Os Maias de Eça de Queirós

Ao longo de quase dez anos, Eça de Queirós trabalhou na que é a sua obra mais ambiciosa, publicada em 1888. Mais do que a história trágica dos amores de Maria Eduardo e Carlos da Maia, este é o romance de uma sociedade condenada ao fracasso pela inércia e pela incompetência.

Ao adaptar ao Cinema o mais ambicioso romance de Eça de Queirós, o realizador João Botelho admitiu publicamente que o seu maior desafio eram as "várias camadas que encontramos em Os Maias", já que, sob a tragédia amorosa, está assestada uma lupa, tão implacável como certeira sobre a sociedade portuguesa de oitocentos. Ou, mais precisamente sobre uma certa sociedade lisboeta, constituída pela alta burguesia e sua clientela que arrasta pelo Chiado um tédio tão incomensurável como a sua capacidade para reformar o país. Aquela que o próprio Eça de Queirós frequentava, sem, no entanto, deixar de a desprezar. Como escrevia já há décadas o autor do Dicionário da Literatura Portuguesa e figura de referência nesta disciplina, Jacinto do Prado Coelho, "em Os Maias, o que domina como objecto de reflexão é Portugal, personagem oculta por detrás das personagens visíveis. [...] O projecto global de escrever, de explicar Portugal como problema, é, no romance, o seu mais forte princípio de unidade.»

Publicado em 1888, com o subtítulo Episódios da vida romântica, é considerado pelos críticos a melhor obra de Eça de Queirós e uma obra-prima da literatura portuguesa e mesmo mundial. A primeira referência do autor a este projeto terá surgido numa carta ao editor Chardron, de 1878, como um dos títulos a serem incluídos na série Cenas portuguesas ou Cenas da vida portuguesa, o que indica que o trabalho no romance tenha durado perto de uma década.

No centro narrativo de Os Maias está a história de uma família ao longo de três gerações, com destaque para a contemporânea do autor. Apresenta dois planos cruzados: o da intriga sentimental, com a história de amor incestuoso, marcada por elementos próprios da tragédia grega (como presságios e estranhas coincidências), entre Carlos Eduardo da Maia e Maria Eduarda, afinal, uma continuidade dos amores fatais dos pais de ambos, Pedro da Maia e Maria Monforte, e o da crítica sócio-política de um país se afundava na letargia da monarquia constitucional.

Ao serviço destes dois objetivos está uma das mais notáveis galerias de personagens da Literatura portuguesa. O pior lado da Política é representado pelo conde de Gouvarinho e por Sousa Neto; a Finança por Cohen; o jornalismo corrupto e sensacionalista por Palma Cavalão; as consequências da educação beata e provinciana surgem espelhadas em Eusebiozinho e,finalmente, o deslumbramento pacóvio com tudo o que viesse de Paris está todo plasmado em Dâmaso Salcede, o homem que se vê a si mesmo como "podre de chic".

Mas a personagem mais complexa e rica de Os Maias é o inseparável amigo de Carlos, o principal acusador dos males do país, que, no entanto, não nos aparece isento de ridículos e contradições, como, aliás, o protagonista do romance. Cultor da "santa blague", Ega defenderá posições desconcertantes sobre o país e os seus compatriotas ("Portugal não precisa de reformas, Cohen, o que Portugal precisa é da invasão espanhola."), mas preso num diletantismo paralisante, jamais terminará as suas Memórias de um Átomo ou qualquer projecto literário a que se tivesse proposto.

O próprio final do livro estabelece um fino contraste entre as grandes afirmações de princípios das suas personagens e as circunstâncias da vida de todos os dias. Reencontrando-se em Lisboa após quase dez anos de afastamento, os dois amigos estabelecerão este diálogo: "- Se me dissessem que ali em baixo estava uma fortuna (...) à minha espera, (..) se eu para lá corresse, eu não apressava o passo... Não! Não saía deste passinho lento, prudente, correcto, seguro, que é o único que se deve ter na vida.

- Nem eu! - acudiu Carlos com uma convicção decisiva.

E ambos retardaram o passo, descendo para a rampa de Santos, como se aquele fosse em verdade o caminho da vida, onde eles, certos de só encontrar ao fim desilusão e poeira, não devessem jamais avançar senão com lentidão e desdém." E, no entanto, bastaria um nada para que alterassem esse passinho lento: "A lanterna vermelha do "americano", ao longe, no escuro, parara. E foi em Carlos e em João da Ega uma esperança, outro esforço:

- Ainda o apanhamos!

- Ainda o apanhamos!

De novo a lanterna deslizou, e fugiu. Então, para apanhar o "americano", os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela rampa de Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia."

Esta sexta-feira - Os Maias

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