes para o novo teste, o embaixador norte-coreano Kim Song defendia diante da Assembleia Geral das Nações Unidas o direito do seu país à sua defesa e segurança.

Abaixo do Paralelo 38, Seul também prossegue a sua corrida ao armamento. Depois do anterior teste dos vizinhos do norte, os sul-coreanos anunciaram ter testado com sucesso, pela primeira vez, mísseis disparados de um submarino - uma tecnologia avançada que só sete países possuem. Isso, conjugado com as críticas que têm sido feitas aos testes de Pyongyang, levou a irmã do líder coreano e uma das suas principais assessoras, Kim Yo-jong, a acusar a Coreia do Sul e os EUA de "dupla moral".

Apesar da atividade no terreno, Seul e Pyongyang dizem estar disponíveis para uma nova cimeira entre os seus líderes. Nas Nações Unidas, o presidente sul-coreano Moon Jae-in apelou novamente ao fim do conflito - oficialmente os dois países ainda estão em guerra, já que o conflito de 1950-1953 terminou numa trégua, não num tratado de paz. Em resposta, Kim Yo-jong disse que tal seria possível com "respeito mútuo", apelando ao fim das "políticas hostis" de Seul.

susana.f.salvador@dn.pt

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