Gallardón demite-se após falhar reforma da lei do aborto

O ministro da Justiça espanhol, Alberto Ruiz-Gallardón, anunciou hoje a sua demissão, horas depois de o presidente do Governo espanhol, Mariano Rajoy, ter confirmado a retirada da polémica reforma da lei do aborto.

Em conferência de imprensa Ruiz-Gallardón clarificou que apresentou a demissão na semana passada porque não considera ser capaz de liderar a implementação das propostas de alteração que hoje o presidente do Governo anunciou hoje.

"Não sou a pessoa para poder levar adiante, com convicção, a nova forma de regulação do aborto que foi anunciada pelo presidente do Governo", disse aos jornalistas.

"Mais que desautorizado, o que sinto é que não fui capaz de cumprir a tarefa. Foi-me dada uma tarefa, pelo Governo, e eu não fui capaz de o cumprir. Não sou dos que procura desviar responsabilidade. A responsabilidade deste projeto é minha e quem tem que se demitir por não o ter conseguido sou eu", afirmou.

Gallardon explicou aos jornalistas que a sua demissão só avançou hoje porque estava à espera de ver qual seriam os passos dados pelo Governo regional catalão relativamente à consulta soberanista de 9 de novembro, e sobre os passos de recurso que o executivo central vai levar ao Tribunal Constitucional.

A decisão é anunciada depois de Mariano Rajoy ter confirmado hoje, além da retirada da polémica reforma da lei do aborto, que o Governo vai apenas avançar com uma alteração à lei em vigor para que se exija que as menores tenham autorização dos pais antes de interromper voluntariamente a gravidez.

O presidente do Governo disse ainda que em paralelo o executivo vai preparar "um plano de proteção da família" que estará concluído antes do final do ano.

Gallardón explicou que além de se demitir como ministro que decidiu também abandonar a política, pelo que renunciará ao seu mandato no Congresso de Deputados e a todos os cargos de responsabilidade no Partido Popular (PP).

"A decisão que hoje adoto não é apenas uma decisão de abandonar o Ministério da Justiça. Deixo também depois de 30 anos, a política. Além da demissão que apresentei ao presidente do Governo, apresentarei ao presidente do Congresso de Deputados, a renúncia ao mandato", disse.

"Sempre disse que este seria o meu último posto político. Devo muito à política. O meu abandono da política não me afastará da militância do partido, mas leva-me também a abandonar as minhas responsabilidades dentro do partido", disse.

Aos jornalistas Gallardon agradeceu "a confiança" depositada por Rajoy, quando o nomeou há três anos para uma "tarefa verdadeiramente apaixonante", que assumiu renunciando ao cargo de alcaide (presidente da câmara) de Madrid.

Gallardon agradeceu ainda aos seus colegas no executivo, ao partido e ao grupo parlamentar, especialmente durante o que diz terem sido "circunstâncias muito difíceis, em debates dialeticamente muito difíceis".

Pediu ainda desculpa aos seus adversários políticos que possam ter-se sentido "molestados ou injustamente tratados", afirmando que nunca pretendeu fazer qualquer ataque pessoal, mantendo-se sempre no espaço do "debate político".

Gallardón recordou que tem agora "alguns anos" de incompatibilidade, em que não pode exercer a sua profissão, de advogado, insistindo que não assumirá "qualquer posto de responsabilidade política.

"Ainda não sei o que vou fazer. Mas a minha carreira política dou-a por esgotada", disse.

A reforma da lei do aborto, fortemente contestada dentro e fora de Espanha e até dentro do executivo e do Partido Popular (PP), tinha sido um dos cavalos de batalha de Gallardón, e uma promessa eleitoral do PP.

Gallardón era no passado - quando era alcaide de Madrid - considerado um dos membros da ala progressista do PP tendo sido, nos últimos anos, acusado de se movimentar politicamente cada vez mais à direita, inclusive dentro do próprio PP.

O polémico ministro chegou, no passado, a ser sugerido como um possível candidato à liderança do PP.

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