Sobrevivente do Ghetto de Varsóvia evoca memória das vítimas do nazismo

O crítico literário Marcel Reich-Ranicki, um dos sobreviventes do Ghetto de Varsóvia, lembrou hoje as atrocidades cometidas pelo regime nazi, num discurso solene no parlamento alemão para assinalar o 67.º aniversário da libertação do campo de concentração nazi de Auschwitz.

Ranicki, de 91 anos, cujos pais foram assassinados no campo de concentração nazi de Treblinka, começou por afirmar que não iria falar como historiador, "mas sim como testemunha contemporânea", lembrando que assistiu a execuções e a detenções de judeus pelas tropas nazis em Varsóvia.

"A deportação dos judeus de Varsóvia só tinha um objetivo, a morte", disse Ranicki, um judeu de origem polaca que se sediou na Alemanha e se tornou o maior crítico literário neste país.

O publicista lembrou no seu discurso o dia 22 de julho de 1942, data em que começou a deportação dos judeus do Ghetto de Varsóvia para os campos de extermínio nazis.

Na altura com 22 anos, o jovem intelectual Reich-Ranicki, um dos prisioneiros do Ghetto, foi encarregado de traduzir de Alemão para Polaco a ordem do comandante nazi Hermann Hoefle, ou seja, de traduzir a sua própria sentença de morte.

Quando Ranicki fugiu da Polónia comunista para a Alemanha Federal, em 1958, Hoefle, que depois da guerra chegou a trabalhar para os serviços secretos norte-americanos, vivia impune neste país.

Quatro anos mais tarde, quando começou a ser julgado, enforcou-se na sua cela.

Reich-Ranicki cresceu numa família judia e sobreviveu ao Ghetto de Varsóvia, mas muitos dos seus familiares foram assassinados pelo regime nazi.

No discurso inaugural, o presidente do parlamento alemão, Norbert Lammert, considerou Ranicki "um símbolo da experiência de milhões de pessoas" com o regime hitleriano, advertindo que a recordação das vítimas do nazismo "é uma tarefa eterna".

Lammert exortou ainda os alemães a oporem-se corajosamente à extrema-direita, com o país ainda chocado pelas notícia de que um grupo terrorista neonazi assassinou a tiro 10 pessoas nos últimos anos, entre as quais oito imigrantes turcos e um grego e uma agente da polícia.

" cerimónia no parlamento assistiram o presidente da República, Christian Wulff, e a chanceler Angela Merkel, entre outras individualidades.

A 27 de janeiro, dia em que o campo de concentração e extermínio nazi de Auschwitz, na Polónia ocupada, foi libertado pelas tropas soviéticas, em 1945, lembram-se em todo o mundo as vítimas do Holocausto, o genocídio de seis milhões de judeus às mãos do regime nazi.

Apesar das inúmeras iniciativas na Alemanha para tentar evitar que as atrocidades do regime hitleriano sejam esquecidas, 21 por cento dos alemães com menos de 30 anos não sabem o que significa Auschwitz, segundo uma sondagem publicada pelo semanário Stern.

Além disso, quase metade dos alemães, 43 por cento, nunca visitou um antigo campo de concentração nazi, apurou-se no mesmo inquérito de opinião.

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