Este homem a quem chamo pai

Conheça Jaffar Amin. Ele faz trabalhos de voz off, gosta de MC Hammer e posta histórias de família no Facebook. Ah, e o pai dele foi o mais famoso ditador de África.

A 11 de abril de 1979, Sua Excelência o Presidente Vitalício, Marechal de Campo Al-Hadji Doutor Idi Amin, VC, DSO, MC, CBE, Senhor de todos os Animais da Terra e Peixes do Mar e Conquistador do Império Britânico de África em geral e do Uganda em Particular, foi deposto por uma insurreição rebelde.

Para a maioria das pessoas, o reinado de oito anos de Amin é recordado sobretudo pela sua violência. Nove mil soldados "desleais" - dois terços do exército ugandês - foram executados durante o primeiro ano de Amin no poder. Supostas ameaças entre a população civil - Janani Luwum, o arcebispo da Igreja do Uganda, por exemplo - eram não só executadas sumariamente mas também obrigadas a fazer o trabalho elas próprias e espancarem-se umas às outras até à morte. Ao longo da vida, rumores de canibalismo seguiram Amin, tendo sido dito que guardava as cabeças decapitadas dos seus rivais num congelador. Um obituário no Guardian, depois da sua morte em 2003, descrevia o líder ugandês como "um dos mais brutais ditadores militares a deter o poder na África pós-independência". É difícil definir sem margem para dúvida o número exato de mortes pelas quais ele pode ser acusado, mas a BBC estimou o número em cerca de 400 mil.

Há quem diga que o homem é mais do que os números. Uma das pessoas que dá mais voz à sua defesa não é outro senão Jaffar Amin, o décimo dos quarenta filhos oficialmente reconhecidos do falecido ditador, de sete mulheres oficialmente reconhecidas. Jaffar insiste que o mundo desconhece verdadeiramente o pai dele.

Presente no Facebook

Jaffar, agora com 48 anos, vive em Kampala com a mulher e seis filhos. Utilizador prolífico do Facebook, ele posta regularmente fotografias da família, incluindo do seu pai, juntamente com histórias, memórias e as queixas peculiares sobre o atual estado do Uganda.

Sempre me interessei pelas vidas privadas dos ditadores e, há poucos anos, depois de uma pesquisa rápida, aterrei no perfil de Jaffar. Enviei-lhe um pedido de amizade, juntamente com uma nota a perguntar-lhe se ele quereria partilhar comigo a sua história para um artigo. Estava à espera de um "Não, obrigado" educado. Mas Jaffar respondeu imediatamente concordando em enviar junto respostas "genéricas" a perguntas que ou não lhe tinham sido feitas ao longo dos anos ou àquelas que ele supunha que lhe seriam feitas.

O que ele mandou era tudo menos genérico. Certa tarde de agosto de 2013 olhei para a minha caixa de entrada e descobri dezenas e dezenas de páginas cheias de reminiscências quase em fluxo de consciência sobre a vida com o seu pai. Demorou algum tempo para que tudo aquilo fizesse sentido, parte pareciam ser notas para um futuro livro, parte era tirada de uma conferência que Jaffar tinha dado e o restante consistia em blocos de texto desarticulados colados diretamente no e-mail.

Jaffar não aparece como uma espécie de descendência demoníaca de um ditador malvado, mas antes como um sujeito comum a viver nos subúrbios. Passou onze anos a trabalhar como gerente na DHL. Atualmente faz voz off em spots publicitários quando aparecem, o seu tom de voz doce convidou as pessoas a visitarem a exposição de Kampala de uma empresa de mobiliário sul-coreana chamada Hwansung, a sintonizarem o 88.2 FM e a voarem pela Qatar Airways.

Embora eu não nos descrevesse aos dois como "amigos", Jaffar e eu falámos algumas vezes ao telefone para discutir a nossa possível colaboração. Depois de cerca de um ano, os e-mails de Jaffar começaram a aparecer com mensagens de despedida como "Deus o abençoe e à sua família". Recentemente escreveu-me: "Devo-lhe um milhão de agradecimentos por mostrar o lado humano do meu pai."

