Karadzic avisa juiz que vai boicotar o julgamento

Líder dos sérvios da Bósnia acusado de  genocídio de muçulmanos e croatas nos anos da dissolução da Jugoslávia diz que não está preparado para se defender e precisa de mais tempo  para estudar um milhão de páginas da acusação

As atrocidades atribuídas a Radovan Karadzic nos anos sangrentos da dissolução da Jugoslávia contam-se num milhão de páginas. Um número imponente - sete algarismos - e que serve de argumento ao antigo chefe político dos sérvios da Bósnia para ameaçar boicotar o início do seu julgamento.

O homem que é acusado de crimes de guerra e genocídio dos muçulmanos e croatas da Bósnia na guerra de 1992-1995, enviou uma carta aos juízes do tribunal de Haia a anunciar que faltará à sessão de abertura, segunda-feira.

"Informo-vos que a minha defesa ainda não está pronta pelo que não me apresentarei perante vós nessa data [26 de Outubro]", escreveu Karadzic. "O maior, mais complexo e mais importante processo deste tribunal arriscava começar sem a preparação correcta," reforçou.

A porta-voz do TPI disse que "não há nenhuma indicação de que o julgamento não decorra como previsto". Nerma Jelacic recordou que aos juízes cabe a última palavra sobre os procedimentos e que eles até podem nomear um advogado para representar Karadzic, na sua ausência.

Esse é um cenário improvável. Neste ponto pelo menos a história joga a favor do réu (ver caixa) . Em 2006, o TPI nomeou um advogado para defender outro sérvio que tentou o boicote, mas meses depois anulou a decisão e o julgamento recomeçou.

Karadzic foi preso em Julho de 2008 em Belgrado, capital da Sérvia, após 13 anos em fuga. É considerado responsável pelo cerco a Sarajevo, em que foram mortas dez mil pessoas, e pelo massacre Srebrenica, no leste da Bósnia, em Julho de 1995, onde mais de oito mil rapazes e homens muçulmanos foram executados . De ambas as vezes, o objectivo era limpar a Bósnia de muçulmanos e croatas.

Karadzic diz-se inocente de todos os crimes mas, ao mesmo tempo, denunciou que os EUA lhe deram imunidade em troca do seu desaparecimento. Mesmo que seja verdade, o acordo não tem validade jurídica. Depois desta derrota, o acusado pediu no início de Setembro dez meses suplementares para preparar a sua defesa. Na altura, disse que tratando-se de um processo gigantesco devia ter o tempo de preparação médio dos processos do TPI - dois anos. O pedido foi recusado. Karadzic pediu recurso e conseguiu uma semana.

Tal como o antigo presidente da Sérvia Slobodan Milosevic - que morreu em 2006, sem ver terminado o seu julgamento - Karadzic decidiu assegurar a sua defesa. O psiquiatra de 42 anos quer ser ele próprio a confrontar as testemunhas e fazer o jogo psicológico dos advogados na barra do tribunal porque diz "os factos são tão complicados que não podem ser compreendidos e apresentados senão por alguém que participou neles do primeiro ao último dia".

Mesmo assim, Karadzic está a receber aconselhamento jurídico de uma equipa anormalmente grande de advogados. O TPI paga-lhe oito, mas somados com os voluntários o números ultrapassa as duas dezenas. Há muitas dúvidas sobre a capacidade de Karadzic fazer a sua defesa. O advogado estagiário americano, Kevin Griffith, disse que ele é um homem inteligente e agradecido. "Da primeira vez que se encontrou connosco deu-nos chocolates e disse: 'São como a defesa de um sérvio, doce e amarga, à vez'".

Mais Notícias

Outras Notícias GMG