Director do El Pais: Revelações foram "o maior acontecimento jornalístico dos últimos anos"

As revelações da Wikileaks sobre a diplomacia norte-americana foram "o maior acontecimento jornalístico dos últimos anos", suscitando debates importantes sobre o futuro da imprensa, considerou hoje o direito do jornal espanhol El Pais.

"O impacto foi gigantesco, global. Costuma dizer-se que o jornalismo é o primeiro rascunho da história. Neste caso começou a escrever-se história muito importante", comentou Javier Moreno no arranque de um debate em Madrid sobre o tema. "O impacto foi muito revelador. Muito importante na política externa, na geoestratégia e no jornalismo", sublinhou. O debate, que decorra no Museo Rainha Sofia, em Madrid e conta com as participações dos directores dos cinco jornais a quem a Wikileaks entregou o exclusivo da publicação dos telegramas filtrados da diplomacia norte-americana: Bill Keller (The New York Times), Alan Rusbridger (The Guardian), Georg Mascolo (Der Spiegel), Sylvie Kauffman (Le Monde) e Javier Moreno (El País). Para o director do jornal espanhol as revelações, mais do que o seu conteúdo em si, suscitam importantes questões sobre a forma como se faz jornalismo e como actuam os meios de comunicação tradicionais.

Ainda assim, insistiu, as revelações constituem uma "revindicação do ofício do jornalismo e das habilidades tradicionais do jornalismo", tendo neste caso sido vital "analisar a informação, contextualizá-la e transmiti-la". Referindo-se a Julian Assange, Javier Moreno disse que o responsável da Wikileaks foi "uma fonte muito importante" dos cinco jornais, que "forneceu informação e documentos" sobre os quais se tiveram que aplicar os "critérios normais de jornalismo". A dúvida surge, nesse caso, se Assange "pode ser perseguido judicialmente por fazer algo que os jornalistas fazem diariamente", nomeadamente "procurar segredos e publicá-los". Moreno referiu ainda que as revelações devem levar igualmente os jornalistas a questionar o seu papel actual, nomeadamente se "são ou não parte do sistema" sendo as filtrações "um sinal de que os media não estavam a cumprir o seu dever".

O responsável do El Pais aludiu ainda ao impacto das novas tecnologias e das redes sociais que "alteraram o ecossistema informativo", dando "mais pode às pessoas para escrever e publicar as suas opiniões" e "afectando directamente o modelo de negócio dos meios de comunicação". Para Bill Keller, diretor do poderoso New York Times, as revelações do ano passado "não representam uma nova era no jornalismo" nem levará a uma mudança radical das relações internacionais. Opinião ecoada por Sylvie Kauffman, diretora do El Monde, que apesar de considerar que as revelações não mudaram a essência do jornalismo, constituíram uma etapa "importante na luta pela transparência" na sociedade. "Foi um problema sério para a diplomacia americana, mas não foi uma catástrofe", disse Kaugffmann, que falou em espanhol e recordou o período em que estudou no País Basco.

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