Ao mesmo tempo, Jaffar começou obviamente a ficar de alguma forma cansado de falar sobre o passado. No início, quando considerou que eu tinha feito demasiadas perguntas, Jaffar respondeu: "Você pode ser um qualquer bloguista, tanto quanto sei, pois eu sempre me limitei a dar entrevistas aos meios de comunicação tradicionais, por isso considere esta a minha última correspondência consigo, receba a oferta ou simplesmente deite-a fora ou ponha-a no lixo como nós, anglófonos, gostamos de dizer."

Estava longe de ser a nossa última troca de correspondência. O silêncio foi quebrado cerca de um mês mais tarde, depois de eu ter dito a Jaffar que tinha recebido ordem oficial para avançar dos meus editores da Foreign Policy. Só posso presumir que Jaffar, que mais tarde me disse que estava à procura de parceiros para trabalharem com ele num projeto algo nebuloso de um documentário filmado que ele esperava viesse a mostrar "o outro lado de Idi Amin Dada", não quis deixar passar a hipótese da publicidade.

Para a maior parte do mundo, o nome de Idi Amin carrega conotações negras. Os anais da história colocam o falecido líder ugandês ao lado de Pol Pot, Saddam Hussein e Slobodan Milosevic no panteão dos loucos perversos. Pelo seu lado, Jaffar diz que não vê o pai "através de lentes cor-de-rosa", embora argumente que "morrem mais de fome e desgraças no Sudão e no Congo dos que os que dizem ter morrido por causa deste homem a quem chamo pai". O objetivo primordial de Idi Amin, segundo Jaffar, era "quebrar as correntes colonialistas e libertar os nossos pescoços do jugo colonialista". Para muitos, Idi Amin, um homem a quem o último embaixador dos Estados Unidos no Uganda se referiu como "Hitler em África", era um simples tirano assassino. Para Jaffar, ele foi "fantástico como pai".

Jaffar atribui alguma da persistente má vontade em relação ao pai a algumas falhas básicas de comunicação. Embora o mundo estivesse convencido de que Amin tinha um gosto por carne humana, isso não era verdade, diz Jaffar. E então o irmão de Jaffar, Moses, que foi alegadamente morto e comido pelo pai em 1974? Ele está, na verdade, "vivo e de saúde em França", segundo Jaffar.

E Jaffar diz que não é o único a acreditar que Moses está vivo. "Há alguns anos, quando eu estava nos Estados Unidos, o chefe de redação do jornal Chicago Suntimes disse que conseguiria perdoar a Amin todas as atrocidades cometidas mas nunca a de ter sacrificado o próprio filho", escreveu um conhecido a Jaffar numa carta, que ele postou então no Facebook em 2009. "Tentei, mas não o consegui convencer de que Moses Amin estava, na realidade, ainda vivo. Segundo ele, muitos ugandeses de confiança tinham-lhe contado o triste destino de Moses."

O resto da família Amin não considera necessário mudar as ideias de ninguém. Segundo Jaffar eles preferem "deixar em paz os cães adormecidos". Mas, como ele disse nas suas respostas "genéricas", "Eu sou do género que acha que vai passar o resto da minha vida a tentar explicar o legado do meu pai. E estabeleci isso como o meu objetivo pessoal ou agenda, por assim dizer".

Paixão britânica

A formulação frásica de Jaffar soa muitas vezes como se partisse de um cavalheiro inglês. Ele diz que foi exposto à cultura anglo-saxónica através da história colonial britânica do Uganda e ao que descreve como a obsessão do seu pai por tudo o que era britânico, "embora odiasse a exclusividade deles". Mas se Idi Amin odiava o snobismo das classes altas, por outro lado não se importava absolutamente nada de desfrutar das melhores coisas da vida.

Na década de 1970, Amin expropriou uma propriedade na margem do Lago Vitória para criar, nas palavras de Jaffar, a sua própria "versão de Balmoral ou Camp David". Chamou-lhe "Cape Town View". Amin também se serviu da Ilha de Mukusu, uma terra com cerca de nove hectares no lago, não muito longe de Kampala. Chamou-lhe "Paradise Island" ("Ilha do Paraíso").

Nem toda a gente achava a zona assim tão idílica. Amin atirou repetidamente "vários" dos seus ministros aos crocodilos que viviam no lago e um pescador local contou ao The Telegraph em 2002: "Quando eu estava a pescar via muitos corpos, às vezes só partes de corpos, no lago. Eles eram inimigos de Amin, portanto ele matava-os. Depois os crocodilos comiam-nos."

