Quem és tu, Charlie?

Talvez a maior manifestação de sempre, talvez a melhor manifestação de sempre, talvez o centro do mundo - o nosso mundo, decerto. E um encontro de desencontros.

"Terroriste, t"es foutu, la France est dans la rue (terrorista, estás feito, a França está na rua)." A palavra de ordem é tão bem disposta, provocatória e triunfante como os jovens, na maioria negros ou muito morenos (talvez de origem magrebina), que subiram para a estátua no centro da praça da República a partir da uma da tarde e que mesmo sem megafone animam a multidão cada vez mais densa, como quem aquece a audiência para um concerto. Desfraldam bandeiras tricolores, repetem: "Je suis - français. Nous sommes - français", em orgulhosa representação da França multicultural. Perguntam: "Quem és tu?", e de cá de baixo responde-se: "Charlie!" E a seguir: "Elle est debut, la France/ Nous sommes debut (A França está de pé/ Estamos de pé." A mais inesperada das palavras de ordem -"Merci a la police, la police, bravo" -, que se repetirá ao longo da manif de cada vez que se divisa a silhueta negra de um polícia no alto dos prédios, arranca aplausos comovidos e deixa os próprios polícias sem saber bem como reagir: acenam timidamente, põem o polegar para cima e voltam à pose de estátua. "É uma mudança", comentará, mais à frente. um homem de meia idade, irónico. "Aplaudir os flics, esta nunca tinha visto."

Tantas coisas, nestes últimos dias, que nunca se tinham visto. Ou nas quais talvez nunca se tivesse reparado. Por exemplo este pequeno grupo que avança - a passo de caracol, como todos, tal a enchente - com cartazes improvisados onde se lê "muçulmanos indignados" e que agradece a atenção jornalística, as fotografias. "Temos de exibir a nossa crença religiosa, que normalmente é uma coisa privada, para que não se diga que não há muçulmanos aqui. Há imensos, claro. A esmagadora maioria dos muçulmanos é laica, não se distingue das outras pessoas. Procurava muçulmanas com véu? Pois, também ainda não vi nenhuma aqui [a crer nas TV, existiam; em sete horas de concentração e manif o DN não as encontrou]. Mas isso é uma tradição cultural, não é um mandamento religioso." Faial Bentchikov Furon, 46 anos, cabelos louros e pais argelinos, ri. "E depois dizem que os muçulmanos não dizem nada. Porque não nos veem. Temos de ser visíveis, Senão eles - os terroristas, os wahhabitas [ramo fundamentalista sunita de que se reclamam a Al Qaeda e o movimento que se intitula Estado Islâmico] - devoram-nos." Uma mulher interpela-a: "Sim, a comunidade muçulmana levou muito tempo a aparecer, e a exprimir a indignação. Tempo de mais. Já o devia ter feito há muito." Faial vira-se para trás: "Quê? Não há comunidade muçulmana. Há pessoas muçulmanas. Não somos comunitaristas como os judeus. Os muçulmanos de França são republicanos. Mas agora sentimo-nos reféns desta imagem que estes acontecimentos criam. Quando digo que sou muçulmana, as pessoas olham para mim sobressaltadas. Estou farta que a minha religião seja vista como um problema, estou farta de ser discriminada. Dizem que somos anti-semitas. Como, se nós próprios somos semitas?" Abana a cabeça, retoma o discurso torrencial. "É por tudo isto que eu e outras pessoas criámos uma associação, em janeiro de 2014. Queremos apostar na educação, perceber o que se está a passar, pressionar os dignitários muçulmanos para que se inteirem do que se passa nas periferias, sobre as salas de oração que há por aí em que se endoutrinam espíritos fracos. E queremos falar publicamente. Na cerimónia que houve depois da morte de Hervé Gourdel [guia francês decapitado em setembro], discursei a seguir a Anne Hidalgo [autarca de Paris], mas nenhuma TV passou uma palavra minha. E queixam-se de não aparecermos?" Respira fundo. "Desculpe, fico muito enervada com isto. E estou com muito medo do que pode vir a seguir, de ainda mais estigmatização. Depois do 11 de setembro foi horrível, e agora isto."

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