Abundam histórias do sadismo casual de Amin, levado a cabo durante um reinado que se veio a tornar sinónimo de brutalidade. "R", um antigo prisioneiro político, lembra-se de ver "uma grande quantidade de coisas más, muitas castrações. Eles cortavam as pessoas e faziam todo o género de coisas. Os que ainda estão vivos - o trabalho deles era de limpeza". Um professor universitário que desagradou a Amin foi mais tarde encontrado decapitado na berma de uma estrada. Henry Kyemba, um dos antigos ministros de Amin, afirmou em 1978 que este lhe tinha admitido por duas vezes que tinha comido carne humana, dizendo que esta "era mais salgada do que a carne de leopardo".

Jaffar não dedica muito tempo a refletir nos detalhes das terríveis acusações feitas ao pai. Nas suas memórias, humanizou o pai, explicando que Amin "gostava de gadgets". A coleção do pai incluía uma máquina fotográfica Polaroid de alumínio, coberta por couro castanho e as câmaras Betamax vinham do Dubai. (Entretanto, Jaffar pediu-me recentemente se eu fazia o download de um filme húngaro para uma versão HD, e transferia para uma pen e lha mandava pela FedEx para Kampala. "Nunca tive oportunidade de ver este filme como deve ser", disse ele, explicando que as quebras de energia também estavam a dificultar-lhe o acesso ao e-mail.) E, segundo Jaffar, o seu pai também gostava de conduzir o Maserati dele pelo país e aparecer em festas, funerais, reuniões de aldeia e por aí fora, sem se anunciar, deliciando os seus surpreendidos súbditos.

Aqueles que não estavam nas boas graças de Amin e que não acabavam mortos podiam, em vez disso, enfrentar humilhações públicas. Em julho de 1975, Amin obrigou um grupo de empresários britânicos a trabalhar no Uganda como convidados do regime, a transportarem--no para uma receção diplomática em cima de uma liteira. Um deles era um negociante de carros de Kampala chamado Robert Scanlon.

"Que espetáculo que aquilo foi!" escreveu Jaffar na sua página do Facebook em março passado. "Homens brancos a carregarem um negro africano! Uma hilariante verdadeira inversão de papéis!"

Jaffar afirma que os homens entraram naquilo na brincadeira e insiste: "Os brancos naquele divertido acontecimento também estavam a rir, porque não foram obrigados a carregar o papá. Fizeram-no voluntariamente." Scanlon desapareceu em 1977. Nesse ano o jornal Observer, citando uma autoridade ugandesa anónima, noticiou que ele tinha sido preso e depois espancado até à morte pelos homens de mão de Idi Amin.

O corpo dele nunca foi encontrado. Uma vez que Scanlon não está cá para contar a sua versão da história entrei em contacto com a filha dele, Chérie, agora com 51 anos. Ela é enfermeira profissional e dirige uma clínica dermatológica móvel em Blackpool, Inglaterra. Chérie tinha 14 anos na altura em que o pai desapareceu. Ao contrário de Jaffar, não vê o episódio como muito divertido.

"A minha tia contou-me que o meu pai sofreu uma grande pressão para o fazer", contou-me ela num e-mail. "Havia ameaças às vidas e segurança de outros expatriados se o meu pai não cooperasse. Os outros homens trabalhavam com e para o meu pai. Mantenho o contacto com um deles. Penso que a cadeira foi trazida da loja maçónica. O meu pai era da maçonaria."

Menos de dois anos depois do desaparecimento de Scanlon, a dissidência dentro do Uganda e a tentativa falhada de Amin de anexar a província de Kagera da Tanzânia levaram à guerra. No abril seguinte, Amin foi deposto por tropas da Tanzânia e combatentes da oposição ugandesa.

Para o exílio

Amin foi para o exílio com Jaffar, que tinha 12 anos na época, juntamente com uma comitiva de cerca de 80 ministros do seu governo, oficiais do exército e membros da família. O grupo mudou-se para a Líbia como convidados do coronel Muammar Kadhafi, que tinha sido um fiel aliado de Amin.

Mas cerca de um ano após a sua chegada, Amin ficou ofendido quando o politicamente ambicioso Kadhafi começou a aliar-se com o presidente da Tanzânia Julius Nyerere, o homem por detrás da queda de Amin. Amin viu isso como nada menos do que uma traição. Em 1980 mudou-se para Jeddah, na Arábia Saudita. Jaffar, juntamente com um pequeno grupo de irmãos e colaboradores do pai, foi com ele. (Os outros acabaram espalhados por Paris, Kinshasa e Grã-Bretanha.)

Como explicou em 2003 Brian Barron, correspondente de longa data da BBC África, "os sauditas tinham sido aliados ferrenhos, pois Idi era um muçulmano convertido que ordenou a construção de mesquitas por todo o Uganda quando estava no poder". O acordo que os sauditas fizeram com Amin em troca de um refúgio seguro foi claro: a nossa porta está aberta, mas mantém-te afastado da política e de boca fechada.

Após a chegada de Amin e sua comitiva, a Casa de Saud providenciou abrigo para ele, bem como um rendimento (Jaffar diz que era mais de 26 mil dólares por mês). Insistindo que não podia confiar em ninguém a não ser nos próprios filhos, Amin acabou por dar ordem à maior parte dos seus parasitas para saírem. Jaffar em breve deu consigo a servir de "moço de recados, cozinheiro, ajudante doméstico, banqueiro, motorista, guarda-costas, etc.".

A vida de Idi Amin no exílio parece-se mais com a de um reformado que tenta manter-se ocupado em West Palm Beach do que com a de um louco sanguinário à espera da morte. Jaffar descreve dias passados nas compras, com o supermercado como um dos destinos favoritos do pai. "Na Arábia Saudita, o pai adorava fazer compras", explicou Jaffar numa das memórias que mandou. "Por isso fazíamos muitas viagens ao centro comercial, especialmente ao Safeway."

Amin almoçava com frequência num restaurante local paquistanês, o que parece uma escolha curiosa para um homem que despojou cerca de 80 mil prósperos asiáticos do Sul residentes no Uganda das suas empresas e propriedades durante a "guerra económica" com motivação racial de 1972, antes de os expulsar do país. ("Ele deixou a controvérsia para Alá, mas sempre sentiu que precisava de que o mundo soubesse que ele tinha compensado os asiáticos britânicos", recordou Jaffar.)

Depois do almoço, era a partida para a Corniche para o habitual mergulho de Amin no mar Vermelho. O dia acabaria com um regresso a casa com "sacos cheios de mantimentos para o congelador e para o frigorífico ventilado destinado às coisas delicadas", seguido das orações das sete da tarde e do jantar.

Jaffar enviou-me recentemente algumas novas memórias da vida no exílio com o pai descrevendo um encontro casual com Louis Farrakhan da Nação do Islão no aeroporto de Jeddah, em 1989. O irmão mais novo de Jaffar, Moses, estava de regresso à escola em Paris e a família tinha ido despedir-se. Enquanto o pai matava o tempo numa máquina de refrigerantes nas proximidades, Jaffar descobriu Farrakhan com a comitiva e foi ao seu encontro para o cumprimentar. De acordo com Jaffar, o facto de ele estar a ouvir MC Hammer "divertiu" Leonard Muhammad, genro de Farrakhan e seu chefe de gabinete. "Eu disse-lhe: "Sou um dançarino exigente e na minha opinião ele é o único que poderia vencer-me numa competição de dança"."

Aos 18 anos, Jaffar deixou Jeddah e a vida do pai no exílio para se matricular no Irwin College, uma escola secundária com trezentos alunos em Leicester, Inglaterra. Para surpresa do novo aluno, a cidade foi o principal destino para os indianos do Uganda que o pai dele tinha expulsado das suas casas uma década e meia antes. Sendo assim, não é surpreendente que Jaffar tenha feito um esforço para disfarçar a sua identidade enquanto lá estava. Na verdade, estava tão determinado a passar despercebido, que o pai assinava toda a correspondência para ele com um pseudónimo, "Abu Faisal Wangita".

Regresso ao Uganda

Quando completou os estudos em Irwin, em 1989, Jaffar regressou à Arábia Saudita. Mas no ano seguinte, quando tinha 24 anos, o receio da guerra iminente do golfo Pérsico deu-lhe a motivação de que precisava para voltar para casa no Uganda. Ele não previa problemas. Tinham passado mais de dez anos desde que o pai tinha sido deposto. Embora Jaffar não acreditasse que Amin expressasse remorsos ou arrependimento por nada do que tinha feito, ele achava que o Uganda tinha tido tempo suficiente para "dar a volta".

Eu estava curioso para saber se tinha sido realmente o caso. Idi Amin foi avisado pelo governo que o substituiu que se voltasse ao Uganda iria enfrentar acusações por crimes de guerra. Ele nunca mais voltou a pôr os pés no país até à sua morte em 2003. Mas pelo menos três dos filhos voltaram a viver no Uganda, um dos quais foi condenado por homicídio por espancar e esfaquear um homem até a morte numa briga de gangues em Londres. Todo o dinheiro da família que alguma vez existiu aparentemente desapareceu e, agora, quase 36 anos mais tarde, os restantes Amin vivem uma existência bastante rotineira. Então, foram bem recebidos ou são vistos com desprezo? São odiados? Tolerados? Alguma coisa no meio?

Rebecca Severe, da região de Karamoja no Uganda, viu a maior parte da família abatida por tropas do governo num massacre de 1971 logo após Amin tomar o poder. Ela tinha 8 anos na época e nunca falou sobre o que viu, até agora.

Depois de um soldado do exército ugandês ter saído derrotado de uma disputa com um local no distrito Moroto de Karamoja, Severe lembra-se dos soldados a descerem à cidade, onde "fizeram o seu trabalho". Severe recebeu da sua tia uma panela para se proteger e foi mandada para dentro de casa para se esconder.

Severe, agora com 52 anos e sem esquecer os assassínios cometidos pelos homens de Idi Amin, não vacilou quando conheceu Jaffar numa maratona em Kampala, há uns anos. "Nós, ugandeses, não vemos os filhos como problema", disse Severe, que divide o tempo entre a Califórnia e o Uganda e me foi apresentada por um conhecido comum. "O pai é o problema para nós."

Gawaya Tegulle, um colunista e comentador político em Kampala, também viu a sua quota de brutalidade e assassínios realizados pelas forças de Amin. Para ele, as lembranças foram um pouco mais difíceis de afastar. "Aqueles de nós que realmente testemunharam as atrocidades do Sr. Amin têm alguns problemas em relação a eles", disse-me Tegulle a partir do seu escritório em Kampala. "Eu tenho pais dos meus amigos de infância que foram mortos por Amin. Vimos alguns deles serem levados para a morte e espancados. Temos crianças que gritaram aterrorizadas enquanto os pais eram torturados, enquanto eram levados. Eu vivia no terror de o meu próprio pai nunca mais voltar para casa."

"Sempre que vejo um deles, um dos filhos de Amin, ou mesmo quando ouço falar deles, vou ser franco consigo - passo-me", continuou. "Sinto um calafrio na espinha. É tão difícil. E não tenho nada contra eles. Mas temos a tendência para os ver à luz e no contexto do pai antes deles. E sei de muitos dos meus amigos que partilham sentimentos ainda mais profundos do que os meus."

Em 2006, o irmão do Jaffar, Taban Amin, foi nomeado para uma posição de destaque nos serviços de segurança estatais do Uganda pelo presidente Yoweri Museveni (algo que Tegulle disse ainda lhe ser difícil de engolir). Outro irmão, Hussein, anunciou publicamente a intenção de concorrer a um lugar no Parlamento ugandês em 2016. Embora ainda não tenha agido nesse sentido, Jaffar disse-me que tem considerado a ideia de se candidatar a um cargo governamental.

Não é uma total impossibilidade que um Amin venha mais uma vez a governar o Uganda. A população do país é a mais jovem do mundo - cerca de 78% dos ugandeses têm menos de 30 anos - e, portanto, não têm memória em primeira mão dos anos Amin. E se não for Hussein ou Jaffar, há também a possibilidade um pouco surreal de que o Uganda possa um dia vir a encontrar-se de novo com um líder de nome Idi Amin. "Serei o apoiante n.º 1 do meu segundo filho, Idi Amin, quando ele se candidatar ao mais alto cargo daqui a 40 anos, se Deus quiser." Entretanto, Jaffar ainda tem muito para contar. Quando lhe disse que este artigo iria finalmente ser publicado recebi um e-mail a dizer: "Você já se esqueceu do nosso livro!"

Exclusivo Foreign Policy/DN

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